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Em
foco: Gustavo Franco
Uma
nova chance
"Como
o governo vai lidar com
esse cavalo
selado que passa
a cada dez anos trazendo
um
passaporte para a história?
A entrada de capitais no Brasil exibe um padrão cíclico
que desafia explicações, mas nos permite aprender
com a história. Com efeito, o que se passa do fim de 2002
até agora em muito se parece com o que vivemos dez anos atrás,
do início de 1993 a meados de 1994. Em ambos os casos passamos
da condição de párias do mercado internacional
de capitais para a situação oposta, em que o Brasil
parecia a fronteira de oportunidade do mundo capitalista.
Ilustração Ale Setti
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Em 1994, no ciclo anterior, a euforia já vinha de algum tempo,
mas só pudemos tomar o trem quando vencemos a hiperinflação.
Da mesma forma, hoje, somente nos credenciamos a participar da imensa
abundância de liquidez que o mundo experimenta quando demonstramos
aos mercados que idéias heterodoxas e radicais em matéria
de economia vão ficar circunscritas ao circuito universitário
alternativo. É preciso estar com a casa minimamente em ordem,
e com a atitude correta, para participar dos ciclos de prosperidade
do mundo globalizado.
Pois bem, se a cada dez anos começa uma euforia desse tipo,
que pode nos servir de muitas maneiras conforme as necessidades
do momento, a pergunta a ser respondida é: como tirar proveito
dessa situação tendo em mente que os ciclos econômicos
são inescapáveis? Em algum momento a euforia vai se
reverter. Eles demoram o tempo suficiente para ficarmos na dúvida
se existem mesmo, nunca se sabe o momento exato em que começam
e quando terminam.
No ciclo anterior, a abundância de capitais nos permitiu vencer
a hiperinflação sem o ajuste fiscal, graças
à chamada "âncora cambial" e à política
monetária, o que seria impossível em outra circunstância.
Ganhamos tempo para fazer reformas, arrumar as contas públicas,
o que serviu para prolongar a abundância de capitais pois
atendia aos desejos dos mercados. Muitos problemas foram resolvidos:
privatização, abertura, saneamento do sistema bancário,
renegociação de dívidas federais, reconhecimento
de esqueletos, agendas cumpridas que o novo governo não precisa
e nem pretende revisitar. São outras as prioridades hoje,
e a pergunta, agora que temos diante de nós outro momento
de bonança externa, é como o governo vai lidar com
esse cavalo selado que passa a cada dez anos trazendo um passaporte
para a história?
Certamente não faz sentido deixar o câmbio valorizar-se
em termos nominais pois não há mais hiperinflação
e tampouco a necessidade de "âncora", seja cambial, seja monetária.
O governo dá sinais, contudo, de que quer trabalhar com o
câmbio real onde está, ou mais para cima, ou seja,
num nível muito competitivo (desvalorizado). Para tanto,
tendo em vista que vultosas entradas de capital estão jogando
o câmbio morro abaixo, a necessidade de o Banco Central intervir
séria e sistematicamente no mercado de câmbio vai se
tornar cada vez mais evidente, como ocorreu no segundo semestre
de 1994. Fixar, ou estabilizar, ou estipular um "piso" para o câmbio
real vai ser difícil de evitar se o mundo continuar assim
tão animado com o Brasil.
Nesse contexto, faz todo o sentido comprar dólares para a
recomposição das reservas, inclusive porque melhora
os indicadores de endividamento relevantes para o cálculo
do risco Brasil. Não estou certo se é o caso de reduzir
muito agressivamente a dívida interna indexada ao câmbio,
pois a alternativa é o papel prefixado, o que não
é tão bom para o Tesouro num contexto de queda agressiva,
esta sim, das taxas de juros. Na verdade, é nos juros, e
nos compulsórios, que está a grande oportunidade de
mudar o paradigma do mercado de capitais e do crescimento brasileiro.
É claro que a oportunidade é também um risco:
se malfeito, ou se desarrumar o equilíbrio fiscal e não
trouxer consigo os marcos regulatórios que favorecem o investimento,
o movimento gerará energia que vai se dispersar em consumismo,
especulação financeira e inflação. O
cavalo está selado, mas não é muito fácil
de ser conduzido.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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