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Música
Estações fora do ar
Na internet, o rádio assume novo perfil:
é coisa para fã de música alternativa

Sérgio Martins
Marcelo Correa
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| Portugal, do Skank, transmite de seu laptop:
programa catapultado da rede para a fama |
Meses atrás, o mineiro
Henrique Portugal, tecladista do grupo Skank, resolveu lançar
seu próprio programa de rádio. Do alto dos milhões
de discos vendidos por seu quarteto, ele teria cacife suficiente
para reivindicar espaço em qualquer grande estação
do país. Mas Portugal optou por um caminho diferente. Ele
decidiu veicular o Frente, programa calcado em bandas iniciantes
e artistas lançados por selos independentes, apenas na internet.
O programa é acessado diariamente por cerca de 2.000 pessoas,
sedentas por "revelações" como o trio gaúcho
Pata de Elefante ou a cantora mineira Érika Machado. A atração
também chamou a atenção de olheiros das companhias
de discos. A Universal decidiu contratar o quarteto carioca Moptop,
um dos destaques das seleções tocadas por Portugal.
Só recentemente o Frente passou a ser transmitido
por uma emissora convencional, que pode ser sintonizada em cidades
como Belo Horizonte, Recife e Fortaleza. "Mas não abro mão
do meu espaço na internet. É uma tendência sem
volta", diz o músico. De fato, as rádios virtuais
são uma atividade florescente em todo o mundo. Nos Estados
Unidos, não são incomuns casos como o da Woxy. Cultuada
pelos admiradores de rock alternativo, ela enfrentava problemas
financeiros quando sobrevivia apenas como emissora nos moldes tradicionais.
Reinventou-se, contudo, graças à internet.
Na rede, consome-se música
das mais variadas formas. Há a possibilidade de baixar canções
e discos inteiros no computador, pagando por isso ou de maneira
ilegal. Pode-se ainda compartilhar os sons preferidos com outras
pessoas nos sites de relacionamento. Ou ouvir (e também veicular)
os chamados podcasts arquivos capazes de armazenar toda uma
seleção musical. Essas ferramentas têm em comum
o fato de que cabe ao ouvinte garimpar e ordenar o que deseja. Aí
está o diferencial das rádios virtuais: sua utilidade
reside em organizar uma infinidade de nichos musicais. Tome-se o
caso da inglesa LastFM. Ela dispõe de um catálogo
intimidante até para o mais fervoroso musicólatra:
são 65 milhões de faixas de 350.000 estilos. Mas basta
o fã digitar o nome de um artista em sua barra de busca para
que a própria emissora elabore, automaticamente, uma seqüência
de canções afins com aquilo que interpreta ser o gosto
do ouvinte. Ao criar esses "pacotes" personalizados, a LastFM revela-se
também um meio fantástico para quem está à
procura de novidades do mesmo calibre. Isso, com um nível
de acerto impressionante.
O universo do rádio na
internet é vasto. Ele abarca desde a programação
das estações de massa até as transmissões
mais mambembes. Ainda que possa oferecer um conteúdo segmentado,
o rádio convencional é um veículo sujeito às
demandas do mercado. Na internet, tudo muda de figura. Como notou
o jornalista americano Chris Anderson no livro A Cauda Longa,
a rede é uma vitrine com capacidade ilimitada de expor
produtos culturais desde um megassucesso até aqueles
que serão consumidos por uma ou duas pessoas, se tanto. Por
essa natureza, tem sido um terreno especialmente fértil para
os estilos alternativos. "O tipo de música que a gente toca
não atrai muitos ouvintes. Então, por que gastar dinheiro
para manter no ar uma rádio comum?", justifica Bryan Jay
Miller, um dos donos da Woxy que deixou de operar no dial
em 2004 e hoje só existe no mundo virtual. Trata-se de um
caldo de cultura que encontra sua expressão máxima
nas college radios as rádios universitárias
americanas sem fins lucrativos, cuja especialidade é executar
os artistas mais obscuros. Isso não implica ser impopular.
Há emissoras estudantis influentes como a KCRW, considerada
um celeiro de revelações do pop ela lançou
para o mundo, por exemplo, o grupo inglês Coldplay. A internet
permitiu elevar a uma escala global o alcance de rádios como
essa. Nela, a KCRW atinge 1,8 milhão de ouvintes por mês,
do Brasil ao Japão.
O caminho inverso também
ocorre: graças à rede, artistas e DJs de países
como o Brasil conseguem levar sua produção aos mercados
alternativos de outros lugares, o que era complicado até
não muito tempo atrás. Mistura de rádio e site
de notícias, o Radiola Urbana, do jornalista Ramiro
Zwetsch, tem hoje entre seus ouvintes jovens da América Latina,
da Polônia e de países da Escandinávia. Outra
experiência nacional bem-sucedida é o Coquetel Molotov,
programa criado no Recife e que se desdobrou em fanzine e selo independente.
A proliferação dessas rádios esbarra, contudo,
na questão da regulamentação. Na Europa e nos
Estados Unidos, esse processo de organização mal começou
nem existe, ainda, um levantamento confiável do número
de rádios virtuais nesses locais. Mas, ao menos, muitas emissoras
virtuais pagam direitos autorais sobre a execução
das músicas. No Brasil, empreitadas como a de Henrique Portugal,
do Skank, são um exercício de puro diletantismo. Não
há nenhuma regra para o funcionamento dessas emissoras, nem
controle do que elas tocam. Que dirá formas de lucrar com
elas.
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