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Edição 1987 . 20 de dezembro de 2006

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Artigo: Colin J. Campbell*
O Brasil e o fim
da era do petróleo

"Em 1981, o mundo passou a usar mais
petróleo do que descobria. Esse gap está
aumentando. Em 2005, para cada cinco
barris consumidos, somente um foi encontrado"

NESTA EDIÇÃO
Eles já vivem sem petróleo
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Em Profundidade: Petróleo

O mundo não corre o risco de ficar sem petróleo tão cedo. O que enfrentamos hoje é o fim da primeira metade da era do petróleo. Ela começou há 150 anos, com a perfuração de poços no litoral do Mar Cáspio e na Pensilvânia. A energia barata, conveniente e abundante que esse combustível fóssil fornecia impulsionou o crescimento da indústria, do transporte, do comércio e da agricultura. A população mundial expandiu-se exatas seis vezes e criou volumes imensos de capital financeiro. Foi isso que deu origem à economia moderna, definindo maneiras de administrar dinheiro, investimentos e finanças nessas circunstâncias específicas. Esse óleo, em suma, acabou por controlar toda a estrutura do mundo moderno, seus negócios, sua política.

Mas o petróleo é um recurso finito, formado no passado geológico. A maior parte da produção atual vem de dois breves períodos de aquecimento global, há 90 milhões e 150 milhões de anos. A pergunta vital é a seguinte: a que distância estamos do fim da curva de seu esgotamento? O primeiro passo para responder a essa questão é saber quanto já foi descoberto até agora e quando essas descobertas ocorreram. Parecem questões simples, mas, quando nos aprofundamos no problema, descobrimos que essas indagações estão cercadas por um campo minado de confusão e desinformação. O primeiro ponto de discórdia é sobre o que medir. Existem muitas categorias de petróleo, cada uma com um custo peculiar e, acima de tudo, um perfil específico de esgotamento. Algumas são baratas, fáceis e rápidas de produzir. Outras são precisamente o oposto.


Nelson Perez/Valor
PLATAFORMA DA PETROBRAS:
a empresa colhe bons frutos por ter apostado na prospecção em águas profundas

Além da discussão em torno do que medir, as informações sobre as reservas existentes também geram grande controvérsia. Reservas são ativos financeiros e, muito corretamente, estão sujeitas a regras rígidas de comercialização. Sob esse ponto de vista, foram criadas para impedir o exagero fraudulento na divulgação de dados. Sua subavaliação passou a ser aprovada como um sinal de louvável prudência comercial. Na prática, as empresas petrolíferas informavam apenas o que precisavam informar para apresentar resultados financeiros satisfatórios. Como conseqüência, as reservas informadas foram sendo progressivamente revisadas para cima, dando a impressão muito confortante, mas ilusória, de crescimento firme, normalmente atribuído à tecnologia, quando se tratava sobretudo de um artifício da divulgação de relatórios.

O fato é que, na medida do possível, tudo indica que a descoberta mundial de petróleo esteve em queda desde meados da década de 1960. Portanto, não há um bom motivo para esperar que a atual tendência de declínio mude de direção. Além do mais, em 1981, o mundo começou a usar mais petróleo do que descobria, e essa diferença está aumentando. Em 2005, para cada cinco barris consumidos, só um foi encontrado. Normalmente, a produção de petróleo começa a cair depois que metade do total disponível é extraída. Hoje, perto de cinqüenta países produzem menos do que no passado.

É por isso que a segunda metade da era do petróleo está nascendo. Os altos preços em tempos recentes marcam o início dessa nova época, na qual não há capacidade de reserva material nem esperança de assegurá-la em um nível significativo. Existem riscos de que a transição para o declínio seja um período de grande tensão internacional, que pode levar alguns países a tentar obter o controle das reservas remanescentes por meios militares.

O caso brasileiro – O Brasil não pareceu, a princípio, ser um país de grandes jazidas para as empresas petrolíferas internacionais. Isso estimulou o governo a criar a Petrobras, que descobriu alguns campos modestos na Amazônia e em regiões vizinhas. Posteriormente, a atenção voltou-se para o mar, a fim de verificar se as áreas em águas profundas brasileiras teriam características semelhantes aos locais de prospecção no litoral da África, do outro lado do Atlântico. A empresa venceu os enormes desafios tecnológicos para atuar a mais de 500 metros de profundidade e foi recompensada com a descoberta de alguns campos gigantes de petróleo.

Essas reservas surgiram a partir de lagos que se formaram em depressões. Eles apareceram quando o Atlântico começou a se abrir, cerca de 120 milhões de anos atrás, e as algas proliferaram nas águas aquecidas pelo sol. Os resíduos orgânicos depositaram-se nas profundezas estagnadas do mar, onde foram enterrados por sedimentos mais jovens trazidos pelas águas dos rios. A água do mar ocasionalmente invadia os lagos e deu origem a camadas de sal que ajudaram a selar o material orgânico até que ele fosse aquecido o bastante para ser convertido em petróleo e gás. Mais tarde, há cerca de 60 milhões de anos, areia e argila precipitaram-se, de modo caótico, ao longo dos declives continentais, mas foram novamente suspensas por correntes litorâneas e redepositadas na forma de dunas de areia, formando excelentes reservatórios para o petróleo. A combinação dessas circunstâncias é realmente impressionante e significa que existem limites para a formação do petróleo.

As informações disponíveis sugerem que a produção do Brasil atingirá o auge de 5 milhões de barris por dia em 2011 (a estimativa da Petrobras é de 2,3 milhões de barris por dia em 2010). A partir daí, começará a declinar, de tal modo que o país deixará de ser auto-suficiente, mantidos os atuais níveis de consumo, por volta de 2020. Nessas circunstâncias, faria sentido que o governo fortalecesse a Petrobras, talvez comprando empresas estrangeiras, com a finalidade de preservar o máximo possível de reservas para o povo brasileiro – atualmente 187 milhões de pessoas, cada uma consumindo em média 3,6 barris por ano.

A segunda metade da era do petróleo será caracterizada por uma queda no suprimento do insumo e de tudo o que depende dele – o que inclui, por conseqüência, o capital financeiro. Isso pode anunciar o fim da economia como ela é entendida atualmente, o que seria acompanhado por uma profunda depressão. É impossível prever o curso dos eventos porque a transição para o declínio é uma descontinuidade sem precedentes e de proporções históricas, já que nunca antes um recurso tão importante quanto o petróleo se tornou escasso sem a perspectiva de um substituto melhor. Todos os países e todas as comunidades enfrentam as conseqüências dessa nova situação.

Não existe uma solução no sentido de descobrir petróleo e gás suficientes para prolongar o período passado, mas certamente existem respostas por meio das quais os países podem se planejar e se preparar. Não é difícil adotar alguns procedimentos úteis:

Avaliar a situação real corretamente para evitar ser levado ao erro por previsões enganosas anunciadas por organizações internacionais, em parte por motivos políticos.

Realizar um amplo programa de educação pública, para que todos possam tomar consciência sobre a questão da energia.

Estimular o rápido desenvolvimento de energias renováveis, de marés, ondas, sol, vento e fontes hidrelétricas, inclusive a produção de cultivos energéticos, como o Brasil tem sido pioneiro com sucesso.

Reavaliar a opção nuclear, incluindo, por exemplo, os novos sistemas em pequena escala resfriados a gás e protegidos contra falhas.

Promover um protocolo internacional por meio do qual os países reduzam as importações de modo correspondente à taxa mundial de esgotamento, atualmente em torno de apenas 2,5% ao ano.

Esse não é necessariamente um cenário de apocalipse, uma vez que existem soluções, mas que envolvem mudanças radicais de estilo de vida. Certamente, os países que estão mais preparados para enfrentar essa segunda metade da era do petróleo terão uma grande vantagem competitiva. Mas, ainda assim, a transição promete ser um período de grande tensão.

* Colin J. Campbell é Ph.D. pela Universidade de Oxford. Atualmente, dirige a Association for the Study of Peak Oil & Gas (ASPO), com sede na Irlanda. A entidade está presente em catorze países e monitora a produção e o mercado mundial de energia de origem fóssil

 
 
 
 
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