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Artigo: Colin
J. Campbell*
O Brasil e o fim
da era do petróleo
"Em 1981, o mundo passou a usar mais
petróleo do que descobria. Esse gap está
aumentando. Em 2005, para cada cinco
barris consumidos, somente um foi encontrado"
O mundo não corre o risco de ficar sem
petróleo tão cedo. O que enfrentamos hoje é
o fim da primeira metade da era do petróleo. Ela começou
há 150 anos, com a perfuração de poços
no litoral do Mar Cáspio e na Pensilvânia. A energia
barata, conveniente e abundante que esse combustível fóssil
fornecia impulsionou o crescimento da indústria, do transporte,
do comércio e da agricultura. A população mundial
expandiu-se exatas seis vezes e criou volumes imensos de capital
financeiro. Foi isso que deu origem à economia moderna, definindo
maneiras de administrar dinheiro, investimentos e finanças
nessas circunstâncias específicas. Esse óleo,
em suma, acabou por controlar toda a estrutura do mundo moderno,
seus negócios, sua política.
Mas o petróleo é um recurso
finito, formado no passado geológico. A maior parte da produção
atual vem de dois breves períodos de aquecimento global,
há 90 milhões e 150 milhões de anos. A pergunta
vital é a seguinte: a que distância estamos do fim
da curva de seu esgotamento? O primeiro passo para responder a essa
questão é saber quanto já foi descoberto até
agora e quando essas descobertas ocorreram. Parecem questões
simples, mas, quando nos aprofundamos no problema, descobrimos que
essas indagações estão cercadas por um campo
minado de confusão e desinformação. O primeiro
ponto de discórdia é sobre o que medir. Existem muitas
categorias de petróleo, cada uma com um custo peculiar e,
acima de tudo, um perfil específico de esgotamento. Algumas
são baratas, fáceis e rápidas de produzir.
Outras são precisamente o oposto.
Nelson Perez/Valor
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PLATAFORMA DA PETROBRAS:
a empresa colhe bons frutos por ter apostado na prospecção
em águas profundas |
Além da discussão em torno do
que medir, as informações sobre as reservas existentes
também geram grande controvérsia. Reservas são
ativos financeiros e, muito corretamente, estão sujeitas
a regras rígidas de comercialização. Sob esse
ponto de vista, foram criadas para impedir o exagero fraudulento
na divulgação de dados. Sua subavaliação
passou a ser aprovada como um sinal de louvável prudência
comercial. Na prática, as empresas petrolíferas informavam
apenas o que precisavam informar para apresentar resultados financeiros
satisfatórios. Como conseqüência, as reservas
informadas foram sendo progressivamente revisadas para cima, dando
a impressão muito confortante, mas ilusória, de crescimento
firme, normalmente atribuído à tecnologia, quando
se tratava sobretudo de um artifício da divulgação
de relatórios.
O fato é que, na medida do possível,
tudo indica que a descoberta mundial de petróleo esteve em
queda desde meados da década de 1960. Portanto, não
há um bom motivo para esperar que a atual tendência
de declínio mude de direção. Além do
mais, em 1981, o mundo começou a usar mais petróleo
do que descobria, e essa diferença está aumentando.
Em 2005, para cada cinco barris consumidos, só um foi encontrado.
Normalmente, a produção de petróleo começa
a cair depois que metade do total disponível é extraída.
Hoje, perto de cinqüenta países produzem menos do que
no passado.
É por isso que a segunda metade da
era do petróleo está nascendo. Os altos preços
em tempos recentes marcam o início dessa nova época,
na qual não há capacidade de reserva material nem
esperança de assegurá-la em um nível significativo.
Existem riscos de que a transição para o declínio
seja um período de grande tensão internacional, que
pode levar alguns países a tentar obter o controle das reservas
remanescentes por meios militares.
O caso brasileiro O Brasil não
pareceu, a princípio, ser um país de grandes jazidas
para as empresas petrolíferas internacionais. Isso estimulou
o governo a criar a Petrobras, que descobriu alguns campos modestos
na Amazônia e em regiões vizinhas. Posteriormente,
a atenção voltou-se para o mar, a fim de verificar
se as áreas em águas profundas brasileiras teriam
características semelhantes aos locais de prospecção
no litoral da África, do outro lado do Atlântico. A
empresa venceu os enormes desafios tecnológicos para atuar
a mais de 500 metros de profundidade e foi recompensada com a descoberta
de alguns campos gigantes de petróleo.
Essas reservas surgiram a partir de lagos
que se formaram em depressões. Eles apareceram quando o Atlântico
começou a se abrir, cerca de 120 milhões de anos atrás,
e as algas proliferaram nas águas aquecidas pelo sol. Os
resíduos orgânicos depositaram-se nas profundezas estagnadas
do mar, onde foram enterrados por sedimentos mais jovens trazidos
pelas águas dos rios. A água do mar ocasionalmente
invadia os lagos e deu origem a camadas de sal que ajudaram a selar
o material orgânico até que ele fosse aquecido o bastante
para ser convertido em petróleo e gás. Mais tarde,
há cerca de 60 milhões de anos, areia e argila precipitaram-se,
de modo caótico, ao longo dos declives continentais, mas
foram novamente suspensas por correntes litorâneas e redepositadas
na forma de dunas de areia, formando excelentes reservatórios
para o petróleo. A combinação dessas circunstâncias
é realmente impressionante e significa que existem limites
para a formação do petróleo.
As informações disponíveis
sugerem que a produção do Brasil atingirá o
auge de 5 milhões de barris por dia em 2011 (a estimativa
da Petrobras é de 2,3 milhões de barris por dia em
2010). A partir daí, começará a declinar,
de tal modo que o país deixará de ser auto-suficiente,
mantidos os atuais níveis de consumo, por volta de 2020.
Nessas circunstâncias, faria sentido que o governo fortalecesse
a Petrobras, talvez comprando empresas estrangeiras, com a finalidade
de preservar o máximo possível de reservas para o
povo brasileiro atualmente 187 milhões de pessoas,
cada uma consumindo em média 3,6 barris por ano.
A segunda metade da era do petróleo
será caracterizada por uma queda no suprimento do insumo
e de tudo o que depende dele o que inclui, por conseqüência,
o capital financeiro. Isso pode anunciar o fim da economia como
ela é entendida atualmente, o que seria acompanhado por uma
profunda depressão. É impossível prever o curso
dos eventos porque a transição para o declínio
é uma descontinuidade sem precedentes e de proporções
históricas, já que nunca antes um recurso tão
importante quanto o petróleo se tornou escasso sem a perspectiva
de um substituto melhor. Todos os países e todas as comunidades
enfrentam as conseqüências dessa nova situação.
Não existe uma solução
no sentido de descobrir petróleo e gás suficientes
para prolongar o período passado, mas certamente existem
respostas por meio das quais os países podem se planejar
e se preparar. Não é difícil adotar alguns
procedimentos úteis:
Avaliar a situação real corretamente para evitar ser
levado ao erro por previsões enganosas anunciadas por organizações
internacionais, em parte por motivos políticos.
Realizar um amplo programa de educação pública,
para que todos possam tomar consciência sobre a questão
da energia.
Estimular o rápido desenvolvimento de energias renováveis,
de marés, ondas, sol, vento e fontes hidrelétricas,
inclusive a produção de cultivos energéticos,
como o Brasil tem sido pioneiro com sucesso.
Reavaliar a opção nuclear, incluindo, por exemplo,
os novos sistemas em pequena escala resfriados a gás e protegidos
contra falhas.
Promover um protocolo internacional por meio do qual os países
reduzam as importações de modo correspondente à
taxa mundial de esgotamento, atualmente em torno de apenas 2,5%
ao ano.
Esse não é necessariamente um
cenário de apocalipse, uma vez que existem soluções,
mas que envolvem mudanças radicais de estilo de vida. Certamente,
os países que estão mais preparados para enfrentar
essa segunda metade da era do petróleo terão uma grande
vantagem competitiva. Mas, ainda assim, a transição
promete ser um período de grande tensão.
* Colin J. Campbell é Ph.D. pela Universidade
de Oxford. Atualmente, dirige a Association for the Study of Peak
Oil & Gas (ASPO), com sede na Irlanda. A entidade está
presente em catorze países e monitora a produção
e o mercado mundial de energia de origem fóssil
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