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Especial
Eles já vivem sem petróleo
A Idade da Pedra não acabou por falta de pedra. A era do petróleo
também começou a acabar mesmo antes de esgotadas as reservas
do combustível fóssil. Esta reportagem mostra como vivem as
pessoas que já deram o salto rumo à vida com novas formas de
energia  Carlos
Rydlewski Lailson
Santos
 | A
INOVAÇÃO ESTÁ NO AR Oito em
cada dez carros de passeio saem de fábrica no Brasil com motor bicombustível.
Em aviões isso ainda é novidade, mas, desde 2004, a Neiva, unidade
da Embraer, produz aviões a álcool. Diz o engenheiro Vicente Camargo,
de 40 anos: "Nosso motor aumenta em 5% a potência do aparelho". |
O aposentado Evaldo Silva Rodrigues
mora em Arraial do Cabo, no litoral do Rio de Janeiro, numa área de preservação
ambiental. Ali, mesmo os serviços públicos corriqueiros dificilmente
chegam ao consumidor. Cansado de usar geradores de energia movidos a diesel, poluentes
e barulhentos, Rodrigues apostou há três anos na energia eólica,
beneficiando-se dos ventos abundantes da região. O projeto começou
pequeno, com geração de eletricidade suficiente para manter apenas
dez lâmpadas acesas. Mas se expandiu. Hoje, uma torre com um cata-vento
instalado a 12 metros do chão chamado de aerogerador fornece
quase metade do consumo de eletricidade da casa do aposentado. A rede pública
já chegou a Arraial do Cabo, mas Rodrigues nem pensa em abandonar a geração
eólica própria. "Quando acaba a luz na região, ficamos apenas
eu e minha mulher vendo televisão", diz. A participação dos
parques eólicos na matriz energética brasileira ainda é pequena.
Representa 0,0018% do consumo nacional. Mas já permite que 180.000 famílias,
como a do aposentado Rodrigues, dêem um tremendo salto para um mundo onde
o caro e poluente petróleo tem participação apenas coadjuvante.
Gustavo Borges, medalhista olímpico
de natação, seguiu caminho semelhante. Usa coletores solares para
o aquecimento das quatro piscinas de duas academias que mantém em São
Paulo e em Curitiba. O sistema também conta com eletricidade convencional
e gás para garantir temperaturas da água que variam entre 29,5 e
32 graus. Mas, em dias quentes e ensolarados, o aquecedor solar dá conta
do recado. "Em São Paulo, temos um aproveitamento melhor do que em Curitiba
por causa do maior número de dias de sol, mas nas duas cidades a instalação
dos equipamentos foi um bom negócio", diz o ex-atleta. "Gostei tanto do
sistema que estou construindo uma casa no interior paulista com aquecimento solar
da água." O potencial brasileiro
desse tipo de fonte também é especialmente elevado. No país,
a energia solar média diária que incide em uma superfície
horizontal é de 5 quilowatts-hora por metro quadrado (kWh/m2).
Na Alemanha, que tem realizado grandes investimentos nessa fonte, é de
apenas 3 kWh/m2. Assim como no caso da energia eólica, o potencial
é grande, mas ainda pouco explorado. A participação da energia
captada do Sol na matriz energética nacional é inferior a 1%. Mas,
colocados lado a lado, os coletores usados para o aquecimento de água ocupariam
uma área de 3 milhões de metros quadrados no país, o equivalente
a duas vezes o espaço do Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Em
Belo Horizonte, cidade com o maior número desses aparelhos no Brasil, um
sistema para uma família de cinco pessoas custa 1 500 reais, investimento
que pode ser recuperado em três anos. Além dos coletores, que são
uma espécie de caixas metálicas ou plásticas que aproveitam
a radiação para aquecer diretamente a água (do banho, da
cozinha ou de piscinas), há também aparelhos chamados de módulos
fotovoltaicos. Caros e importados, são capazes de fornecer no país
15 megawatts de energia de pico (a potência máxima obtida em condições
ideais de radiação), suficientes para abastecer 5 000 residências.
Fabiano
Accorsi
 | Lailson
Santos
 | OS
INVENTORES Os técnicos da Magneti Marelli
(à esq.) criaram uma versão de motor que suporta quatro combinações
de combustíveis. Fábio Ferreira, da Bosch, participou do parto do
sistema flex: "O pulo-do-gato foi o software, que analisa a fumaça do escapamento
e identifica a mistura que está sendo usada no tanque do carro" |
Exemplos como o do aposentado Rodrigues e o de Gustavo Borges são uma minoria.
No entanto, revelam maneiras inovadoras de como os brasileiros podem aproveitar-se
de uma situação invejável do país, num momento em
que a sustentabilidade ambiental deixou de ser apenas um tema de conferências
para tornar-se uma necessidade. O Brasil está na liderança de uma
revolução. Em 2005, a oferta interna de energia no país atingiu
218,6 milhões de toneladas equivalentes de petróleo. Desse total,
97,7 milhões, ou 44,7%, eram renováveis. Essa proporção
contrasta significativamente com a média mundial, que é de apenas
13,3%. Entre os países que compõem a Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a média
é de modestíssimos 6% para a participação das energias
renováveis. Essa posição brasileira é resultado, principalmente,
da participação das fontes hidrelétricas e do etanol na matriz
energética nacional. Juntas, representam 28,9% da oferta total de energia.
A atual vedete brasileira no cenário
mundial é o etanol. O Brasil é o maior produtor mundial de álcool
combustível e o faz ao custo mais baixo do planeta o litro do produto
nacional, obtido a partir da cana-de-açúcar, custa 33 centavos de
dólar, contra 43 centavos de dólar do equivalente americano, feito
do milho. A demanda (interna e externa) cresce permanentemente. Em novembro, foram
licenciados 173.987 veículos no Brasil, 81,4% deles com motor bicombustível.
Eram 3% em 2003. Alguns fatos mostram a escala desse processo e suas tendências.
Ao fim de um dia de trabalho, um taxista em uma cidade como São Paulo gasta
até 18 litros de álcool. Tal nível de consumo exige 7,3 hectares
de cana-de-açúcar por ano, o equivalente a quase sete campos de
futebol. Até aviões
são produzidos com motor a álcool. A primeira aeronave de série
no mundo a sair da fábrica com certificado para voar com esse tipo de combustível
foi o Ipanema, construído pela Neiva, unidade da Embraer em Botucatu (SP).
Inovações como essa cercam o setor sucroalcooleiro de prognósticos
otimistas. A produção de álcool no Brasil deve dobrar em
dez anos, passando dos 16 bilhões de litros em 2005 para 36,8 bilhões
de litros em 2015. No mesmo período, as exportações podem
passar de 2,6 bilhões de litros para 28,4 bilhões de litros. Existe
um total de 89 usinas em projeto ou em construção no país.
Elas devem entrar em operação até 2012 e representam um investimento
de 12 bilhões de dólares. Fabiano
Accorsi
 | CÉLULAS
DO FUTURO Gerhard Ett, da Electrocell, de São
Paulo, quer vender a partir de 2007 células de combustível à base de hidrogênio
para setores que precisam de fornecimento com alto grau de confiabilidade, como
hospitais e bancos |
A cana-de-açúcar, planta que chegou ao Brasil pelas mãos
do fidalgo português Martim Afonso de Souza, em 1532, é ainda um
produto com um pendor à eficiência e à versatilidade. A queima
do seu bagaço produz energia elétrica. Hoje, existem 335 usinas
no país e quase todas geram a própria eletricidade a partir da queima
da sobra da cana produzida por elas. A maioria chega a vender o excedente. A oferta
brasileira dessa modalidade de bioeletricidade chega a 1.642 megawatts (MW) de
potência instalada, o suficiente para abastecer uma área com 3,2
milhões de habitantes, quase equivalente à população
do Uruguai. O físico Amory
B. Lovins, responsável pelo Rocky Mountain Institute (RMI), um dos principais
centros de pesquisa ambiental do planeta, no Colorado, Estados Unidos, acredita
que o sucesso do etanol coloca o Brasil como referência mundial de uma das
três revoluções que estão transformando os sistemas
globais de energia. São elas o uso cada vez mais eficiente dos recursos
disponíveis, a descentralização no fornecimento e, por fim,
o abastecimento renovável. "O Brasil é o líder dessa terceira
frente de transformações e pode assumir o primeiro lugar também
nas outras duas", disse Lovins a VEJA. O especialista acredita ainda que o mundo
em geral e o Brasil em particular têm muito a ganhar com os "negawatts"
como denomina a eletricidade economizada. Ela pode resultar de fábricas
com grandes janelas, por onde possam entrar luz e calor, ou mesmo lâmpadas
compactas fluorescentes (cinco vezes mais eficientes do que as incandescentes,
que consomem 50% da energia de iluminação comercial do país
e 90% da residencial). Outra aposta
brasileira no campo da agroenergia é o biodiesel. Trata-se de um combustível
que pode ser extraído de ampla variedade de plantas soja, mamona,
dendê, girassol, amendoim e algodão. Mas é adequado a veículos
grandes, com motores a combustão. Os carros de passeio, que rodam com álcool
ou gasolina, usam ignição por centelha. O Programa Nacional de Produção
e Uso do Biodiesel, criado pelo governo em 2004, prevê a adição
obrigatória de 2% desse combustível ao diesel a partir de 2008 e
o aumento desse porcentual para 5% em 2013. Mas, para cumprir essas metas, a primeira
grande tarefa do governo é organizar a rede de produção do
novo combustível. O Brasil
tem treze usinas autorizadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP),
instaladas em nove estados. Juntas, elas têm capacidade para produzir 445
milhões de litros de biodiesel por ano. Para abastecer a frota nacional
e suprir a demanda a ser criada dentro de dois anos, serão necessários
840 milhões de litros anuais do produto. A ANP acredita que a construção
de 25 usinas, cujo processo está em andamento, permitirá que o cronograma
seja cumprido. Em tese, com o biodiesel será possível reduzir a
despesa com a importação do óleo diesel, o que proporcionaria
uma economia de divisas da ordem de 350 milhões de dólares por ano.
A Alemanha é o maior produtor e consumidor mundial de biodiesel. O país
possui centenas de postos que vendem o combustível puro, que dispensa o
diesel mineral. Oscar
Cabral
 | VAIVÉM
PROMISSOR No Rio, o professor Segen Estefen,
da UFRJ, criou um sistema que capta energia das ondas e deve ser construído em
2007, no litoral do Ceará |
A professora Suzana Kahn Ribeiro, da Coordenação dos Programas de
Pós-Graduação de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), acredita que o mundo vai sair da "era do petróleo"
para entrar na "era da diversidade energética". Esse processo avança
em velocidade considerável e com novidades permanentes saindo dos laboratórios.
"Não há dúvida de que passamos pelo período com o
mais elevado nível de inovação tecnológica da história
do setor energético", disse a VEJA Daniel Yergin, presidente da consultoria
Cambridge Energy Research Associates (Cera) e autor do clássico The
Prize (O Prêmio), sobre a indústria do setor, livro com o qual
ganhou o Prêmio Pulitzer, em 1992.
Técnicos e cientistas prevêem cada vez mais a possibilidade de o
fim do consumo do petróleo não se dar por causa do esgotamento de
suas fontes naturais. Ocorrerá, sim, mas pelo aniquilamento da capacidade
do planeta em absorver os gases provenientes de sua combustão o
dióxido de carbono, por exemplo, é apontado como o grande vilão
do efeito estufa, responsável pelo aquecimento global. Somado às
abruptas oscilações de preço e aos impasses geopolíticos
intrínsecos a essas fontes, o problema ambiental só confere urgência
ainda maior à mudança da matriz energética global. Daí
a importância da passagem cada vez mais rápida das pessoas para o
mundo pós-petróleo. Atualmente, os combustíveis fósseis
são responsáveis pelo fornecimento de 75,6% da energia mundial.
O que se pretende é atenuar ao máximo essa participação,
ampliando a cota de fontes limpas, renováveis e que não coloquem
em risco a segurança dos países. A tarefa, contudo, representa um
dos maiores desafios que a humanidade já enfrentou, tanto no aspecto técnico
e científico como no político e econômico. Ponto para as pessoas
e empresas que já deram o salto rumo à vida com novas formas de
energia.
O OUTRO DIESEL Lailson
Santos
 | O
pesquisador Dabdoub, da USP, já testa a adição de 30% de biodiesel ao diesel
comum em caminhões no interior de SP |
Um programa criado pelo governo federal prevê a adição obrigatória
em todo o Brasil de 2% de biodiesel, feito a partir de óleos vegetais,
ao tradicional óleo diesel. Para cumprir essa meta, a partir de 2008 será
preciso dobrar a capacidade atual de produção do combustível.
O engenheiro químico Miguel Dabdoub, do Laboratório de Desenvolvimento
de Tecnologias Limpas (Ladetel), da USP, em Ribeirão Preto (SP), é
um dos pioneiros nesse ramo de pesquisa e um entusiasta da tecnologia no Brasil.
Ele acredita que será possível substituir totalmente o diesel tradicional
pelo equivalente vegetal. Em países como a Alemanha, esse processo de troca
já começou. "No Brasil, a substituição só vai
depender do desafio de produzir óleos vegetais na escala adequada, pois,
sob o aspecto técnico, não há empecilho", diz. O pesquisador
já testa uma mistura de 30% de biodiesel, produzido a partir de soja e
mamona, em caminhões de uma distribuidora de refrigerantes do interior
paulista. | |
PIRUETAS DO CONTADOR Mirian
Fichtner
 | | Hans
Rahn, no teto do prédio, em Porto Alegre, entre painéis fotovoltaicos: em domingos
com sol, até sobra energia |
Em
domingos ensolarados, sobra energia no edifício de quatro andares em Porto
Alegre (RS) onde moram o eletrotécnico alemão Hans Dieter Rahn e
outras nove pessoas. Rahn, há 55 anos radicado no Brasil, instalou no prédio
um sistema que converte a radiação solar em energia elétrica.
O modelo é formado por 45 painéis fotovoltaicos que ocupam uma área
de 40 metros quadrados. Durante a semana, quando estão abertos o escritório
e a loja que funcionam no prédio, as placas fornecem 20% do consumo total
de energia. No Brasil, existem perto de vinte sistemas semelhantes ao de Rahn.
São poucos porque são caros. O eletrotécnico gastou 40.000
reais com os equipamentos. Uma instalação convencional custaria
1.000 reais. Rahn espera zerar o investimento em quinze anos. "Vale a pena dar
esse passo para o futuro", diz o eletrotécnico. Nélio
Rodrigues/1º Plano
 | | Equipamento
simula raios solares para teste de coletores em Belo Horizonte: só há seis aparelhos
desse tipo no mundo |
Apesar
de os painéis fotovoltaicos não serem comuns, outro aparelho, o
coletor de energia solar usado no aquecimento de água, é popular
em algumas regiões do Brasil. Em Belo Horizonte, a cidade com o maior número
desses equipamentos no país, um sistema para uma família de cinco
pessoas custa 1.500 reais, um investimento que é recuperado em três
anos. "O governo devia criar uma bolsa solar", diz Elizabeth Pereira, coordenadora
do Green Solar (Centro Brasileiro para Desenvolvimento da Energia Solar Térmica),
com sede na PUC-MG. Há 3 milhões de metros quadrados desses coletores
no Brasil, numa área equivalente a dois parques como o do Ibirapuera, em
São Paulo. Oitenta por cento deles em 600 000 residências. Os 20%
restantes ficam em hotéis, hospitais e restaurantes. |
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COM O VENTO A FAVOR Mirian
Fichtner
 | QUIXOTE
MODERNO As torres de 98 metros chamam atenção
na usina eólica de Osório (RS), mas a tecnologia ainda é uma promessa |
O Brasil está construindo uma usina de torres eólicas que será
a maior da América Latina e uma das quatro maiores do mundo. Trata-se do
Parque Eólico de Osório, no litoral norte do Rio Grande do Sul.
São 75 torres de 98 metros de altura, cada uma equivalente a um prédio
de 25 andares. Elas sustentam aerogeradores ao longo de filas de até 12
quilômetros de extensão. O complexo, que deve entrar em operação
total em janeiro de 2007, terá capacidade instalada de 150 megawatts, o
suficiente para atender ao consumo residencial de 650 000 pessoas. O Brasil ainda
faz uso incipiente desses cata-ventos gigantes. A energia eólica representa
0,0018% do consumo de energia nacional. São somente 180 megawatts instalados,
que podem atender 180 000 famílias. Mas a tecnologia tem grande potencial
no país. Levantamento publicado em 2001 pelo Centro de Pesquisas de Energia
Elétrica (Cepel) indica que o Brasil teria condições de gerar
143 500 megawatts de energia a partir do vento, o correspondente à capacidade
de onze usinas como Itaipu. Atualmente, a energia eólica representa 0,8%
do mercado mundial de eletricidade. A expectativa é que alcance um terço
da energia elétrica consumida no planeta em 2030. | |
Com reportagem de
Ana Paula Baltazar, Frances Jones, Morgana Campos, Rodrigo Squizato, Úrsula
Alonso Manso e Yuri Vasconcelos |