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Genética A
última evolução Há
poucos milhares de anos, uma mutação genética permitiu o
consumo de leite entre pessoas adultas  Leoleli
Camargo
Royalty-Free/Corbis/Stock
Photos  | | Nômades
massais: alimentação à base de leite e também de sangue |
A
descoberta de uma transformação evolutiva ocorrida na África
há apenas 4 000 anos, revelada na semana passada numa pesquisa da Universidade
de Maryland, esclarece uma dúvida da ciência e oferece mais uma prova
espetacular da acuidade das teorias do naturalista inglês Charles Darwin.
O desafio dos pesquisadores, liderados pela geneticista americana Sarah Tishkoff,
era descobrir por que entre alguns povos africanos os adultos apresentam boa tolerância
ao consumo de leite, o que não acontece com a maior parte da população
daquele continente. A capacidade de digerir a lactose, o principal açúcar
do leite, vai desaparecendo à medida que cessa a amamentação.
Os adultos que podem continuar a tomar leite sem sofrer perturbações
gástricas têm uma mutação num gene responsável
pela enzima que processa a lactose. Quando o gado foi domesticado pela primeira
vez, há 9.000 anos, e as pessoas começaram a consumir seu leite
além da carne, a seleção natural favoreceu aqueles com tolerância
à lactose.
Charles
Oniams/AFP  | | Família
da etnia beja, do Sudão: mais bem alimentados que os vizinhos |
Uma
mutação desse tipo ocorreu entre 5.000 e 6.000 anos atrás
entre povos criadores de gado no norte e no centro da Europa. Hoje, quase todos
os holandeses e 99% dos suecos têm tolerância ao leite índices
muito maiores que os de outros países da Europa. Na Hungria e na Polônia
apenas 35% dos adultos toleram a lactose. Os cientistas de Maryland queriam saber
se a mutação da tolerância à lactose entre os europeus,
descoberta em 2002, existia entre povos pastoris de outros lugares. Depois de
pesquisarem 43 grupos étnicos da Tanzânia, do Quênia e do Sudão,
constataram que, nessas populações, a capacidade de digerir o leite
é propiciada por três mutações genéticas distintas
entre si, e todas diferentes daquela que confere aos europeus a tolerância
à lactose.
A descoberta é
considerada por arqueólogos, antropólogos e geneticistas uma espetacular
evidência de convergência evolutiva. Isso ocorre quando duas ou mais
populações adquirem uma mesma característica de forma totalmente
independente. Sarah e sua equipe descobriram que a principal das três mutações,
encontrada em grupos étnicos do Quênia e da Tanzânia, coincide
com evidências arqueológicas de que tribos pastoris habitaram essas
regiões entre 2.700 e 6.800 anos atrás. Ao estudarem os genes dos
povos africanos incluídos na pesquisa, os cientistas puderam confirmar
o que já suspeitavam: as mutações lhes conferiram grandes
vantagens na evolução da espécie. Bem alimentados com produtos
lácteos, povos como os beja, do Sudão, produzem dez vezes mais descendentes
do que populações da mesma região que não possuem
o gene mutante que as tornaria tolerantes ao leite.
A genética e a lactose
A capacidade de digerir o leite nos adultos depende da mutação em
um gene que permite ao organismo absorver os açúcares que o alimento
contém. A tolerância varia entre as populações
Não conseguem digerir lactose
65% da população mundial
50% dos brasileiros
99% dos chineses
1% dos suecos | |
Darwin, em sua teoria da evolução,
explicou que a mutação genética ocorre de forma espontânea
e aleatória e pode se espalhar dentro de uma população por
meio da reprodução, sem levar em conta se aumenta ou diminui a chance
de sobrevivência em um determinado ambiente. O que evita o caos é
um processo que o naturalista inglês chamou de seleção natural.
Esse processo beneficia a multiplicação, através das gerações,
de mutações que aumentem a chance de sobrevivência e de procriação
num determinado meio ambiente. Ou seja, o mais bem adaptado terá mais filhos
e acabará por transmitir às gerações seguintes sua
mudança genética benéfica. Caso a mudança torne o
indivíduo menos adaptado ao ambiente, a sobrevivência da espécie
ficará ameaçada, pois aqueles que carregam a mutação
terão nenhum ou poucos descendentes. A teoria é bem conhecida
mas raras vezes antes foi possível vê-la funcionar de forma tão
explícita entre os seres humanos.
Embora seja impossível especificar quais influências ambientais propiciaram
vantagens evolutivas aos povos africanos estudados, os cientistas estão
convencidos de que a domesticação do gado foi uma delas. Quem tinha
a alteração genética podia usar o leite como alimento, beneficiando-se
do cálcio e da energia extra da lactose. Em épocas de seca, a água
limpa contida no leite matava a sede. Quem não tinha tolerância ao
leite, mas tentava hidratar o organismo com ele, arriscava-se a perder ainda mais
água devido a diarréias. "No que diz respeito às bases genéticas
da tolerância à lactose, as diferenças entre os europeus e
essas etnias africanas mostram que, mesmo tendo habitado regiões diferentes
do globo, seus ancestrais desenvolveram uma mesma característica", disse
a VEJA Sarah Tishkoff, a coordenadora da pesquisa. Algumas populações
chegaram a depender quase totalmente dos produtos lácteos. O exemplo mais
expressivo é o do povo massai, pastores nômades do Quênia que
se alimentam não apenas do leite e da carne, mas também do sangue
dos bovinos que criam. Em todas essas populações estudadas pela
pesquisa de Maryland, o casamento entre mutação genética
e meio ambiente propiciou enormes vantagens competitivas. Como sempre, Charles
Darwin tinha razão. |