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Edição 1987 . 20 de dezembro de 2006

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Comportamento
A redenção da soneca

A velha siesta vira power nap e
ajuda a aumentar a produtividade


Marcelo Bortoloti

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Só faz bem

O costume da siesta já rendeu aos povos latinos uma imagem de indolência e preguiça. Aos olhos do mundo, dormir após o almoço, em pleno horário comercial, era uma forma de fugir ao trabalho. Nos últimos anos, entretanto, os Estados Unidos e alguns países do norte europeu estão mudando de opinião, se não em relação aos latinos, em relação à siesta. Pesquisas científicas recentes sugerem que um cochilo de trinta minutos no início da tarde pode ser útil para aumentar a produtividade no trabalho. A soneca, que em inglês se chama nap, já é conhecida nos meios acadêmicos como power nap, ou seja, um break para iniciar a tarde com a mesma disposição sentida de manhã. O power nap (e não a malvista siesta) é mais eficiente para melhorar a produtividade do que manter-se desperto à força de cafezinhos, garantem os pesquisadores. Com esse aval, o eixo do cochilo diurno mudou. Segundo um levantamento feito pela Academia Americana de Neurologia, a Alemanha é o país da Europa onde mais se dorme durante a tarde. Cerca de 22% dos entrevistados fazem isso até três vezes na semana. Na Espanha, berço tradicional da prática, foram apenas 7%. Entre os americanos, um terço da população adulta tira dois power naps por semana.

O hábito já é conhecido no mercado. Em 2004, a empresa americana MetroNaps passou a oferecer espaços silenciosos para usuários dormirem em horário comercial. Hoje ela tem duas filiais em Nova York e uma no Canadá, que cobram 14 dólares por vinte minutos de cochilo. Companhias como Nike, British Airways e Pizza Hut também já oferecem salas de cochilo aos funcionários. Neste mês, a psicóloga Sara Mednick, do Salk Institute, da Califórnia, está lançando nos Estados Unidos o livro Take a Nap. Change Your Life (algo como Tire um Cochilo e Mude Sua Vida). É uma defesa veemente em favor da soneca diurna. A autora garante que esse é um hábito que ajuda no funcionamento do coração e na regulação hormonal, diminui o stress e melhora a atenção no trabalho. Sara fez um estudo com trinta voluntários, que passaram um dia inteiro realizando uma série de tarefas específicas. Aqueles que dormiram trinta minutos na metade do dia tiveram performance até 50% superior à dos que permaneceram acordados. "Os cochilos beneficiam principalmente o cérebro, ajudando a memória e a criatividade", disse a VEJA Sara Mednick. Para quem tem sono no trabalho, ela receita uma soneca diária de quinze a vinte minutos, no fim da manhã ou no início da tarde. Cochilos mais longos podem levar a um estágio mais profundo do sono, que provoca indisposição ao acordar. Se o seu chefe não aceitar as sonecas durante o expediente, Sara sugere: "Converse com ele. Quanto mais se divulgarem os benefícios, mais empregadores vão entender que o cochilo ajuda a melhorar a produção".

 
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