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Brasil Congelaram
a classe média Mola propulsora
do avanço das nações, ela está imobilizada no
Brasil por um Estado ineficiente e pelo crescimento medíocre da
economia  Giuliano
Guandalini e Julia Duailibi
Na próxima semana, o Brasil
viverá o seu 26º Natal em cenário de pasmaceira econômica.
As feridas causadas por esse longo calvário são visíveis
sobre o lombo de um segmento em particular da sociedade: a classe média.
Ao fim de 2006, ela se encontra curvada sob uma brutal carga tributária,
sufocada por gastos com serviços como educação e saúde
(que deveriam ser financiados pelos seus impostos) e tolhida em sua capacidade
de poupar e adquirir patrimônio. Mas há um segundo aspecto na crise
da classe média e ele não interessa apenas aos brasileiros
que já pertencem a ela. Ao contrário do que vem acontecendo em países
que estão chamando a atenção do mundo, quase não se
observa expansão na classe média do Brasil. Seu tamanho em relação
à população total ficou praticamente inalterado nos últimos
25 anos. Essa é uma notícia ruim para o país e uma sombra
sobre o seu futuro. Ela revela que os pobres estão até se mantendo
de pé graças às políticas assistencialistas como o
Bolsa Família, mas não estão subindo na escala social. A
notícia também evidencia que a própria classe média
não está beliscando patamares mesmo que inferiores do mundo dos
ricos. Em resumo, a classe média brasileira está ensanduichada.
Obviamente, estar no meio faz parte de sua própria definição.
O que perturba é o congelamento, a imobilidade numérica e de pujança
desse grupo social no Brasil. Quem está dentro não sai, quem está
fora não entra. Rogerio
Cassimiro/Folha Imagem
 | | Decoração
natalina no Shopping Iguatemi, em São Paulo: consumo das famílias
cresce, mas o futuro segue nebuloso |
Existe
uma relação direta entre o progresso de um país e a força
de sua classe média. Isso está sendo demonstrado não só
por exemplos atuais como o da China e o da Índia, mas também por
histórias como a da Inglaterra na Revolução Industrial ou
a dos Estados Unidos dos séculos XIX e XX. Motor econômico das sociedades
livres tanto pelo empreendedorismo quanto pelo consumo, a classe média
é também a grande produtora de idéias e cultura, e a garantidora
da estabilidade política. Triste o país incapaz de cultivá-la.
Definir a classe média é
uma tarefa escorregadia. Em 1883, Sigmund Freud, criador da psicanálise
e um integrante respeitável da classe média vienense, observou à
sua noiva, que comentava um encontro com um grupo de operários: "Seria
possível mostrar que eles são bem diferentes de nós em seus
julgamentos, em suas crenças e esperanças, e na maneira como trabalham.
Há uma psicologia do 'povo' que é bem diferente da nossa". Atitudes
e valores sempre fizeram parte das tentativas teóricas de traçar
um perfil da classe média. Critérios como a ocupação
e a escolaridade também são usados por pesquisadores, assim como
dados econômicos tais quais renda e padrão de consumo. Os resultados
podem variar bastante conforme a metodologia.
Baseada em critérios de classificação do Banco Mundial e
das consultorias McKinsey e Economist Intelligence Unit, VEJA estimou a evolução,
no Brasil e em outros quatro países emergentes, da proporção
da classe média em relação ao total da população
entre 1996 e 2006. Considerou-se como classe média o universo de famílias
com rendimento entre 15.000 dólares e 75.000 dólares anuais
referência semelhante ao parâmetro usado pelo Banco Mundial. No Brasil,
esses valores se situam aproximadamente entre 3.000 e 15.000 reais ao mês,
levando-se em conta o poder de compra local. Cálculos semelhantes foram
feitos para os demais países. O resultado impressiona. A proporção
da classe média no Brasil está estagnada. Ela cresceu um quase nada.
Saiu de 20% para 21% da população brasileira. No mesmo período,
pulou na Rússia de 9% para 34% da população (uma elevação
de 278%); no México, de 19% para 43% (126%). Em apenas uma década
as classes médias russa e mexicana tornaram-se mais representativas em
suas respectivas sociedades do que a brasileira. Também avançaram
a passos largos as classes médias da China e da Índia. Em 1996,
elas representavam, respectivamente, 1% e 4% de suas populações.
Em 2006, pularam para 12% e 13%. Juntos, os dois gigantes asiáticos criaram
230 milhões de consumidores de classe média, um contingente maior
do que a população brasileira. Em dois anos, a China deverá
ter um quinto de sua população no "estrato médio" (o Partido
Comunista chinês convenientemente evita usar a palavra classe, termo
de sangrentas conotações na China). A Índia deverá
chegar ao mesmo porcentual chinês de classe média em 2009.
Por que a classe média brasileira parou de crescer? É difícil
apontar apenas uma causa em um país onde o Estado obriga o cidadão
de classe média a trabalhar quase cinco meses do ano apenas para pagar
os impostos e onde a burocracia reprime o impulso empreendedor da população.
Os números compilados por VEJA mostram uma relação simbiótica
entre o crescimento da classe média e o do PIB dos países. Quem
puxa quem? O PIB cresce porque a classe média avança ou a classe
média avança porque o PIB cresce? O paradoxo não se resolve
facilmente. No decorrer das duas últimas décadas, o Brasil teve
um aumento médio no crescimento do PIB de apenas 2,3% ao ano. Descontando-se
o crescimento vegetativo da população, o avanço da riqueza
per capita foi de insignificante 1% ao ano. Curiosamente, a classe média
passou de 20% a 21% da população um aumento relativo de 5%.
Entre 1930 e 1980, quando a economia brasileira causava inveja ao mundo, a riqueza
per capita expandiu-se em média 4% ao ano. Foi justamente no auge desse
período, na industrialização e urbanização
do fim dos anos 50, que a classe média brasileira ganhou músculos.
Os números não são suficientes para resolver o paradoxo de
quem é vagão e quem é locomotiva. São claros o bastante,
porém, para mostrar que o fenômeno de criação de riqueza
nacional anda de braços dados com a multiplicação da classe
média. De 1980 para cá,
apenas em dois breves períodos houve um aumento significativo da classe
média brasileira: em 1986, com o Plano Cruzado, e dez anos depois, como
efeito do Real. Em ambos os momentos, a queda da inflação propiciou
um aumento dos salários reais. Mas nas duas ocasiões os avanços
foram transitórios apenas soluços estatísticos. O
país foi abalado por crises financeiras e os ganhos logo foram revertidos.
Autor de um estudo recente sobre o assunto, o economista Sérgio Vale, da
consultoria MB Associados, diz que até mesmo a educação,
mecanismo clássico pelo qual a classe média garante que seu padrão
de vida seja reproduzido de geração a geração, dá
sinais de emperramento. "O simples fato de ter educação superior
já não é mais garantia de bons salários", diz Vale.
Seu estudo demonstra que, entre 2001 e 2006, a maior expansão na contratação
de pessoas com nível universitário se deu na faixa de até
três salários mínimos. Enquanto isso, na faixa acima de dez
salários mínimos, típica da classe média, houve destruição
de vagas. O pai de todos os economistas,
o escocês Adam Smith (1723-1790), conseguiu intuir o efeito que o crescimento
da renda causava sobre o moral de uma nação. "É no momento
de progresso, quando a sociedade está avançando na aquisição
de riqueza, mais do que no período em que ela já adquiriu o seu
conjunto completo de riquezas, que a condição da maioria das pessoas
parece ser a mais feliz e confortável. O ânimo se abate na estagnação
e se torna infeliz no declínio." A economia moderna confirmou e complexizou
o raciocínio de Smith. Como observa Benjamin Friedman, professor de economia
da Universidade Harvard, o sentimento de bem-estar econômico é
sempre medido em relação ao próximo e a si mesmo em
tempos passados. Ganhos de renda podem
causar uma euforia momentânea, que logo se apaga. Apenas quando o crescimento
e a mudança são persistentes, o sentimento de bem-estar se sustenta.
Em casos de estagnação, surge o medo da queda. A classe média
brasileira não é a única que precisa lutar cotidianamente
com esse espectro. Mas entre nós essa luta está mais renhida.
A sensação de estagnação da classe média brasileira,
à parte ser real, dói mais quando comparada aos bons tempos vividos
em décadas passadas. Os brasileiros de classe média conquistaram
privilégios incomuns e os mantiveram e ampliaram até o fim dos anos
80. Além disso, as circunstâncias demográficas e sociais do
país abrem às famílias de classe média acesso a luxos
que poucos habitantes ricos dos países avançados possuem
o mais óbvio deles é a abundante e barata mão-de-obra para
trabalhos domésticos. Mas, como isso sempre foi assim, segundo mostrou
o professor Friedman, pouca gente se dá conta de quanto esse privilégio
é raro. A Previdência Social é outra conquista que, por ser
antiga, não contribui mais para aumentar a auto-estima da classe média.
"No Brasil, uma mulher pode se aposentar aos 52 anos e tem uma expectativa de
vida escandinava", diz o economista Fábio Giambiagi. Nas últimas
décadas, a abertura econômica do país trouxe outras vantagens.
Bebe-se mais vinho hoje do que há dez anos, mais gente anda de carro, existem
mais e não menos shopping centers.
Apesar disso ou talvez por causa desses avanços , os brasileiros
que se situam entre os ricos e os pobres na escala social vivem em constante estado
de alerta. As conquistas estão aí, mas até quando? E a que
preço? O preço de atingir e manter o status quo de classe média
no Brasil de hoje tornou-se quase impagável. O grande culpado é
o Estado, entidade gulosa tocada por burocratas cujo instinto básico é
se perpetuar. "O Estado brasileiro insiste em não caber dentro do PIB",
diz com a agudeza costumeira o economista Delfim Netto. Haja imposto. Em 1994,
a arrecadação de impostos representava 28% e hoje caminha para 40%
do PIB brasileiro. Quem pagou boa parte desse aumento foi a classe média.
Prova disso é que a carga tributária média do país
foi de 38% do PIB em 2005, mas para a classe média esse fardo ficou ainda
maior: 43% de seus rendimentos são tragados pelos impostos. De acordo com
cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT),
a classe média contribui com 70% dos impostos sobre a propriedade (como
IPVA e IPTU) e paga 60% do total arrecadado com o imposto de renda da pessoa física.
Ironicamente, esse aumento da carga tributária foi necessário porque
o governo passou a gastar cada vez mais com seus programas de esmola social. Enquanto
em países como a China e a Índia a redução da pobreza
decorre do crescimento econômico e da melhora na educação,
no Brasil o combate à miséria ocorreu via gastos públicos
cada vez mais generosos. Ingredientes poderosos dessa política foram o
Bolsa Família e o aumento do salário mínimo, que dobrou seu
poder de compra nos últimos dez anos.
Como governos não geram riqueza, esse dinheiro saiu do bolso de alguém.
Quem pagou a conta? O contribuinte, ora bolas! Ele ainda paga uma segunda vez.
Além de arcar com seus tributos, o integrante da classe média despende
uma gorda fatia de sua renda com serviços como educação,
saúde e segurança, que, em tese, deveriam ser prestados pelo governo:
de 1980 para cá, o comprometimento da renda com esses gastos saltou de
12% para 31%. A má qualidade das escolas públicas e dos hospitais
do Estado empurrou as famílias de classe média para o colégio
particular e para o plano de saúde privado.
Outro fator no aperto da classe média é o surgimento de necessidades
de consumo. Como lembra o economista Marcio Pochmann, da Unicamp, "a maneira como
a classe média consome é essencial na construção de
sua auto-imagem". É inimaginável hoje em dia uma família
de classe média que não tenha celular, computador e internet
de preferência com a tecnologia mais avançada. Via de regra, telefones
celulares são trocados a cada vinte meses, por exemplo. Mas isso não
significa que, de maneira geral, a classe média esteja consumindo mais
(quando se levam em conta itens como vestuário, alimentação,
higiene ou lazer). "Após o Plano Real, entre 1995 e 1998, a classe média
subiu um degrau na pirâmide de consumo. Desde então, não se
moveu mais, diferentemente da classe pobre", diz Margareth Utimura, diretora do
instituto de pesquisa LatinPanel. Mais impostos, mais gastos com serviços,
mais imperativos de consumo fizeram com que a poupança da classe média
desabasse. Segundo o IBGE, em 1987 as famílias do segmento conseguiam guardar
11% de seus rendimentos e assim investir na ampliação do patrimônio
próprio. Em 2003, esse porcentual recuou a míseros 4%.
Em paralelo a tudo isso, observa-se certa orfandade política da classe
média. Não que, ao longo da história do país, ela
tenha contado com partidos inteiramente associados aos seus interesses. Na década
de 50, a UDN esteve próxima de desempenhar esse papel. A classe média
daquele período encontrou um ídolo em Carlos Lacerda, o maior nome
do partido. Mas o udenismo abrangia outros setores da sociedade no Nordeste,
por exemplo, estava ligado às oligarquias agrárias. No quadro político
atual, o discurso sobre a classe média ocupa um lugar periférico.
O que permanece no centro do palco é o combate à miséria
como ficou claro nas últimas eleições presidenciais.
A campanha de Lula adotou uma tática dupla: investiu na polaridade entre
"elite" e "povo" e, de tempos em tempos, fez um aceno preventivo à classe
média. Na propaganda eleitoral da TV, houve programas com propostas para
favorecer esse grupo, no campo da ampliação do crédito ou
da desoneração tributária. Em um evento no começo
do mês passado, já reeleito, o presidente disse: "Criou-se o sofisma
de que alguém quer dividir o Brasil entre ricos e pobres. Não, eu
não quero dividir, eu já nasci com ele dividido. O que eu quero
é repartir o pão produzido de forma mais justa, que uma parte da
população vá para a classe média e a classe média
suba mais um degrau". Só o fim da estagnação poderá
abrir caminho para essa transformação. Só a renúncia
da burocracia estatal em sugar a última gota de riqueza gerada pela sociedade
ligará os motores do investimento produtivo sem o qual a estagnação
não pode ser vencida.
A CLASSE MÉDIA EMPREENDEDORA Oscar
Cabral
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A família Freire: Ricardo, Nélia (sentados), Rafael (à
esq.) e Leonardo. Eles representam a fatia da classe média cujo perfil
mais cresce atualmente. Trata-se de um grupo formado por milhões de pequenos
empresários. Esse empreendedorismo de classe média nasceu do conflito
entre o desejo de ascensão social e a queda acentuada de oportunidades
de emprego com remuneração superior a três salários
mínimos. No Rio de Janeiro, os Freire, que têm uma distribuidora
de baterias para carros, ganham cerca de 15 000 reais por mês. O problema
são os impostos. Eles consomem 16% da renda e estão no topo da lista
de custos da família. "Pagamos imposto para tudo. Não fosse essa
despesa, conseguiríamos até economizar um pouco mais", diz Ricardo.
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A CLASSE MÉDIA ASSALARIADA Lailson
Santos
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No
início da década de 80, os assalariados representavam 65% da classe
média. Hoje, são pouco mais de 50% na outra metade está
a crescente massa de proprietários de pequenas empresas. A família
Alves (Hamilton, Sueli e o filho, André) foi no contrafluxo dessa tendência
empreendedora. Há quatro anos, deixou São Paulo, onde tinha uma
pequena empresa de pinturas e reformas. Partiu para Itu, no interior paulista.
Lá, o chefe da família tornou-se assalariado, na área de
logística de uma grande fábrica de sucos. Eles não se arrependem:
"Com a empresa, ganhávamos bem, mas gastávamos demais. Hoje, nosso
orçamento é mais estável", diz Hamilton. Da renda mensal
média de 4 000 reais, o principal gasto fica por conta da educação
de André, de 13 anos, que consome 20% do orçamento familiar. "Nossa
prioridade é garantir um bom futuro profissional ao nosso filho", diz Sueli.
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OBJETOS DE DESEJO DA CLASSE MÉDIA,
ONTEM E HOJE Fotos
Pedro Rubens
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1981*
Chevrolet Opala = 32 000 reais TV
de 20 polegadas em cores = 3 500 reais Linha de telefone = 10
000 reais Aparelho de telefone = 500 reais Aparelho
de som 3 em 1 = 3 000 reais Enciclopédia = 5 000
reais VALOR TOTAL = 54
000 reais Tempo de trabalho
necessário para comprar esses produtos = 9 meses e 18 dias
* Os valores dos produtos foram corrigidos para o
equivalente a dinheiro de hoje
HOJE Chevrolet Zafira = 62 000 reais
TV de plasma de 42 polegadas = 7 000 reais Linha de telefone
(instalação) = 90 reais Celular = 500 reais
iPod = 1 400 reais Computador = 2 000 reais
DVD = 300 reais TOTAL
= 73 290 reais Tempo
de trabalho necessário para comprar esses produtos =
13 meses e 15 dias** **
Conta feita com base no salário médio dos chefes de família
da classe média alta, segundo estudo do economista Waldir Quadros (Unicamp)
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Com reportagem de
Gabriela Carelli, Cintia Borsato e Renato Piccinin |