FHC pega o
trombone
Facilitar
a formação da Alca não é questão
de prazo, mas de revisão das tarifas e dos
bloqueios impostos a produtos brasileiros

Cristiana
Baptista e Denise Ramiro
AFP
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Na
quinta-feira passada, o presidente Fernando Henrique Cardoso entrou
finalmente na discussão sobre a constituição
da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
E entrou de sola. O tema aqueceu desde que o Chile, sem contar para
os vizinhos, iniciou um acordo de comércio com o governo
americano, há quase um mês. Com essa providência,
o Chile afastou-se do Mercosul, onde sua entrada era aguardada com
entusiasmo, para cair nos braços muito mais opulentos dos
Estados Unidos. A partir de então, o Mercosul balançou.
Os brasileiros se assustaram com a possibilidade de a Argentina
seguir o exemplo chileno, porque seria a implosão do bloco
do Cone Sul. Havia ainda as pressões exercidas sobre Brasília
para que concordasse em antecipar em dois anos a instalação
da Alca, originalmente prevista para 2005. Fernando Henrique foi
a Florianópolis para uma reunião de cúpula
do Mercosul e, numa entrevista coletiva improvisada, deixou claras
as razões da insatisfação brasileira com esse
cenário. O Brasil concorda até em iniciar a discussão
da Alca "amanhã", disse o presidente, desde que se removam
os obstáculos que barram a entrada de produtos brasileiros
em outros mercados.
Wilson Pedrosa/AE
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Wilson
Pedrosa
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| Fernando
Henrique reclama das barreiras aos produtos do Brasil antes
da reunião em Florianópolis: "Não
queremos simplesmente importar, importar e importar, e não
exportar nada" |
"Não
queremos simplesmente abrir aqui para importar, importar e importar,
e não exportar nada", desabafou Fernando Henrique. "Se não
houver essa discussão, marcar data para a Alca não
tem sentido." Segundo o presidente, o Mercosul e o Brasil têm
insistido, na conversação sobre a Alca, em questões
como o acesso ao mercado americano e a exportação
de produtos agrícolas, mas o único interesse dos Estados
Unidos é discutir "investimentos, patentes e serviços".
Mais do que conseguir redução das sobretaxas, há
preocupação com as chamadas barreiras não tarifárias,
impostas a produtos de países como o Brasil não apenas
pelos Estados Unidos como também pela União Européia
e nações asiáticas. Essas barreiras não
tarifárias se escondem por trás de controles sanitários,
imposições de cotas, exigências de padronização
e até critérios de embalagem. "É um protecionismo
danado", reclamou Fernando Henrique.
Grande
produtor agrícola, o Brasil tem dificuldade de vender seus
artigos nos países ricos porque eles colocam empecilhos tarifários
e não tarifários. Fazem isso por um motivo óbvio:
garantir que seus próprios produtores internos, mesmo que
não competitivos, livrem-se da concorrência dos estrangeiros.
O plantador de laranjas da Califórnia não quer, evidentemente,
nem a sombra de suco brasileiro chegando lá para atrapalhar
sua vida. Suas associações pressionam as autoridades,
que criam as barreiras destinadas a protegê-los. Por outro
lado, os americanos querem despejar no Brasil seus produtos sem
ser molestados por barreiras. É uma briga dura e desigual.
Os ricos exigem muito, mas pouco movimento se vê entre eles
para facilitar as contrapartidas que permitam a emergentes como
o Brasil exportar o suficiente para manter o equilíbrio de
sua balança comercial. Calcula-se que os produtores brasileiros
deixem de exportar 5 bilhões de dólares anuais em
razão dos bloqueios. Os critérios para essa proteção,
aprovados pela Organização Mundial do Comércio,
são desiguais. Os americanos podem exigir que seus cigarros
tenham 75% de fumo fabricado em seu próprio território,
mas o incentivo que o governo brasileiro oferece à Embraer
para a exportação de aviões não é
tolerado. Como os aparelhos da Embraer são mais competitivos
que os fabricados pela canadense Bombardier, os aviões de
São José dos Campos é que estão inundando
o mercado, para constrangimento e revolta dos concorrentes. Por
causa dessa disputa, o Canadá acaba de ser autorizado a aplicar
sanções tarifárias de 1,2 bilhão de
dólares contra o Brasil, nos próximos seis anos. Não
cabe recurso dessa decisão.
A
posição brasileira é delicada, mas o conjunto
de pressões também mostra que o país começa
a ter alguma importância no cenário do comércio
mundial. "Não haverá negociação com
a Alca enquanto não houver avanços na área
agrícola", diz o ministro da Agricultura, Marcus Vinicius
Pratini de Moraes. O Brasil está convencido de que para enfrentar
as duras negociações com os países desenvolvidos
depende da força do Mercosul, o bloco econômico que
reúne, além dele, Argentina, Uruguai e Paraguai. Na
reunião de Florianópolis, a principal operação
era tentar reverter o quadro adverso procurando dar maior solidez
ao Mercosul. Uma das medidas tomadas na reunião foi a redução
em 0,5 ponto percentual da taxa de importação comum.
O encontro de Florianópolis também serviu para acalmar
ânimos e esfriar temores entre os integrantes do bloco sul-americano.
Pelas manifestações dos representantes nacionais ali
presentes, viu-se que o Mercosul está mais forte do que parecia
dias antes, quando o Chile, por baixo do pano, trocou juras de amor
com os Estados Unidos no plano comercial.
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