Parece uma
casa
Tecnologia
e truques permitem à tripulação
da Estação Espacial viver a 400 quilômetros
acima do planeta
Bia
Barbosa
NASA/AP
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| Nos
anos 60, as primeiras naves Mercury tinham 3 metros de comprimento
e espaço reduzido. Cabia apenas um homem, que podia mexer-se
pouco. A bordo comiam-se pílulas. Hoje, a estação orbital é
dez vezes maior, tem aparelhos de ginástica e a comida é levada
da Terra pelo ônibus espacial |
Os
três astronautas que desde o início de novembro estão
morando na Estação Espacial Internacional dedicaram-se
a uma atividade pouco convencional na semana passada a faxina.
O americano Bill Shepherd e os russos Yuri Gidzenko e Sergei Krikalev
foram limpar o Unity, um módulo que estava fechado desde
que foi lançado ao espaço, em dezembro de 1998. Os
astronautas não tinham entrado ainda no Unity porque não
havia energia suficiente para ligar seus equipamentos de iluminação
e ar condicionado. Desde o início do mês, a instalação
de um novo painel de energia solar de 17 toneladas permitiu a Shepherd,
Gidzenko e Krikalev pôr para funcionar pela primeira vez todos
os três módulos que já estão no espaço.
Além do Unity, que será usado como conexão
de outros módulos no futuro, a estação conta
com os russos Zarya uma espécie de depósito
e Zvezda. É neste último que a tripulação
mora e trabalha, numa área de aproximadamente 50 metros quadrados.
Um alojamento compacto, onde se dorme de pé (sem problema,
porque não há gravidade) e com um banheiro do tamanho
de uma cabine telefônica. Não é um palácio,
mas as instalações da estação parecem
um sonho se comparadas com as das naves tripuladas que no passado
foram lançadas ao espaço.
Fotos NASA
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| Cama
espacial: astronautas dormem em pé, presos por cintos
de segurança |
A vida
na estação espacial poderia ser resumida a uma única
palavra: racionamento. O espaço é o estritamente necessário
para viver mais de duas semanas fora da Terra com o mínimo
de privacidade. A comida é contada e a água, talvez
o item mais precioso entre os suprimentos, é controlada gota
a gota. A estação conta com uma máquina para
retirar a umidade do ar e com ela produzir água. Até
o fim do ano que vem, um novo equipamento tratará de reciclar
todos os líquidos existentes a bordo, da água usada
para escovar os dentes à urina dos homens e dos ratinhos levados
para experimentos científicos no espaço. "Setenta e
dois ratos equivalem a um homem em termos de reposição
de líquidos e precisam ser levados em consideração
quando se trata de economizar água no espaço", diz Layne
Carter, especialista em reprocessamento de água da Nasa. Enquanto
esse equipamento não funciona, o jeito é levar água
terrestre mesmo. Os astronautas têm direito a um banho diário,
em que se lavam com uma bucha umedecida. Em vez de consumir os 50
litros gastos na Terra, usam menos de 4. A água para abastecer
a estação tem chegado ao espaço em bolsas com
capacidade para 40 litros, embarcadas nos vôos periódicos
do ônibus espacial e da nave russa Progress. Na semana passada,
a Endeavour aproveitou para prover a tripulação depois
de levar os novos painéis solares. Em janeiro será a
vez de a Atlantis viajar com um novo módulo a ser instalado
e mais um suprimento de água e comida. Cada uma dessas viagens
custa estratosféricos 450 milhões de dólares.
Comparada
à dos primeiros tempos das viagens espaciais, a vida a bordo
da estação é bem razoável. No início
da década de 60, os astronautas do projeto Mercury, os primeiros
americanos a realizar os vôos orbitais, alimentavam-se de
cápsulas. O espaço na nave era exíguo e só
cabia um homem espremido entre mostradores e botões. Hoje
são consumidos pratos parecidos com os servidos nos aviões,
a léguas de distância das pílulas coloridas
ou gororobas pastosas de que se alimentavam os pioneiros. A diferença
é que, antes de subir para a estação, tudo
é testado por um grupo especial de provadores. O objetivo
é evitar emergências gastrointestinais, coisa que na
estação ganharia proporções catastróficas.
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| Módulo
de união: saleta com seis portas liga os compartimentos
que, juntos, formam a estação |
A experiência
na estação russa Mir indica que a ausência de
gravidade provoca os males que mais afligem quem vive muito tempo
no espaço. Dentro dela, um astronauta russo cravou o recorde
de catorze meses e seis dias vivendo fora do planeta. Quando chegou
à Terra, estava tão debilitado que parecia ter se
submetido a um tratamento de quimioterapia. Na estação
espacial foram tomados cuidados para reduzir esse risco, como a
instalação de uma miniacademia de ginástica
e a adoção de um rígido programa de condicionamento
físico. Há cuidados também para que os astronautas
mantenham a integridade psicológica. Muitos participantes
do programa Mir ficavam deprimidos com o longo isolamento a que
eram submetidos. Por isso, uma vez por semana os astronautas usam
um videofone para entrar em contato com a família na Terra.
São autorizados ainda a carregar alguns pertences pessoais
em sua bagagem, como CDs, livros, jogos eletrônicos e retratos
dos filhos. No espaço, recebem e-mails e participam de reuniões
de trabalho com os técnicos dos centros de controle na Terra.
Não são nem mesmo poupados das broncas dos chefes.
Na semana retrasada, eles travaram uma ríspida discussão
com o comando russo depois de receber uma advertência por
ter ligado equipamentos que não deviam.
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