Lembre-se:
é ele quem manda
Uma
lista de cuidados que podem
ser úteis no
instante do assalto
Maurício
Oliveira
Vidal Cavalcante/AE
 |
| O
assaltante Reis, que matou uma dona-de-casa, durante reconstituição
de crime: com ele é na linha reagiu, morreu |
Na
terça-feira da semana passada, a polícia paulista
reconstituiu o assassinato de uma dona-de-casa, Alexandra Muggia
Salem, 44 anos, executada a tiros diante da filha, de 16. No dia
9 de novembro, elas foram abordadas por uma dupla de bandidos quando
trafegavam de carro numa avenida de grande movimento de São
Paulo. Um dos marginais, Alexandre Marcelo dos Reis, apontou o revólver
contra a cabeça de Alexandra e anunciou o assalto. Assustada,
Alexandra acelerou o veículo. O erro lhe custou a vida. Preso,
Reis contou aos policiais que sempre atira quando não cumprem
suas ordens. Portanto, é preciso levar a sério a frase
que aparece no título desta reportagem. Para ajudar, existem
conselhos práticos e alguns dos melhores foram reunidos
pela psicóloga carioca Marilda Lipp, pioneira no Brasil em
pesquisas e tratamento do stress. Assaltada, há onze anos,
Marilda ministra palestras em que fornece um roteiro a quem tiver
a infelicidade de ficar sob a mira da arma de um bandido.
Seu
trabalho é bom porque não integra o universo do achismo,
aquele desprezível ramo da ciência ligado à
especulação pura e simples. Ela entrevistou bandidos,
policiais e vítimas para entender o que se passa na cabeça
das pessoas. Uma versão resumida dos resultados do estudo
pode ser conferida no quadro ao lado. "Tanto um lado quanto o outro
têm apenas um segundo para tomar a decisão e isso multiplica
a probabilidade de erro", diz Marilda, que estudou dezesseis anos
nos EUA, onde obteve doutorado em psicologia pela Universidade George
Washington e pós-doutorado em stress social no National Institute
of Health. Numa escala de stress que vai de 1 a 10, o assalto levaria
uma nota 9, ficando atrás apenas de eventos como a morte
de parente em condições muito próximas e trágicas.
E esse nível de tensão é vivido pelos dois
lados envolvidos vítima e marginal. "O nível de
stress alcançado pelo assaltante pode ser equivalente ao
da vítima ou ainda maior", compara Marilda Lipp. Quem não
controla a própria ansiedade numa situação
de risco como essa pode irritar o assaltante, que acaba atirando.
A maioria das pessoas já pensou sobre como se portar durante
um assalto. O que os especialistas percebem, no entanto, é
que, no momento do ataque, a vítima comete erros inadmissíveis
como o de Alexandra.
As
pessoas que moram em uma metrópole brasileira convivem com
a possibilidade concreta de ser alvo de um ataque. Entre os habitantes
das grandes cidades, quem não possui um parente, amigo ou
colega de trabalho que já esteve sob a ameaça de um
revólver na cabeça? Os casos de assalto a mão
armada tornaram-se banais. De acordo com os últimos dados,
o número de assassinatos por ano no país supera sozinho
a soma dos homicídios ocorridos anualmente nos Estados Unidos,
no Canadá, na Itália, no Japão, na Austrália.
Para evitar o risco de assalto, um quarto dos moradores das capitais
mudou o trajeto até a escola ou até o trabalho para
se esquivar do contato com ladrões, um terço não
circula por ruas que consideram perigosas e metade dos moradores
das capitais evita sair à noite. O pavor fez com que o Brasil
se tornasse o terceiro maior mercado de carros blindados do mundo.
Perde apenas para a Colômbia e o México. Três
anos atrás, havia dez empresas de blindagem. Atualmente,
são cinqüenta.
Segundo
Marilda Lipp, autora de oito livros sobre o tema do stress, só
quem já viveu a experiência de ter um revólver
apontado em sua direção conhece a dimensão
do pânico que toma conta do indivíduo naquele momento.
Diante da percepção de perigo, o cérebro ordena
a produção de uma dose extra de adrenalina, o hormônio
das emoções fortes. Começa aí uma reação
em cadeia: o coração dispara, a respiração
se acelera, os músculos se retesam. Em poucos segundos, o
corpo está preparado para uma entre duas reações:
lutar ou fugir. Manda o bom senso, no entanto, que ao menos nesse
caso a sabedoria da natureza seja subvertida. "Quem se comporta
adequadamente durante o assalto reduz a praticamente zero o risco
de um final trágico", assegura o delegado Darci Sassi, que
ajudou a psicóloga na fase de coleta de dados, com base em
trinta anos de vivência nas ruas da capital paulista.
Marilda
classifica os marginais em dois tipos básicos: o ladrão
eventual e o assaltante profissional. Cada um deles possui características
específicas e adota comportamento próprio. O tipo
eventual é mais jovem e impulsivo, tem menos experiência,
não planeja a ação nem vê com precisão
o que quer da vítima. O profissional programa sua iniciativa,
tem noção clara do que pretende com o golpe e está
mais preparado para a duração prolongada do episódio.
O eventual marca-se pela incerteza, o profissional, pela segurança
na investida. "O bandido eventual é como uma criança
que esperneia porque não ganhou o que queria", afirma Marilda.
"O profissional comporta-se como se estivesse diante de uma transação
comercial, dando algum espaço para negociação",
explica a psicóloga. Essa é a teoria. Na prática,
ambos querem que a vítima fique parada, à espera das
ordens. E que lhes obedeça calmamente, pedindo permissão
para realizar cada movimento.
|