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A resposta sobre quem somos, mesmo contra a opinião dos censos, está sendo encontrada dentro de nós mesmos. Um conjunto de pesquisas, comandadas pelo geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), começa a estabelecer com precisão, do ponto de vista da genética, quem são e de onde vêm os brasileiros. O estudo, tocado por dez cientistas e intitulado "Retrato molecular do Brasil", permite saber quem deu origem ao pai e à mãe de cada pessoa: se europeu, africano ou índio (veja como foi feita a pesquisa). A partir daí, projetando as amostragens, já existem resultados fascinantes. Um exemplo: 97% dos brancos brasileiros têm ancestrais europeus pelo lado da linhagem paterna. Nesse mesmo grupo, as linhagens maternas se abrem numa árvore de três ramos: 39% são européias, 33% ameríndias e 28% africanas. Ao todo, 61% dos brasileiros brancos têm herança indígena ou africana em seu patrimônio genético, sempre pelo lado materno. Esses números confirmam aquilo que já se sabia de forma imprecisa. Os brancos, colonizadores ou imigrantes, tiveram filhos em larga escala com índias da terra ou africanas trazidas para o trabalho escravo. Vovô chegou aqui para fazer a América e pegou a vovó no laço para satisfazer seus apetites carnais. Assim, de um ponto de vista antropológico, o brasileiro sofre de uma síndrome de bastardia, que se reflete em sua auto-imagem e na cultura que produz.
Os resultados da segunda parte da pesquisa, que VEJA publica com exclusividade, avançam mais nessa quantificação inédita. Os pesquisadores desenvolveram um método que permite estabelecer quanto de europeu (mais precisamente, euroasiático) e de africano tem cada brasileiro hoje. É aí que a miscigenação, "signo sob o qual se formou a etnia brasileira", na definição do historiador Caio Prado Júnior, aflora por inteiro. Um brasileiro com todas as características externas de branco, mostra o estudo, pode ser portador do mesmo perfil genético que um africano da gema. Da mesma forma, um brasileiro de pele escura pode ser geneticamente tão branco quanto um descendente de europeus. "No Brasil, a relação da cor da pele com o conteúdo genético das pessoas é muito pobre", constata Sérgio Pena.
Para dar uma amostra, aleatória, do tipo de resultado auferido pelos métodos de Pena e equipe, VEJA convidou quinze personalidades para se submeterem aos testes que podem ser feitos por qualquer interessado no laboratório Gene, em Belo Horizonte, ao preço de 880 reais o "pacote". O procedimento é simples: basta recolher células da mucosa da boca com uma escovinha, exatamente como quem faz exames de DNA para comprovação de paternidade. No final, os homens têm direito a três diplomas: um referenda a ancestralidade paterna, outro a materna e o terceiro atesta a ancestralidade genômica, ou seja, o tempero que predomina na salada genética da pessoa hoje. No caso das mulheres, os diplomas são dois, pois ainda não é possível definir o ancestral paterno original.
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