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José Edward, de Belo Horizonte

Todas as nações e todas as pessoas manifestam curiosidade em relação a seus antepassados. Os brasileiros, mais que os habitantes de países de população homogênea, têm interesse redobrado pelo assunto. Há um mistério e um problema na geração do povo brasileiro. O mistério é saber o que cada um de nós é. Europeus, negros e índios estão na base genética dos 170 milhões de habitantes do país. Sabe-se hoje que mais de 60% dos que se julgam "brancos" têm sangue índio ou negro correndo nas veias. O problema está no fato de que essa mestiçagem influi na maneira como a população se enxerga. Pelo tipo de beleza loura exibida em novelas da televisão, anúncios publicitários e passarelas da moda, o Brasil, ou a elite brasileira, parece envergonhar-se de sua mestiçagem. Sem dizê-lo explicitamente, anuncia uma suspeita aspiração nórdica. Alguns pensadores brasileiros chegaram a pregar o "branqueamento" da nação por meio da imigração. Outros, mais generosos, enxergaram as virtudes que a miscigenação propicia, mas a raça nunca foi um assunto neutro no Brasil. Individualmente, a pessoa interessada em retraçar suas origens tem dificuldade para ir além dos avós ou bisavós. No plano nacional, a falta de clareza se repete. Somos majoritariamente mestiços, sabemos, mas os censos populacionais pecam pela imprecisão: branco, negro ou pardo são categorias cravadas com base na aparência, no contexto social, na autopercepção.

 

Rui Mendes


PAULO ZULU
(PAULO CEZAR FAHLBUSCH PIRES)

Ancestralidade materna: África Subsaariana
Ancestralidade paterna: Europa
Ancestralidade genômica: africana (99,5%)

"Não sabia, mas gostei. O apelido foi mais forte que o sobrenome", brinca o modelo. O sobrenome Fahlbusch de Paulo Zulu é de seu avô por parte de mãe, o alemão Eugen Fahlbusch, que veio para o Brasil e casou-se com Maria do Carmo Andrade. Nascida em Muriaé, Minas Gerais, Maria do Carmo é brasileiríssima – dela, com certeza, vem a predominância africana nos genes de Zulu. "Fiquei surpresa com a africanidade de Paulo. Meu pai era daqueles alemães 'puros', e eu puxei por ele", diz a mãe do modelo, Hannelore. Os avós maternos do pai de Paulo Zulu eram portugueses.

A resposta sobre quem somos, mesmo contra a opinião dos censos, está sendo encontrada dentro de nós mesmos. Um conjunto de pesquisas, comandadas pelo geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), começa a estabelecer com precisão, do ponto de vista da genética, quem são e de onde vêm os brasileiros. O estudo, tocado por dez cientistas e intitulado "Retrato molecular do Brasil", permite saber quem deu origem ao pai e à mãe de cada pessoa: se europeu, africano ou índio (veja como foi feita a pesquisa). A partir daí, projetando as amostragens, já existem resultados fascinantes. Um exemplo: 97% dos brancos brasileiros têm ancestrais europeus pelo lado da linhagem paterna. Nesse mesmo grupo, as linhagens maternas se abrem numa árvore de três ramos: 39% são européias, 33% ameríndias e 28% africanas. Ao todo, 61% dos brasileiros brancos têm herança indígena ou africana em seu patrimônio genético, sempre pelo lado materno. Esses números confirmam aquilo que já se sabia de forma imprecisa. Os brancos, colonizadores ou imigrantes, tiveram filhos em larga escala com índias da terra ou africanas trazidas para o trabalho escravo. Vovô chegou aqui para fazer a América e pegou a vovó no laço para satisfazer seus apetites carnais. Assim, de um ponto de vista antropológico, o brasileiro sofre de uma síndrome de bastardia, que se reflete em sua auto-imagem e na cultura que produz.

 


JOSÉ SARNEY
(JOSÉ RIBAMAR FERREIRA DE ARAUJO COSTA)

Ancestralidade materna: África Central
Ancestralidade paterna: Europa, Ásia e África
Ancestralidade genômica: européia (99,999999%)

O senador é estudioso do assunto e sabe muita coisa sobre as origens de sua família. "O primeiro Araújo (antepassado do pai) que chegou ao Maranhão foi Constantino de Araújo, em 1702. Ele veio de Arcos de Valdevez, no norte de Portugal, mas a família é oriunda da Galícia. Por parte de mãe, os ancestrais mais próximos são portugueses também. Minha mãe é bisneta de Antonia de Vilaça, portuguesa de Póvoa do Varzim, que chegou a Pernambuco em 1848. E neta de Tereza Belchior, uma cafuza (mistura de índio com negro)", explica.

Ricardo Stuckert

Os resultados da segunda parte da pesquisa, que VEJA publica com exclusividade, avançam mais nessa quantificação inédita. Os pesquisadores desenvolveram um método que permite estabelecer quanto de europeu (mais precisamente, euroasiático) e de africano tem cada brasileiro hoje. É aí que a miscigenação, "signo sob o qual se formou a etnia brasileira", na definição do historiador Caio Prado Júnior, aflora por inteiro. Um brasileiro com todas as características externas de branco, mostra o estudo, pode ser portador do mesmo perfil genético que um africano da gema. Da mesma forma, um brasileiro de pele escura pode ser geneticamente tão branco quanto um descendente de europeus. "No Brasil, a relação da cor da pele com o conteúdo genético das pessoas é muito pobre", constata Sérgio Pena.

 
Paulo Jares


PAULO COELHO

Ancestralidade materna: Europa
Ancestralidade paterna: Europa
Ancestralidade genômica: européia (99,999999%)

"Tudo europeu, que chato! Queria ter um pouco de negro, de árabe, de judeu", lamentou. O pai e o avô de Paulo Coelho nasceram no Pará. A mãe de seu pai é do Rio Grande do Sul. Seus avós maternos e sua mãe nasceram no Rio de Janeiro.
Ele não sabe mais detalhes sobre sua ascendência, mas se diz muito frustrado com os resultados dos exames.

Para dar uma amostra, aleatória, do tipo de resultado auferido pelos métodos de Pena e equipe, VEJA convidou quinze personalidades para se submeterem aos testes – que podem ser feitos por qualquer interessado no laboratório Gene, em Belo Horizonte, ao preço de 880 reais o "pacote". O procedimento é simples: basta recolher células da mucosa da boca com uma escovinha, exatamente como quem faz exames de DNA para comprovação de paternidade. No final, os homens têm direito a três diplomas: um referenda a ancestralidade paterna, outro a materna e o terceiro atesta a ancestralidade genômica, ou seja, o tempero que predomina na salada genética da pessoa hoje. No caso das mulheres, os diplomas são dois, pois ainda não é possível definir o ancestral paterno original.

 

 

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