Recorde histórico
Proliferam
as novas faculdades e o número
de universitários nunca foi tão grande
Monica
Weinberg, de Brasília
Ana Araújo
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| O
Iesb, em Brasília, é uma das particulares que
mais cresceram: dez vezes mais alunos em dois anos |
A cada sete dias surge uma instituição de ensino superior
particular no Estado de São Paulo. No Espírito Santo
e no Paraná, cria-se uma faculdade a cada três semanas.
Em Santa Catarina, a cada mês. Com um ritmo aceleradíssimo
de fundação de faculdades, o Brasil vai fechar 2000
com 1.099 escolas privadas de ensino
superior, com um total de 1,6 milhão de alunos matriculados,
segundo aponta o mais recente balanço do Ministério
da Educação. Isso significa que o batalhão
de estudantes em escolas superiores, considerando-se apenas as instituições
privadas, é hoje 41% maior que há três anos
o salto mais expressivo já registrado na história
do país. A explosão de faculdades conta com o apoio
e a simpatia do ministro da Educação, Paulo Renato
Souza. A meta é fazer com que, até 2008, pule de 14%
para 30% o contingente de brasileiros com diploma superior. Ainda
será um número baixo se comparado ao dos Estados Unidos
(80%), ao da Inglaterra (48%) ou ao da Argentina (39%), mas reduzirá
o vexame atual dos 14%.
A
proliferação de novas faculdades é conseqüência
de uma conjunção de fatores. Cresceu muito o número
de alunos que concluem o ensino médio, e as universidades
públicas não dão conta de absorvê-los.
De 1995 para cá, o total de graduados dobrou. Hoje, quase
2 milhões de alunos estão aptos a ingressar num curso
superior. Além disso, os brasileiros estão mais conscientes
de que estudar mais traz vantagens inclusive materiais. Um
levantamento feito pela Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico, uma entidade ligada às
Nações Unidas, mostra que um portador de diploma de
ensino superior no Brasil ganha, em média, 124% mais do que
quem conclui apenas o ensino médio. Ao lado disso, o Ministério
da Educação resolveu facilitar a abertura de novos
cursos. Quatro anos atrás, por exemplo, quem estivesse interessado
em colocar dinheiro numa universidade tinha de provar que sua intenção
não era obter lucro com o investimento. Com a nova política,
eliminou-se o entrave burocrático e hipócrita
que afastara muitos empresários com dinheiro na mão.
Em Brasília, o Instituto de Educação Superior
(Iesb) abriu as portas em março de 1998. Tinha 320 alunos
e oferecia dois cursos. Agora conta com mais de 3.000,
distribuídos em mais de uma dezena de cursos.
Claudio Rossi
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Ricardo Benichio

A
política de expansão do ministro Paulo Renato
(à esq.) fez crescer a oferta de cursos: o de
quiropraxia, antiga técnica de massagem, é um
dos novatos |
"Chuchus podres" O problema é a qualidade do ensino
que as novas faculdades proporcionam. "Sabemos que o preço
desse processo veloz pode ser deixar passar, por engano, instituições
de ensino ruins", admite Antonio Macdowell de Figueiredo, secretário
que cuida da área no Ministério da Educação.
Na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro,
por exemplo, o estudante pode escolher entre um cardápio
de "cursinhos rápidos". São trinta ao todo. Na lista,
há o de "joalheria" e até o de "dança de salão".
Eles viraram febre entre as faculdades privadas, atraindo uma clientela
que precisa de diploma superior, qualquer que seja, para ter emprego
rápido. A expansão do mercado de escolas particulares
também criou um rosário de vestibulares mais fáceis,
preços competitivos e novas carreiras. A Universidade Anhembi
Morumbi, em São Paulo, oferece curso de quiropraxia, técnica
de massagem para a coluna muito usada no final do século
XIX. A maioria dos alunos que se candidatam a uma das vagas pede
explicação antes para saber do que se trata. E sobram
candidatos.
O
Ministério da Educação está atento para
a questão da qualidade. O Provão, o teste aplicado
no final do curso para medir o nível de aprendizagem dos
alunos, é um deles. A regra é assim: depois de cravar
três anos com D ou E os piores conceitos , a
instituição fica ameaçada de perder o reconhecimento
oficial. "O resultado imediato é aparecer todo tipo de oferta,
de bom a mau ensino", diz o professor Claudio de Moura Castro, especialista
em educação. "Em médio prazo, os chuchus podres
não conseguirão sobreviver à competição
do mercado." Algumas faculdades chafurdaram em conceitos vermelhos
três anos seguidos, mas mesmo assim continuaram na ativa.
O ministro Paulo Renato chegou a recomendar recentemente o fechamento
de dois cursos de direito e outros três de medicina. Quando
os casos aterrissaram no Conselho Nacional de Educação,
trocou-se a medida por uma punição mais leve. Os doze
conselheiros deram novos prazos para que as escolas se enquadrem
nas exigências do MEC. "O pente para avaliar as novas faculdades
ainda é grosso e temos de afiná-lo", admite Roberto
Cláudio Frota Bezerra, presidente da Câmara de Educação
Superior do Conselho e reitor da Universidade Federal do Ceará.
"As novatas podem estar cometendo excessos que não conseguimos
detectar." É bom prestar mais atenção.
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