Tarefa
fácil: tirar
presos dos distritos
Como agem os bandidos bem armados que
atacam as delegacias paulistas para libertar
seus companheiros que estão no xadrez
Carlos
Rydle
André Penner
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Falta de segurança é isso aí: a polícia
paulista está sendo assaltada dentro da delegacia. Só
neste ano já ocorreram 28 ações para libertar
presos, com a fuga de 700 deles. Nos últimos três anos,
o número de ataques chega perto de 120. O fenômeno
é relativamente recente, pois até 1997 se registravam
apenas casos esporádicos. Uma das causas da súbita
explosão é a existência de 34.000 presos apinhados
nos xadrezes dos distritos policiais paulistas, quase o dobro da
capacidade das celas. Mas isso não explica tudo. No Rio de
Janeiro, o segundo Estado em número de presos, só
uma delegacia foi invadida neste ano. O certo é que, a partir
das primeiras investidas bem-sucedidas, as quadrilhas perceberam
que se trata de um crime simples em termos operacionais, quase covarde
pela desproporção do poder de fogo à disposição
dos fora-da-lei, e interessante por três motivos: permite
resgatar um membro importante da quadrilha; o serviço envolve
poucos riscos e pode render bom dinheiro; por fim, possibilita a
criação de uma rede mafiosa de criminosos que ficam
a dever um favor a quem os tirou da cadeia.
Willians Valente

Vidraça
do 45º Distrito destruída por tiros num assalto,
em outubro: nas delegacias, 13 000 condenados que deveriam estar
no presídio |
Agliberto Lima/AE

Tentativa
fracassada: apesar do fogo pesado que atingiu a porta e as janelas,
os policiais do 90º Distrito conseguiram impedir o resgate,
em junho |
Pelo
menos 13.000 dos presos em distritos e centros de detenção
paulistas são condenados que deveriam estar cumprindo pena
em presídios. Não é apenas por falta de espaço
que essa gente não pode continuar nas delegacias. Também
porque as instalações carecem do sistema de segurança
necessário para guardar moradores tão perigosos. Desde
1998, quando a Polícia Militar retirou seus soldados dos
distritos, para reforçar o policiamento nas ruas, o plantão
noturno é de cinco funcionários, incluindo o escrivão
e o motorista. Raramente eles têm tempo, armamento ou disposição
para reagir. Quatro policiais já foram mortos e dez ficaram
feridos só neste ano. A desmoralização da polícia
é total. Alguns distritos instalaram grades em torno do balcão
de atendimento ao público. Outros instalaram portas giratórias,
idênticas àquelas usadas em bancos. O cidadão
que precisar da Polícia Civil durante a madrugada corre agora
o risco de bater com o nariz na porta.
Epitácio Pessoa/AE

Recaptura
depois da fuga de 98 presos na Zona Norte paulistana: apenas
cinco policiais de plantão durante a madrugada |
Numa rara ocasião em que a polícia conseguiu repelir
a bala os atacantes, o delegado Fernando Gomes Pires foi atingido
nas costas. O grupo encontrou fechadas as portas do 1º Distrito
de Diadema, na Grande São Paulo, e simplesmente abriu fogo
contra o prédio. Mais de 100 tiros foram disparados. "Um
dos bandidos foi ferido e o bando desistiu do resgate", diz Pires.
"Caso contrário, com a munição que eles tinham,
teriam soltado todo mundo." Em agosto do ano passado, dezessete
homens invadiram o 27º Distrito, em Campo Belo, bairro de classe
média da Zona Sul, e libertaram 41 presos. Dois bandidos
entraram disfarçados de policiais militares, acompanhados
por uma mulher. Quando a operação estava quase terminando,
um PM desconfiou da movimentação e pediu reforços.
No corre-corre, a maioria dos assaltantes foi presa, apesar de os
dois cabeças terem escapado. As prisões permitiram
conhecer melhor como são organizadas as operações
de resgate. Nesse caso, a fuga tinha sido encomendada de dentro
do xadrez, com a mulher de um preso servindo de mensageira. Ficou
acertado o pagamento de 70.000 reais, 30% logo após a libertação
e o restante em parcelas.
Ricardo Benichio

O
acesso ao 9º Distrito foi fechado com grades de ferro: é preciso
mostrar documentos para entrar no prédio |
O preço do resgate pode oscilar bastante de acordo com o
nível de organização dos invasores. Numa fuga
em São Vicente, na Baixada Santista, o resgate foi contratado
por reles 10.000 reais, provenientes de uma caixinha. O preço
a pagar nem sempre é em dinheiro. O libertado passa a dever
um favor para o libertador. Essa dívida é paga com
outros serviços, como a participação em novos
resgates ou roubos. O objetivo dos assaltos é soltar um ou
dois presos graúdos. Muitas vezes a polícia nem fica
sabendo quem era o alvo, pois os atacantes criam confusão,
permitindo ou até mesmo forçando a fuga de todos os
que estão na cela. O resgatável típico é
um foragido do presídio, muitas vezes com ligação
com as facções que dominam o sistema carcerário.
São bandidos da pesada traficantes, ladrões
de carga, bancos e carros-fortes. O grupo que vai efetuar um resgate
é reunido por um "mentor" que define o papel de cada um como
se fosse uma operação de guerra. A turma mais bem
armada monta guarda do lado de fora, outro grupo toma conta dos
policiais rendidos e um terceiro abre as celas. Antes da operação,
olheiros e visitantes dão as informações sobre
o que acontece do lado de fora do xadrez. De dentro, chegam dados
fornecidos pelos presos por meio de telefones celulares ou pagers
plantados nas cadeias.
Samir Baptista/AE

Delegado
Marco Oliveira, do 70º Distrito: "Um homem me apontou
uma arma e disse: 'Não reage, a casa caiu'"
|
Um em cada quatro resgates ocorre nas ruas, quando o preso está
sendo levado para uma audiência na Justiça, ou em hospitais.
Há seis meses os bandidos inovaram em estilo e multiplicaram
o grau de arrojo, com um ataque a uma cadeia de Praia Grande, na
Baixada Santista. Dez homens armados de fuzis e metralhadoras dispararam
contra o prédio, dando cobertura a um grupo de presos que
escalou o muro de 6 metros de altura. Dezoito conseguiram fugir
num barco que os esperava em um rio. O bando garantiu a fuga obstruindo
uma estrada com um caminhão incendiado e dezenas de pregos
enterrados no caminho. O alvo predileto é mesmo o distrito
policial. A operação é tão fácil
que se tornou quase dispensável subornar a polícia,
ainda que isso também possa ocorrer. Dois carcereiros foram
presos sob suspeita de ter colaborado com uma invasão no
37º Distrito, em Campo Limpo, na periferia de São Paulo,
em que 45 homens fugiram. "Eles saíram da delegacia para
tomar café no momento do resgate", relata o delegado Antero
Bianchi. Os soldados tentaram atrasar a abertura das celas escondendo
as chaves do xadrez. Bem informado, um dos invasores apontou para
a gaveta onde elas estavam guardadas. No 70º Distrito, em Sapopemba,
na Zona Leste paulistana, os policiais nem viram os bandidos entrar
no prédio. "Só percebi que a delegacia estava dominada
quando um homem me apontou uma arma e disse: 'Não reage,
a casa caiu'.", conta o delegado Marco Oliveira. Quando a "casa
caiu", em setembro, 28 presos foram libertados.
Ricardo Benichio

Delegado
Fernando Pires, baleado nas costas numa tentativa de invasão
de um distrito em Diadema: mais de 100 tiros disparados |
A estratégia básica do resgate é aparecer diante
da delegacia com um grupo numeroso e farta exibição
de armamento pesado, de forma que não reste aos policiais
opção, exceto a de se render. "Esses bandos estão
atuando com base em um tripé: armas pesadas e sofisticadas,
organização eficiente e violência", diz o promotor
público Gabriel Inellas, que acompanha a investigação
de um caso de resgate ocorrido em outubro do ano passado. O detalhe
é que o poder de fogo dos assaltantes é emprestado
ou alugado. Isso porque a arraia-miúda recrutada não
tem o armamento necessário fuzis, metralhadoras, granadas
e coletes à prova de bala. O aluguel de um AR-15, fuzil americano
comum entre criminosos, pode variar de 500 reais a 2.000, dependendo
do serviço no qual vai ser usado. Em geral, os locadores
são narcotraficantes, que precisam de armas pesadas para
defender seus pontos-de-venda.
Samir Batista/AE

Porta
giratória, igual às das agências bancárias, em distrito policial
paulistano: medidas de proteção |
O problema nas mãos do governo paulista é inusitado:
como proteger a própria polícia de assaltos? Nos últimos
meses adotaram-se algumas providências modestas. Presos considerados
resgatáveis foram retirados dos distritos, criou-se uma equipe
de ronda que protege os prédios à noite e maior empenho
vem sendo empregado na investigação dos assaltos.
Nem por isso a delegada Cristiane de Oliveira aceita voltar a fazer
plantão em distrito. Grávida de três meses,
ela foi agredida durante uma invasão em 1998. No ano seguinte,
esteve na mira de uma metralhadora e pensou que iria morrer. Depois
disso, Cristiane foi transferida para uma área burocrática
da polícia. A mudança foi um alívio, mas não
atenuou o trauma. "Neste ano, após ter sido assaltada na
rua, fiquei em pânico ao imaginar que teria de entrar em uma
delegacia para prestar queixa", diz. "O medo foi tão grande
que eu desisti de fazer o boletim de ocorrência."
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Caos
nos DPs e nas cadeias
de São Paulo
28 resgates de presos
desde janeiro
700 presos libertados
só neste ano
117 resgates ocorreram
nos últimos três anos
70 000 reais é
o preço médio de uma fuga
Um grupo de resgate reúne
em torno de vinte homens, liderados por dois coordenadores
Um coordenador pode ganhar
até 10 000 reais por resgate
Uma equipe de apenas cinco
policiais permanece nas delegacias paulistas à noite
Há 34 000 presos
em delegacias paulistas, apinhados em celas com capacidade
total para apenas 18 000
38% dos prisioneiros já
foram condenados e deveriam cumprir pena em presídios
No Estado há 71
penitenciárias, com capacidade para 49 000 presos.
Nelas, cumprem pena 59 000 pessoas
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