Geral Polícia

Esta semana

Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Depois da separação, todos querem casar-se
Estudo mostra quando a exposição ao sol prejudica a pele
Os segredos industriais que resistem à pirataria
São Caetano do Sul cuida mais da garotada, segundo o Unicef
Professora vai morar na favela e alfabetiza 8.000 crianças
Este pode ser o último Natal com caviar
A ação dos bandidos que resgatam os comparsas da cadeia
O número de universitários no país explode
O perfil genético do brasileiro
Os cuidados que devem ser tomados no momento do assalto
Estilistas de roupa atacam de mobiliário
Otávio Piva, o rei do vinho
Os novos santos do papa João Paulo II
Sites mostram mulheres famosas em poses sensuais
As absurdas pesquisas on-line
A vida na estação espacial
Técnica revoluciona o combate ao infarto

Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos


Colunas
Diogo Mainardi
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Tarefa fácil: tirar
presos dos distritos

Como agem os bandidos bem armados que
atacam as delegacias paulistas para libertar
seus companheiros que estão no xadrez

Carlos Rydle

André Penner


Falta de segurança é isso aí: a polícia paulista está sendo assaltada dentro da delegacia. Só neste ano já ocorreram 28 ações para libertar presos, com a fuga de 700 deles. Nos últimos três anos, o número de ataques chega perto de 120. O fenômeno é relativamente recente, pois até 1997 se registravam apenas casos esporádicos. Uma das causas da súbita explosão é a existência de 34.000 presos apinhados nos xadrezes dos distritos policiais paulistas, quase o dobro da capacidade das celas. Mas isso não explica tudo. No Rio de Janeiro, o segundo Estado em número de presos, só uma delegacia foi invadida neste ano. O certo é que, a partir das primeiras investidas bem-sucedidas, as quadrilhas perceberam que se trata de um crime simples em termos operacionais, quase covarde pela desproporção do poder de fogo à disposição dos fora-da-lei, e interessante por três motivos: permite resgatar um membro importante da quadrilha; o serviço envolve poucos riscos e pode render bom dinheiro; por fim, possibilita a criação de uma rede mafiosa de criminosos que ficam a dever um favor a quem os tirou da cadeia.

 
Willians Valente

Vidraça do 45º Distrito destruída por tiros num assalto, em outubro: nas delegacias, 13 000 condenados que deveriam estar no presídio
Agliberto Lima/AE

Tentativa fracassada: apesar do fogo pesado que atingiu a porta e as janelas, os policiais do 90º Distrito conseguiram impedir o resgate, em junho

Pelo menos 13.000 dos presos em distritos e centros de detenção paulistas são condenados que deveriam estar cumprindo pena em presídios. Não é apenas por falta de espaço que essa gente não pode continuar nas delegacias. Também porque as instalações carecem do sistema de segurança necessário para guardar moradores tão perigosos. Desde 1998, quando a Polícia Militar retirou seus soldados dos distritos, para reforçar o policiamento nas ruas, o plantão noturno é de cinco funcionários, incluindo o escrivão e o motorista. Raramente eles têm tempo, armamento ou disposição para reagir. Quatro policiais já foram mortos e dez ficaram feridos só neste ano. A desmoralização da polícia é total. Alguns distritos instalaram grades em torno do balcão de atendimento ao público. Outros instalaram portas giratórias, idênticas àquelas usadas em bancos. O cidadão que precisar da Polícia Civil durante a madrugada corre agora o risco de bater com o nariz na porta.


Epitácio Pessoa/AE

Recaptura depois da fuga de 98 presos na Zona Norte paulistana: apenas cinco policiais de plantão durante a madrugada


Numa rara ocasião em que a polícia conseguiu repelir a bala os atacantes, o delegado Fernando Gomes Pires foi atingido nas costas. O grupo encontrou fechadas as portas do 1º Distrito de Diadema, na Grande São Paulo, e simplesmente abriu fogo contra o prédio. Mais de 100 tiros foram disparados. "Um dos bandidos foi ferido e o bando desistiu do resgate", diz Pires. "Caso contrário, com a munição que eles tinham, teriam soltado todo mundo." Em agosto do ano passado, dezessete homens invadiram o 27º Distrito, em Campo Belo, bairro de classe média da Zona Sul, e libertaram 41 presos. Dois bandidos entraram disfarçados de policiais militares, acompanhados por uma mulher. Quando a operação estava quase terminando, um PM desconfiou da movimentação e pediu reforços. No corre-corre, a maioria dos assaltantes foi presa, apesar de os dois cabeças terem escapado. As prisões permitiram conhecer melhor como são organizadas as operações de resgate. Nesse caso, a fuga tinha sido encomendada de dentro do xadrez, com a mulher de um preso servindo de mensageira. Ficou acertado o pagamento de 70.000 reais, 30% logo após a libertação e o restante em parcelas.



Ricardo Benichio

O acesso ao 9º Distrito foi fechado com grades de ferro: é preciso mostrar documentos para entrar no prédio


O preço do resgate pode oscilar bastante de acordo com o nível de organização dos invasores. Numa fuga em São Vicente, na Baixada Santista, o resgate foi contratado por reles 10.000 reais, provenientes de uma caixinha. O preço a pagar nem sempre é em dinheiro. O libertado passa a dever um favor para o libertador. Essa dívida é paga com outros serviços, como a participação em novos resgates ou roubos. O objetivo dos assaltos é soltar um ou dois presos graúdos. Muitas vezes a polícia nem fica sabendo quem era o alvo, pois os atacantes criam confusão, permitindo ou até mesmo forçando a fuga de todos os que estão na cela. O resgatável típico é um foragido do presídio, muitas vezes com ligação com as facções que dominam o sistema carcerário. São bandidos da pesada – traficantes, ladrões de carga, bancos e carros-fortes. O grupo que vai efetuar um resgate é reunido por um "mentor" que define o papel de cada um como se fosse uma operação de guerra. A turma mais bem armada monta guarda do lado de fora, outro grupo toma conta dos policiais rendidos e um terceiro abre as celas. Antes da operação, olheiros e visitantes dão as informações sobre o que acontece do lado de fora do xadrez. De dentro, chegam dados fornecidos pelos presos por meio de telefones celulares ou pagers plantados nas cadeias.



Samir Baptista/AE

Delegado Marco Oliveira, do 70º Distrito: "Um homem me apontou uma arma e disse: 'Não reage, a casa caiu'"


Um em cada quatro resgates ocorre nas ruas, quando o preso está sendo levado para uma audiência na Justiça, ou em hospitais. Há seis meses os bandidos inovaram em estilo e multiplicaram o grau de arrojo, com um ataque a uma cadeia de Praia Grande, na Baixada Santista. Dez homens armados de fuzis e metralhadoras dispararam contra o prédio, dando cobertura a um grupo de presos que escalou o muro de 6 metros de altura. Dezoito conseguiram fugir num barco que os esperava em um rio. O bando garantiu a fuga obstruindo uma estrada com um caminhão incendiado e dezenas de pregos enterrados no caminho. O alvo predileto é mesmo o distrito policial. A operação é tão fácil que se tornou quase dispensável subornar a polícia, ainda que isso também possa ocorrer. Dois carcereiros foram presos sob suspeita de ter colaborado com uma invasão no 37º Distrito, em Campo Limpo, na periferia de São Paulo, em que 45 homens fugiram. "Eles saíram da delegacia para tomar café no momento do resgate", relata o delegado Antero Bianchi. Os soldados tentaram atrasar a abertura das celas escondendo as chaves do xadrez. Bem informado, um dos invasores apontou para a gaveta onde elas estavam guardadas. No 70º Distrito, em Sapopemba, na Zona Leste paulistana, os policiais nem viram os bandidos entrar no prédio. "Só percebi que a delegacia estava dominada quando um homem me apontou uma arma e disse: 'Não reage, a casa caiu'.", conta o delegado Marco Oliveira. Quando a "casa caiu", em setembro, 28 presos foram libertados.



Ricardo Benichio

Delegado Fernando Pires, baleado nas costas numa tentativa de invasão de um distrito em Diadema: mais de 100 tiros disparados


A estratégia básica do resgate é aparecer diante da delegacia com um grupo numeroso e farta exibição de armamento pesado, de forma que não reste aos policiais opção, exceto a de se render. "Esses bandos estão atuando com base em um tripé: armas pesadas e sofisticadas, organização eficiente e violência", diz o promotor público Gabriel Inellas, que acompanha a investigação de um caso de resgate ocorrido em outubro do ano passado. O detalhe é que o poder de fogo dos assaltantes é emprestado ou alugado. Isso porque a arraia-miúda recrutada não tem o armamento necessário – fuzis, metralhadoras, granadas e coletes à prova de bala. O aluguel de um AR-15, fuzil americano comum entre criminosos, pode variar de 500 reais a 2.000, dependendo do serviço no qual vai ser usado. Em geral, os locadores são narcotraficantes, que precisam de armas pesadas para defender seus pontos-de-venda.



Samir Batista/AE

Porta giratória, igual às das agências bancárias, em distrito policial paulistano: medidas de proteção


O problema nas mãos do governo paulista é inusitado: como proteger a própria polícia de assaltos? Nos últimos meses adotaram-se algumas providências modestas. Presos considerados resgatáveis foram retirados dos distritos, criou-se uma equipe de ronda que protege os prédios à noite e maior empenho vem sendo empregado na investigação dos assaltos. Nem por isso a delegada Cristiane de Oliveira aceita voltar a fazer plantão em distrito. Grávida de três meses, ela foi agredida durante uma invasão em 1998. No ano seguinte, esteve na mira de uma metralhadora e pensou que iria morrer. Depois disso, Cristiane foi transferida para uma área burocrática da polícia. A mudança foi um alívio, mas não atenuou o trauma. "Neste ano, após ter sido assaltada na rua, fiquei em pânico ao imaginar que teria de entrar em uma delegacia para prestar queixa", diz. "O medo foi tão grande que eu desisti de fazer o boletim de ocorrência."

 

Caos nos DPs e nas cadeias de São Paulo

28 resgates de presos desde janeiro

700 presos libertados só neste ano

117 resgates ocorreram nos últimos três anos  

70 000 reais é o preço médio de uma fuga  

Um grupo de resgate reúne em torno de vinte homens, liderados por dois coordenadores  

Um coordenador pode ganhar até 10 000 reais por resgate  

Uma equipe de apenas cinco policiais permanece nas delegacias paulistas à noite  

Há 34 000 presos em delegacias paulistas, apinhados em celas com capacidade total para apenas 18 000

38% dos prisioneiros já foram condenados e deveriam cumprir pena em presídios  

No Estado há 71 penitenciárias, com capacidade para 49 000 presos. Nelas, cumprem pena 59 000 pessoas

 

Saiba mais
Da internet
  Rádio Veja

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco