O último
Natal com caviar
Pesca
predatória e poluição são
ameaças para o futuro da iguaria

Ana
Santa Cruz
Luiz Humberto
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Aviso
aos gourmets e aos endinheirados: aproveitem o que pode ser a última
ceia farta em caviar. O peixe do qual é extraído,
o esturjão, está sendo pescado de forma tão
predatória que a produção da iguaria já
é equivalente a 2,5% da registrada nos anos 70. As três
espécies de esturjão do Mar Cáspio, que fornecem
o produto mais valioso, estarão comercialmente extintas em
um ou dois anos, de acordo com a avaliação da World
Wide Fund for Nature (WWF), uma das principais ONGs ambientalistas.
Neste fim de ano, o efeito da crise é sentido sobretudo no
bolso. O preço subiu quase três vezes nos últimos
dois anos no comércio brasileiro. A latinha de 125 gramas
custa cerca de 1.300 reais nas lojas
paulistas. A partir de 1991, com o fim da União Soviética,
que controlava com mão de ferro a indústria do caviar,
a pesca virou pura selvageria, sem nenhuma preocupação
com a sobrevivência do esturjão a ponto de só
neste ano a produtividade ter caído 15%. O peixe também
sofre com a poluição causada pelos despejos químicos
e pela extração de petróleo. Na semana passada,
um seminário organizado pela ONU decidiu pedir aos governos
da Rússia, Irã, Azerbaijão, Casaquistão
e Turcomênia a redução da produção
e maior esforço no combate à pesca ilegal. O WWF defende
a suspensão total do comércio de caviar durante todo
o próximo ano.
Dos
países que cercam o Cáspio, só o Irã
segue monitorando a atividade. Estima-se que o produto da pesca
clandestina seja dez vezes superior ao da permitida. Ao lado dos
empobrecidos habitantes da região, também retiram
o peixe pescadores equipados com lanchas e metralhadoras, patrocinados
pela máfia russa, que descobriu no caviar uma colossal fonte
de lucros. Um quilo de caviar obtido ilegalmente é vendido
às margens do Cáspio por 20 dólares. Em Moscou,
o mesmo quilo salta para 100 dólares. Chega a Londres valendo
750 dólares, uma barganha comparada ao importado legalmente,
que sai por 2.100 dólares. Ao
chegar às prateleiras das lojas de luxo, o preço está
em 4.700 dólares. É irônico
pensar que no início do século XX era possível
degustá-lo por alguns centavos em qualquer boteco de Nova
York. Na França, antes da II Guerra, o caviar custava o mesmo
que uma baguete.
Em
princípio, as ovas de qualquer esturjão (há
28 espécies em várias partes do Hemisfério
Norte) são chamadas caviar. Os gourmets mais exigentes, porém,
só apreciam o produto extraído do beluga, do osetra
e do sevruga, três peixes do Mar Cáspio, os mais ameaçados
entre todos. O maior deles, o beluga, vive até 100 anos e
pode pesar 900 quilos. As ovas correspondem a 15% de seu peso. A
fêmea só atinge a maturidade a partir dos 20 anos,
e para extrair o produto é preciso matá-la. Bem longe
do Mar Cáspio, esse peixe está sendo criado em cativeiro.
O problema é que o caviar obtido dessa forma só responde
por 3% da produção mundial. Boa parte do caviar de
esturjão de cativeiro sai da China, França e Estados
Unidos. Quem investiu na criação do beluga (o peixe
que mais demora a atingir a maturidade) há duas décadas
só agora começa a ter retorno. Mesmo assim, enfrenta
a rejeição de gastrônomos. "O sabor desse tipo
de caviar não se compara ao do que é extraído
do peixe do Cáspio", opina o chef francês Erick Jacquin,
do Café Antique, em São Paulo. "Com o caviar acontece
o mesmo que se verifica com o salmão criado em cativeiro,
que é menos saboroso que o selvagem."
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