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A AmBev recentemente colocou em prática um plano de globalização do guaraná Antarctica. O projeto prevê que, em breve, a empresa passe a faturar 700 milhões de dólares vendendo a bebida brasileira em diversos países. Em conseqüência desse plano, cresceu a importância estratégica de um dos funcionários da companhia, o químico Orlando de Araújo. Esse discretíssimo senhor grisalho de 74 anos trabalha na empresa desde o início da década de 50 e carrega consigo o mais valioso segredo industrial da AmBev: a fórmula do guaraná Antarctica. A composição química do refrigerante foi criada nos anos 20, por uma equipe da área industrial. Desde então, foi passando de mãos em mãos, até chegar a Araújo, membro dessa espécie de cadeia de confiança. Ao químico coube também a responsabilidade de escolher nos corredores da empresa um sucessor, que deverá manter o segredo vivo nas próximas décadas. Acabou elegendo para a importante tarefa um ex-assistente. O assunto é tratado com tanto zelo que os diretores só se referem a esse outro funcionário como "O Elemento". "Profissionais assim exercem um papel-chave, equivalente ao dos mais graduados diretores da corporação", compara José Luiz Saicali, um dos sócios da consultoria KPMG, uma das maiores do país. "Sem eles, a companhia não sobrevive."
O sonho da AmBev é que, um dia, a fórmula de seu guaraná seja tão badalada quanto a da Coca-Cola. O químico Araújo e "O Elemento" são as únicas pessoas que conseguem entrar no cofre da AmBev, olhar a pasta em que está a fórmula do guaraná e codificar as cerca de oitenta substâncias aromáticas que são misturadas em quantidades específicas à fruta extraída na Amazônia. Um erro qualquer na mistura é o suficiente para transformar o guaraná em tubaína. A dupla de químicos recebe um salário estimado pelo mercado em cerca de 20 000 reais, próximo ao dos diretores da companhia. São proibidos de viajar juntos no mesmo avião, pois a empresa não quer correr riscos.
É diferente com o outro grupo de empresas, o que detém as fórmulas ancestrais mantidas secretas há cinqüenta, 100 ou mais anos. Essas companhias não têm o grosso de seu faturamento lastreado em novos lançamentos. Sua fonte principal de receita são os produtos tradicionais. Por essa razão, se seus segredos forem desvendados, o que será de sua receita, de seu lucro e, quem sabe, da própria companhia? Se alguém descobre como será o novo carro de uma montadora, pode até arrasar a firma por alguns meses. Mas o que será da Coca-Cola se sua fórmula for realmente desvendada? Com o crescimento da importância da informação na economia globalizada, os cuidados das empresas em manter seus segredos são cada vez maiores. A Microsoft, por exemplo, além de ter o próprio departamento jurídico para cuidar de casos de cópias ilegais, é filiada a duas instituições, uma nacional e outra internacional, que se dedicam a combater a pirataria. O mercado de segurança da informação, que praticamente inexistia no Brasil há algumas décadas, hoje movimenta 200 milhões de dólares por ano. Há inclusive novos termos para designar velhas práticas. O que era conhecido como espionagem hoje se chama engenharia social. O objetivo continua o mesmo. Conseguir dados e histórias importantes, partes de segredos ou segredos inteiros de uma determinada companhia. O alvo principal da engenharia social também continua o mesmo: o funcionário da empresa. Pesquisas americanas demonstram que 80% dos casos de vazamento de informações sigilosas de companhias partem dos funcionários. "As empresas estão lidando constantemente com o risco", diz o especialista Wilson Gellacic, da Ernst & Young Auditores. "E o maior deles é a pessoa que elas contratam."
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