Brega é
ostentar
Para o decorador dos ricos
e novos-ricos,
bom gosto
para morar não é
sinônimo de
espaço nem
de dinheiro
Carlos Maranhão
 |
"Uma
casinha do interior do Brasil, com fogão a lenha, cadeiras
de palha e retratos dos antepassados na parede, tem autenticidade
e, por isso, é chique" |
O
arquiteto paulista José Antonio Sig Bergamin, 46 anos,
tornou-se na última década um dos mais badalados
profissionais do país em uma área que entrou definitivamente
na moda: a decoração de interiores. Sig apelido
que incorporou oficialmente ao nome virou uma figura tão
conhecida como os ricos, novos-ricos e personalidades que o contratam
para transformar suas casas e apartamentos. É uma clientela
que inclui as atrizes Malu Mader e Maitê Proença,
o empresário José Roberto Marinho, o publicitário
Nizan Guanaes, o homem de TV José Bonifácio de Oliveira
Sobrinho, o Boni, e o ex-piloto Emerson Fittipaldi. Vaidoso assumido,
comprador quase compulsivo de móveis e objetos de arte,
colecionador de tecidos antigos, cadeiras em miniatura e cristais
de Murano, ele é respeitado no meio como um homem de bom
gosto e pela capacidade de trabalhar simultaneamente em várias
frentes. Ao dar esta entrevista a VEJA em seu escritório
com móveis brancos, tinha em andamento 35 projetos diferentes
de decoração em meia dúzia de cidades brasileiras.
Veja O que levou a decoração a entrar
em alta e valorizou tanto seus profissionais?
Sig
A vontade que as pessoas sentem, nas maiores cidades, de ficar
mais tempo em casa. Um dos motivos é o crescimento da criminalidade
nas metrópoles. O outro é que se tornou mais fácil
ter praticamente tudo no lugar em que se mora, do filme recém-lançado
em DVD à possibilidade de se conectar com o mundo através
da internet. Com tudo isso, casas e apartamentos se tornaram mais
aconchegantes, confortáveis, bonitos e bem equipados. É
aí que entra o decorador.
Veja Qual é o seu papel?
Sig
Oferecer
soluções para que cada um possa viver no ambiente
que melhor satisfaça suas necessidades e estilo de vida.
A volta ao próprio ninho, que estamos observando nos últimos
anos, leva à redescoberta do prazer que é ter um
belo quarto, uma sala acolhedora, um banheiro bacana e, claro,
uma ótima cozinha. Aliás, a cozinha foi revalorizada
como conseqüência do mesmo fenômeno. Além
de preferir ficar em casa, a classe média constatou que
os restaurantes estão caros. Ela então os
homens sobretudo resolveu aprender a cozinhar. São
dois mercados que explodiram: o da decoração e o
da culinária.
Veja Uma das conseqüências dessa explosão
é que os mais conhecidos decoradores e chefs de cozinha
do país viraram estrelas. Não está havendo
um certo exagero?
Sig
Um pouco. Os chefs fazem programas de TV, são paparicados,
anunciam produtos e aparecem em colunas sociais. Nós, os
decoradores, somos assediados. Até demais. Quando viajo
pelo Brasil, ficam me pedindo autógrafo. É espantoso.
Três ou quatro décadas atrás, os profissionais
estabelecidos podiam ser contados nos dedos. Hoje, nas grandes
cidades, encontramos centenas.
Veja Quem mora em um apartamento de dois quartos
precisa ir atrás de um decorador ou deveria resolver tudo
por sua conta na hora de escolher móveis, cortinas e tapetes?
Sig
Um bom profissional ajudará o morador a definir prioridades,
comparar opções e fazer as escolhas certas. Para
um casal jovem que gosta de receber amigos e acabou de se mudar
para um apartamento como esse, eu recomendo ampliar a sala com
uma reforma que elimine um dos quartos. Ou transformar dois banheiros
pequenos em um grande. Um banheiro espaçoso representa
uma melhoria na qualidade de vida. Tudo, é claro, depende
do perfil individual. São decisões complicadas de
tomar sozinho.
Veja O que mais pode ser feito em um imóvel
de 100 metros quadrados?
Sig
Antes
de mais nada, não entulhá-lo de móveis e
objetos. Compre poucas coisas, mas de qualidade e que tenham sua
cara: um bom sofá, desses em que você afunda e se
esquece do mundo, uma mesa legal e duas ou três peças
de arte. Para pendurar na parede, uma foto emoldurada, seja a
obra de um profissional, seja o flagrante de um momento importante
de sua vida, é melhor que um mau quadro ou uma gravura
com tiragem infindável. Se puder, invista em um projeto
de isolamento acústico nas janelas, para que a casa seja
silenciosa. O silêncio é fundamental.
Veja O senhor costuma impor seu estilo ou faz o que
o cliente quer?
Sig
Eu não tenho estilo. É difícil alguém
olhar um ambiente e dizer: "Ah, esse é do Sig". Eu apresento
propostas diferentes para espaços diferentes. Não
imponho nada. Prefiro aconselhar. Escuto o cliente, dou idéias,
faço ponderações. Se ele não me ouvir,
paciência. Faço o que ele quer. Não sou eu
que vou morar lá. É ele. Infelizmente, nesse ponto
muitos arquitetos e decoradores são egoístas.
Veja Quem?
Sig
Há vários arquitetos que pensam mais em sua obra
artística, digamos, do que no interesse de quem vai utilizá-la.
Um deles é Oscar Niemeyer. As formas que Niemeyer cria
são maravilhosas, com exceção do Memorial
da América Latina, em São Paulo, um verdadeiro horror
em termos de adequação ao ambiente. Mas vá
morar ou trabalhar dentro de um de seus prédios. São
lugares quentes, desconfortáveis e às vezes quase
inabitáveis, como sabe quem já esteve dentro do
Palácio da Alvorada.
Veja Os decoradores também fazem isso?
Sig
Certos
decoradores são assassinos de casas. Escolhem móveis
incômodos simplesmente porque são bonitos, colocam
sofás cheios de brilho em salas de pessoas que detestam
ostentação, não têm senso de proporção
e fazem questão de impor seu gosto pessoal a qualquer custo.
Desconfie de decoradores que são donos da verdade. Mas
a maioria dos profissionais que conheço é formada
por gente séria e competente.
Veja Se o cliente tem mau gosto e bate o pé,
o senhor se rende?
Sig
A casa é do dono e ele tem o direito de escolher a decoração
que julga mais adequada. O cafona assumido pode ser um novo-rico
que quer porque quer exibir um luxo excessivo no lugar em que
mora. Quase sempre eles me falam: "Este é o meu mundo,
eu vivo dessa maneira". São pessoas que jamais morariam
num lugar clean, cheio de vãos livres, com cortinas discretas.
Quando não aceitam minhas propostas, só me resta
orientar o mau gosto. Ou seja, tentar que o resultado seja mais
kitsch que cafona.
Veja Qual é a diferença?
Sig
Cafona é a aberração, o mau gosto levado
ao pé da letra, aquilo que dói aos olhos. Kitsch
é o brega assumido, mas com toques de bom humor. Nesse
caso, pode ficar engraçado. Confesso que tenho um lado
kitsch. Não resisto a uma cadeira de praia, a um pingüim
de geladeira, a uma daquelas galinhas de arame para colocar ovos.
Sabendo usar, fica divertido.
Veja
O que é chique em matéria de decoração?
Sig
Chique é o que é autêntico. Uma casinha do
interior do Brasil, com panelas de ferro, fogão a lenha,
cadeiras de palha, retratos dos antepassados na parede, pode ser
chique. Tudo aquilo está integrado ao ambiente e faz parte
da história dos moradores. Isso não tem nada a ver
com dinheiro nem com o tamanho do imóvel. Espaço
e riqueza não são sinônimos de bom gosto.
Você pode morar com conforto em um cenário gostoso,
elegante e não necessariamente grande. Meu apartamento
em Nova York é ótimo. Tem 80 metros quadrados.
Veja E o que o senhor acha brega?
Sig
A ostentação. Pior do que o ambiente é o
comportamento. Gente brega, que ainda não se acostumou
com o dinheiro que tem, cultiva o desagradável hábito
de informar no meio da conversa que os equipamentos do home theater
custaram tanto, que os tais cristais vieram de Paris e que os
tapetes são legítimos persas. Que coisa feia...
Existe um tipo de arquitetura muito brega também. Fico
chocado com uns prédios de apartamentos que foram construídos
em Salvador, cheios de vidros pretos e cerâmica vermelha,
na linha tupiniquim modernoso. Na Praia da Boa Viagem, no Recife,
vi uns edifícios de emergentes inteiramente espelhados
que são um deus-nos-acuda. Outra agressão é
a poluição visual de São Paulo e seus monumentos
chocantes, como o Minhocão, a estátua do Borba Gato
e, insisto, aquele pavoroso Memorial da América Latina.
Veja E a decoração natalina dos shopping
centers?
Sig
Uma
barbaridade. Nossos shoppings são incapazes de criar uma
ornamentação de Natal que tenha qualquer relação
com o país em que vivemos. Eles são muito pretensiosos,
acham que estamos na Europa ou nos Estados Unidos e parecem sentir
vergonha de se assumir como brasileiros. Vem daí o festival
de besteiras: veludo vermelho, neve, trenó, renas...
Veja Do que o senhor gosta em decoração?
Sig
Sou bastante eclético. Meu gosto pessoal é influenciado
pelo Oriente, sobretudo Índia e Bali, lugares que eu adoro.
Ao lado disso, tenho uma queda pelo estilo dos anos 50 e 60, por
móveis de época e casas brancas.
Veja Na decoração, como no mundo da
moda, aparecem tendências que logo caem em desuso. O senhor
aconselha seus clientes a segui-las?
Sig
O
modismo é perigoso. Se você decorar uma casa apenas
com o que está na moda, ela ficará com jeito de
velha em pouco tempo. É preciso ter bom senso. Certas tendências
chegam a durar dez anos. Para citar uma delas, aqueles tecidos
imitando pele de animais selvagens continuam sendo usados pelos
que os apreciam. Não é o meu caso. Objetos de prata,
que estavam meio sumidos, voltaram recentemente. No momento, os
acrílicos estão em alta. Eu prefiro algo bem diferente.
Veja O quê?
Sig
Peças com história, com vida. Conhece algo pior
do que sapatos novos, camisa que sai engomadinha da loja? Com
móveis e objetos de decoração acontece o
mesmo. Tenho predileção por coisas mais usadas,
desde que não sejam desvirtuadas de sua função
original. Alguns compram em antiquário uma estante enorme
e, em vez de livros, colocam bonecas, bibelôs, adornos e
pirâmides nas prateleiras. Outros usam rodas de carroça
para montar uma mesa ou põem uma velha máquina de
costura na sala de jantar para servir como aparador. Desculpem
a sinceridade, mas é cafona.
Veja mpra móveis e objetos
antigos?
Sig
Freqüento
feirinhas de antiguidade no Brasil e no exterior. Elas oferecem
mais velharias e imitações grosseiras do que peças
autênticas, mas, no meio desse lixo, podem-se encontrar
coisas boas. Uma dica que dou é procurar anúncios
do tipo "família vende tudo". Já comprei coisas
incríveis a bons preços. O importante é ser
curioso, procurar, comparar e conhecer. Em terra de cego, quem
tem um olho é rei.
Veja Os decoradores costumam cobrar pelo projeto
e ainda recebem um porcentual sobre o valor das peças que
indicam para o cliente. Se não bastasse, podem ganhar comissão
das lojas. Não é demais?
Sig
As formas de pagamento variam. O normal é a cobrança
de uma taxa de administração, entre 10% e 15% sobre
os gastos feitos com base no projeto aprovado. Há lojas
que dão comissão ao decorador, mas meus clientes
compram onde eles quiserem.
Veja Essa comissão está embutida no
preço dos artigos?
Sig
Muitas vezes está, sobretudo no caso dos tecidos para estofados
e cortinas. Quem vai às compras por conta própria,
sem assessoria de um decorador, deve barganhar um desconto. Com
móveis é mais difícil, pois os comerciantes
têm margem de lucro menor.
Veja Quanto o senhor cobra por seus serviços?
Sig
Se o cliente pretende discutir opções e ouvir conselhos
profissionais, cobro 300 reais por hora de trabalho. O preço
da maioria de meus projetos, dependendo do tamanho do imóvel,
vai de 4.000 a 40.000
reais.
Veja Qual foi seu projeto mais caro?
Sig
Quando trabalho em residências monumentais, com mais de
1.000 metros quadrados de área
construída, o projeto pode custar 80.000
reais. Tenho feito vários, mas prefiro preservar o nome
desses clientes. Em geral, porém, os trabalhos mais caros
são os de hotéis.
Veja O senhor já decorou vários restaurantes.
Muitos deles não estão investindo mais na ambientação
do que na cozinha?
Sig
Sim, e é um erro. O que tem de prevalecer é a comida,
não o cenário. A decoração deveria
ser imperceptível, privilegiando a comodidade e a iluminação
correta. No lugar de ambiente suntuoso e de garçons fantasiados,
os restaurantes têm de se preocupar com a cozinha e com
dois cuidados básicos nas mesas: toalhas brancas e flores
frescas. Toalhas coloridas escondem a sujeira e flores artificiais,
além de horríveis, acumulam poeira. São intoleráveis.
Veja Quais as casas mais bonitas do Brasil?
Sig
Conheço várias residências que impressionam
pelo bom gosto e pela qualidade da decoração, como
a das senhoras Evinha Monteiro de Carvalho, toda em art déco,
em Santa Tereza, no Rio de Janeiro, e Alícia Scarpa, no
Jardim Europa, em São Paulo, com seu estilo francês
despojado e elegante. Mas as casas mais bonitas, para mim, são
as históricas fazendas de café no Vale do Paraíba
e na região de Campinas. Elas têm a essência
do bom gosto: a autenticidade.