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Edição 1 778 - 20 de novembro de 2002
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Passe de mágica

O americano Paul Auster joga
com os seus
truques literários
em O Livro das Ilusões

Carlos Graieb


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Trechos do livro

Meses atrás, a enorme rede americana de livrarias Barnes & Noble descobriu que as obras de Paul Auster estavam entre as mais furtadas de suas lojas. Não é uma surpresa. Ladrões de romances formam um grupo peculiar. Sem desculpá-los, pode-se ter alguma simpatia por eles, que parecem acreditar que a ficção é um gênero de primeira necessidade, pelo qual vale a pena arriscar a pele. Como escreveu certa vez o crítico Alberto Manguel, eles agem como "amantes enlouquecidos". Ora, é para esse tipo de pessoa que Auster sempre escreveu: os que levam a literatura muito a sério. Não é diferente em O Livro das Ilusões (tradução de Beth Vieira; Companhia das Letras; 312 páginas; 37 reais), que chega nesta semana ao Brasil e no qual o autor se mostra em ótima forma.

Quando sua família morre num acidente aéreo, David Zimmer cai em depressão profunda. Pensa em suicídio diante da TV até que, um dia, um comediante do cinema mudo consegue arrancar-lhe um riso. Pela primeira vez em meses, Zimmer sente que está vivo. Resolve estudar os filmes do ator, um certo Hector Mann, que sumiu em 1929, sem deixar rastros, depois de uma carreira meteórica. Ele visita museus, recolhe material sobre a vida de Mann e depois publica um livro. Então, do nada, chega uma carta dizendo que Mann está vivo e gostaria de encontrá-lo. Incrédulo, Zimmer hesita. Mas então uma mulher misteriosa aparece em sua casa, com um revólver em punho, e o obriga a inteirar-se da verdadeira história do ator.

Esse é um velho truque da ficção policial. Para mudar a direção de um enredo, brincou certa vez Raymond Chandler, um dos criadores desse gênero, basta "fazer um homem irromper pela porta com uma arma na mão". É o tipo de brincadeira que os leitores de Auster gostam de encontrar. E O Livro das Ilusões traz muitas outras. Há ecos de obras do próprio Auster, como O Quarto Fechado e Palácio da Lua (no qual Zimmer aparece). Há descrições minuciosas de filmes, citações das Memórias de François Chateaubriand, alusões à filosofia do irlandês George Berkeley. Há simetrias e coincidências. Tudo isso transforma o romance numa espécie de quebra-cabeças em que as peças podem ser arranjadas de várias maneiras. Como convida a mais de uma leitura, trata-se de um bom livro para levar para a prisão.

   
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