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Edição 1 778 - 20 de novembro de 2002
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Vizinho triste

O Filho da Noiva é um belo
melodrama sobre o desalento
que tomou conta da Argentina

Isabela Boscov


Divulgação

Darín, Alterio e Norma: saudade do que a Argentina não chegou a ser



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Dentre a nova leva do cinema latino-americano, a produção mais sólida, e também a de timbre mais melancólico, é a que vem da Argentina. Um bom exemplo é O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia, Argentina, 2001), que estréia nesta sexta-feira no país. Nesse melodrama, o ator Ricardo Darín (de Nove Rainhas) é Rafael, um quarentão estressadíssimo que tenta manter à tona o restaurante herdado dos pais enquanto finge para si mesmo que tem uma vida. Rafael concede ao pai, à filha e à namorada a sua presença física, mas seu espírito está sempre em outra freqüência. Da mãe, que sofre do mal de Alzheimer, ele foge, para não ter de comparar a realidade com suas lembranças. Rafael também dorme pouco e fuma muito. Ou seja, está no caminho de um infarto. Quando ele sobrevém, os dias passados numa UTI o convencem de que algo tem de mudar. A questão é o quê.

O Filho da Noiva não esconde que seus personagens são alegorias do desalento por que passa a Argentina. Rafael, evidentemente, é o símbolo de uma existência que se tornou tão áspera que seu único propósito parece ser resistir à crise do momento e cerrar os dentes para enfrentar a próxima. O diretor Juan José Campanella, entretanto, tem outras metas que não a simples constatação, e é aí que entram os pais de Rafael, estupendamente interpretados por Héctor Alterio e Norma Aleandro. Em 1984, os dois protagonizaram A História Oficial, que tratava de outra convulsão da crônica argentina – a ditadura militar dos anos 80. Aqui, eles aparecem como emblema de um país ideal que não vingou, mas que nem por isso não deixou frutos. Quando o pai de Rafael diz que quer casar na Igreja com a mulher desmemoriada – por ser comunista, ele a tinha privado dessa satisfação –, o filho a princípio reluta. Depois, vê aí um sentido e um rumo possível. Campanella, que tem uma bem-sucedida carreira na televisão americana, baseou o enredo na história real de seus pais, e o narra com limpidez, delicadeza e senso de oportunidade. Tocados com o drama dos personagens e o seu próprio, os argentinos gastaram o pouco que tinham para fazer de O Filho da Noiva um sucesso de bilheteria. Foi um bom investimento.

   
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