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FHC, oito anos depois |
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Ana Araújo![]() |
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| Fernando Henrique Cardoso: normalidade democrática e tolerância | |||||||
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Lá vem ele, lá longe. Quem quer que se aproxime, vindo de
um extremo a outro de uma sala do Palácio da Alvorada, vem de longe.
As salas são imensas, entremeadas de amplos espaços vazios
e com pé-direito nas nuvens. A pessoa que acaba de entrar na sala,
aos olhos de quem a espera, lá do outro lado, faz figura pequena
como o ator que se divisa no palco das últimas cadeiras. A pessoa
vem se aproximando e são tantos os passos que dará, até
chegar ao visitante, que se tem tempo, no intervalo, de refletir sobre
a razão de os palácios presidenciais terem ambientes tão
majestosos. Claro que, sendo tais palácios descendentes diretos
dos castelos reais, herdaram destes a função de impressionar
os súditos com uma reprodução arquitetônica
da grandeza do soberano. Mas também se pode fazer o raciocínio
inverso: os palácios são imensos para deixar seus ocupantes
pequenos. Para fazê-los sentir como são efêmeros, em
relação à perenidade das paredes que temporariamente
os abrigam, e como podem parecer comuns, em contraste com a linha inigualável
de uma prodigiosa colunata.
Quem veio lá de longe é o (ainda) presidente Fernando Henrique Cardoso. Mais se falou mal do que bem dele, nestes últimos meses ou anos , então falemos bem: eis um presidente que soube conduzir a nau do Estado dentro da normalidade democrática. No que talvez venha a ser reconhecido como sua obra máxima, foi um reformador e um consolidador de instituições. Para lembrar um só ato nessa direção, foi o criador do Ministério da Defesa, com o qual se completou a operação de recolher aos bastidores os ocupantes dos comandos militares, durante tanto tempo protagonistas maiores da mambembe ordem democrática brasileira. Também lhe devem ser creditadas as virtudes da tolerância e do desarmamento dos conflitos, exercidas mesmo quando os adversários o ameaçavam nada menos que com a arma letal da destituição, em campanhas que tinham por mote "Fora FHC". Enfim, eis um presidente que, fiel tanto à vocação de democrata quanto à de professor, nunca se furtou a explicar e explicar-se, argumentar e tentar convencer. É o que ele fará nas próximas páginas, nas quais se transcreve longa entrevista, realizada no Palácio da Alvorada em duas sessões, uma antes e outra depois da eleição.
(Quanto ao pensamento sobre a magnificência dos palácios, talvez só sirva para ocupar o tempo enquanto se aguarda no outro extremo da sala. Mas talvez tenha outra utilidade, em tempo de troca de guarda no palácio presidencial.)
Veja
Que diferencia o Brasil de 1994 do Brasil de 2002?
FHC
A estabilidade. E não só no sentido econômico, mas
no sentido genérico da palavra. No Brasil de 1994 já havia
começado o Plano Real, mas não sabíamos até
que ponto teríamos condições de reorganizar as bases
do governo e da economia, para propiciar depois um período de crescimento
sustentado. Isso é o primeiro degrau da questão. O segundo,
e mais importante, é a estabilidade, digamos, dos valores. O Brasil
de 1994 ainda vinha da cicatrização de uma operação
na democracia, que foi o impeachment, e não tínhamos tido
ainda experiência mais prolongada de um regime de presidente eleito.
O que foi eleito acabou deposto, e os outros não tinham sido eleitos.
No Brasil de hoje, a normalização dos valores democráticos
é algo palpável. Ninguém põe mais em dúvida
as instituições democráticas. O Brasil de 1994 já
era um Brasil de liberdade de imprensa etc. Hoje chegamos à
culminação desses valores, inclusive no que diz respeito
ao legado do passado autoritário. Acabamos com tudo o que havia
de restrição e de injustiça praticadas em função
do regime militar. É um assunto que nem se menciona mais. Hoje
a liberdade e a democracia são como o oxigênio você
pensa que não tem importância porque tem em abundância.
Veja
O senhor asseguraria que esses valores estão aí
para ficar?
FHC
Acho que estão. São valores enraizados na sociedade. E também
as instituições se fortaleceram. Nesses anos não
houve crise institucional alguma. Nem choque com o Congresso, nem com
as Formas Armadas, nem com as instituições judiciárias.
Isso como que desapareceu, não digo do horizonte, porque é
pensar muito longe na História, mas neste momento não constitui
preocupação. Então, quando digo que a estabilidade
vai muito além da questão econômica, é para
dizer que para mim o valor fundamental, que é a democracia, se
enraizou bastante. Depois, em 1994 não se tinha um Estado capaz
de operar. O Estado estava despedaçado. Ele teve de mudar de forma,
de um regime autoritário para um regime democrático, e nessa
mudança, no período Sarney, virou um Estado clientelista.
Houve o butim do Estado pelos partidos. No período Itamar isso
não mudou sensivelmente. Quando eu era ministro da Fazenda, havia
atrasos de pagamentos dos hospitais de quatro, cinco meses. Não
se transferiam recursos do SUS.
Veja Isso acontecia inclusive por causa da inflação...
FHC
Também
da inflação. Mas o Estado não tinha condições
de operação. Não tinha informações.
Ainda no governo Itamar, começamos a deslindar as relações
entre Tesouro e Banco Central. O Estado não tinha o fluxo necessário
de informações para que as decisões pudessem ser
tomadas de forma razoável. Então eu diria que a diferença,
também fundamental, é que nós reorganizamos o Estado
brasileiro. Passou a haver outro tipo de capacidade operacional do aparelho
estatal. E também outro tipo, mais disciplinado, de relações
federativas. No primeiro ano de meu governo, em 1995, as prefeituras e
os Estados não pagavam à Caixa Econômica. O setor
rural não pagava suas dívidas. Outro problema é que
não havia mecanismos efetivos de atendimento aos mais pobres. O
que havia, LBA e coisas do estilo, eram mecanismos plenos de clientelismo
e de corrupção. Também nesse ponto houve modificação
sensível. Ao contrário do que se propala, o gasto social
aumentou consideravelmente. E, tão importante quanto aumentar o
gasto, houve uma mudança no sentido de focalizar esse gasto melhor,
na direção dos que mais precisam. Não está
bem ainda, mas já houve uma mudança importante. Tudo isso
faz parte dessa minha visão de reorganização do Estado
em função de valores democráticos e de uma sociedade
mais estável. Essa é a diferença fundamental entre
o Brasil de 1994 e o de hoje.
Paulo Jares![]() |
| Palácio do Planalto, 1º de janeiro de 1995: a faixa muda de dono |
Veja
O senhor diz que não houve crise com o Congresso, mas
continuou a haver uma relação complicada entre Executivo
e Legislativo. A percepção é que os partidos continuaram
a arrancar seu butim.
FHC
A percepção é equivocada. O que acontece? O que temos
aqui é um regime multipartidário de partidos fracos e Congresso
forte, o que é um paradoxo. Poucos dos partidos têm base
organizada, mas o Congresso é muito forte. Esse Congresso aspira
sempre a uma relação aliás, comum nas democracias
de troca de favores. Que foi feito? Uma redução drástica
disso. Primeiro, com a reorganização do Estado, toda a sua
parte produtiva produtiva e financiadora foi retirada do
jogo: Banco do Brasil, Caixa Econômica, Petrobras, Eletrobrás,
Banco do Nordeste... Isso foi blindado. Eventualmente esses órgãos
podem até abrigar alguém de um partido, mas foram estabelecidos
mecanismos de controle.
Veja
Se o senhor blindou um pedaço, isso quer dizer que outro
pedaço ficou solto...
FHC
Eu vou chegar lá. Além dessa blindagem, houve a privatização.
Com ela, eliminou-se outra parte apetitosa do butim do Estado. Só
nas telefônicas, havia uns 125 ou 130 diretores. Nas áreas
sociais fundamentais, educação, saúde e reforma agrária,
marginalmente houve indicações, mas progressivamente acabamos
com isso. Em algumas, como a da reforma agrária, passamos a contratar
por concurso e por contrato de gestão. Tudo isso foi feito com
muita dificuldade. Na Caixa Econômica foi uma batalha. Caso se vá
aos anais do Congresso, vai se ver que os ataques à Caixa Econômica
foram freqüentes. Porque nós mudamos a concepção
da Caixa. Fizemos escritórios de negócios, tiramos de um
Estado para botar no outro... Houve uma gritaria tremenda. Também
desmontamos a Sudene e a Sudam...
Veja
...sob a pressão dos escândalos...
FHC Antes
da pressão. Quando veio a pressão, o processo já
estava em marcha. O ministro da Integração Nacional, Fernando
Bezerra, já estava começando a mudar, e os procuradores
estavam em cima das irregularidades. Eu sabia o que estava acontecendo.
Então, o que sobrou foram emendas parlamentares para algumas áreas.
Foi onde o Congresso conseguiu manter algum tipo de balcão. Mas,
quando se tem em conta o orçamento global, que é de mais
ou menos 300 bilhões de reais, essas emendas representam apenas
uma pequena parte 1 bilhão, 1 bilhão e meio. Não
é nada. Do ponto de vista da busca de escândalo, basta um.
Mas, olhando historicamente, houve drástica redução
dos problemas de má gestão do gasto público. Como
política de governo, o que houve foi uma tentativa contínua
de controle.
Egberto Nogueira![]() |
AFP![]() |
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Com Clinton nos jardins (abril de 1995) e com Bush no interior da Casa Branca (março de 2001) |
|
Veja
Recentemente o senhor fez uma autocrítica, afirmando
que governar o Brasil não era tão fácil quanto disse
uma vez. Que lhe ensinou esse período, em matéria de liderança
ou tomada de decisões?
FHC
Eu disse isso um dia quando estava saindo do palácio. Alguém
me perguntou se era difícil, eu respondi: "Acho que até
é fácil". Até hoje acho que, comparativamente com
outros países, não é tão difícil. Não
temos aqui ódios raciais nem fundamentalismos religiosos. Temos
uma certa inclinação, que sempre foi malvista pela intelectualidade,
para a conciliação. E um certo pragmatismo não
espanhol, mas português. Pode-se dizer: "É falta de princípios".
Será? Os chamados princípios não trairiam uma certa
intolerância? A tolerância torna mais ameno o ato de governar.
Agora, obviamente, há dificuldades. Você tem de conciliar
interesses extremamente diferenciados. Esta é uma sociedade com
muitas urgências, e que, com a liberdade, aprendeu a reivindicar.
E que exige para já, como se fosse um ato aquilo que é um
processo, e que depende de tempo. É como se de repente os 500 anos
de injustiça clamassem tão forte que as pessoas quisessem
resolvê-los em um ano. Mas é preciso compreender isso. Nós
nunca tivemos tanta liberdade e tanta informação. Televisão,
rádio, informática, tudo isso deixou a sociedade muito mais
informada. A sociedade sabe dos problemas e tem pressa em resolvê-los.
Depois, há a tendência para enxergar sempre o lado negativo
das coisas. Veja por exemplo como os americanos tratam seus símbolos
nacionais, incluindo a Presidência, e como nós tratamos.
Aqui há agressividade. Não se aceita o que há de
positivo. Nos Estados Unidos é o contrário.
Veja
Nos Estados Unidos não se exagera pelo outro lado? Não
há a tendência de enfatizar o positivo? Na última
eleição presidencial houve uma suspeita fundada de fraude,
e no entanto uma semana depois se tinha esquecido de tudo, em nome de
um suposto bom funcionamento das instituições e do respeito
à Presidência. Será que o presidente do Brasil, eleito
em circunstâncias semelhantes, conseguiria governar?
FHC
Não governaria. Aqui, você tem de matar um leão por
dia. O ato de governar é em si suspeito no Brasil. "Alguma esse
homem está aprontando." Esse homem não sou eu: são
todos os que têm responsabilidade de governo. O pressuposto é
o da má-fé. Que está por trás? A imprensa
publica, entre aspas, frases que eu não disse. Ou então
que disse num outro contexto. E conversas que não ocorreram. Eu
sempre tive vontade de escrever uma carta ao historiador futuro, para
alertá-lo sobre isso.
Veja
O senhor parece que já viu a globalização
mais positivamente do que hoje. Chegava a vislumbrar um novo Renascimento.
O senhor repetiria isso hoje?
FHC
Essa minha idéia tem a ver com a consciência de que o homem
deve ser o centro de todas as coisas. Por causa das revoluções
tecnológicas, do avanço dos meios de comunicação,
dos meios de transporte, hoje tudo o que afeta um pedacinho do planeta
afeta os outros. Você vê todo dia o que está acontecendo
na Faixa de Gaza, no Afeganistão, no Rio de Janeiro. Isso de alguma
maneira amplia a consciência das pessoas, elas saem de seu umbigo.
Nesse sentido é que eu penso: quem sabe o homem passe de novo a
ser o metro das coisas, que era a idéia renascentista? Como é
muito abstrato o que estou dizendo, quando se traduz de uma maneira vulgar
não dá para entender. Eu sempre dou o exemplo do Gorbachev.
Ele descobriu a ecologia. Hoje a ecologia é parte da política.
E a ecologia significa isso: vamos prestar atenção na humanidade,
na maneira nova de pensar o relacionamento do homem com a natureza. Nesse
sentido quase filosófico é que eu sustento a idéia.
Aquilo que apareceu no Renascimento, localizado, hoje se coloca como uma
possibilidade muito maior, muito mais geral.
Veja
Aumentaram suas dúvidas com relação à
globalização?
FHC Minha
crítica à globalização é que ela é
assimétrica e não solidária. Temos tanta possibilidade
de fazer melhor, e estamos fazendo mal. É um escândalo que,
com tanta possibilidade, se deixe a África morrer à míngua.
Nunca foi tão verdadeiro dizer que o ser humano tem hoje todas
as condições de mudar de vida. Não tínhamos
no século XIX. Nem na primeira metade do século XX. Não
tínhamos nem acumulação de riqueza, nem os meios
técnicos, nem a competência para resolver esses problemas.
Hoje temos. Portanto, é mais grave não fazê-lo. Quando
eu digo que hoje o desenvolvimento é uma questão ética,
o que quero dizer é isto: não fazemos o que está
ao nosso alcance fazer. Minha crítica à globalização,
portanto, desse ângulo, aumentou.
Roberto Jayme![]() |
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Brasília, março de 1995: manifestação contra as reformas |
Veja
Contribuiu, para essa sua visão mais crítica,
a mudança de governo nos Estados Unidos?
FHC
Contribuiu. O que mostra que esses processos são históricos.
Na mudança de Clinton para Bush percebeu-se que, em vez de contribuir
para um mundo mais compartilhado, pode-se ir para o lado contrário
um mundo mais insolente. Ou crê ou morre. Isso não
era tão claro quando apareceu esse assunto da globalização.
Também não era tão claro que se teria tão
pouca capacidade institucional de fazer frente à nova situação.
Tome o Fundo Monetário Internacional. O Fundo mudou muito em sua
forma de atuar. Hoje, seu receituário já não é
mais o mesmo. Mas não mudou, até aumentou, sua incapacidade
de fazer frente à turbulência financeira. O Fundo deu ao
Brasil empréstimos gigantescos. Agora deram 30 bilhões de
dólares. Mas o movimento financeiro no mundo é de 1 trilhão
por dia. Por aí se vê a desproporção entre
os meios disponíveis para ajudar um país e o tamanho do
problema. O Fundo Monetário passou a ser uma instituição
pequena para o desafio da globalização. Quem viu essas coisas
com clareza foi Keynes, nas reuniões de Bretton Woods. Keynes defendia
um banco central dos bancos centrais. Se vamos ter fluxos de capital,
dizia ele, será necessário um mecanismo regulador disso.
Hoje George Soros está renovando essa proposta. Ele disse outro
dia que, se os grandes bancos do G-7 redescontassem os títulos
da dívida brasileira, estava resolvida a questão. Quer dizer:
falta um banco central dos bancos centrais para dar liquidez ao sistema.
Não há instituições financeiras capazes de
fazer face aos desafios do mundo de hoje. E o mesmo se sente no plano
político. Nessa questão do Iraque, o que o governo americano
dizia às Nações Unidas? É: ou faz o que eu
quero ou vou fazer sozinho. Eu acho até que o Kofi Annan tem tido
um papel extraordinário, na tentativa de manter viva a idéia
de que é necessário ter um instrumento de legitimação
da ordem internacional. Mas ele vinha sendo solapado, não só
por Saddam Hussein, que não aceitava as inspeções,
como também pelo governo americano, que as exigia para já.
Veja
Não lhe parece que as contínuas quedas-de-braço
dos Estados Unidos com a ONU teriam por objetivo último atrelá-la
ao Departamento de Estado tanto quanto o FMI é atrelado ao do Tesouro?
FHC
Há um outro lado da questão, que é o seguinte: os
americanos é que pagam. E são eles também que têm
a disposição de mandar tropa. Não estou querendo
defender a posição americana, estou querendo explicá-la.
Quem paga tem a sensação de que manda, não é
isso? O governo americano arca com o custo maior, na manutenção
da ONU, e também com o custo moral e político de fazer as
intervenções. Veja a questão da Bósnia. Por
que temos hoje, em vez de multipolarização, o unilateralismo?
Porque há o refluxo dos outros grupos de poder. A Europa não
está interessada em ter uma presença responsável
no mundo.
Veja
Mas o que os Estados Unidos querem sempre é que a Europa
assuma a posição deles, não é?
FHC
Sim. Mas não há muita vontade dos europeus de uma afirmação
própria. Veja o caso conosco. Negociação do Mercosul
com a União Européia. Todo mundo fala na campanha
se falou muito que quer negociar com a União Européia.
Mas a União Européia está mais encolhida que os americanos.
Não sinto nela uma vontade efetiva, no jogo de poder mundial, de
dizer: "Vale a pena fazer uma aliança aqui". Eles não estão
pensando nesses termos. Muito menos em se contrapor aos Estados Unidos.
Estão olhando para o Leste, pensando em que novos países
vão incorporar. Outro grande pólo, a China, tem uma noção
de tempo muito diferente. A China guarda suas cartas para daqui a cinqüenta,
100 anos. Enquanto isso, não se expõe. A Rússia ainda
tenta se organizar internamente. Tem seus problemas a Chechênia,
os países limítrofes. A Índia tem o problema com
o Paquistão. Todos no fundo buscam o guarda-chuva americano. Não
é só que esse guarda-chuva quer se impor, é que todo
mundo corre para ele. E depois acusa: "Ah, mas é o único
poder!". Neste momento da história, eu diria que a consolidação
do unilateralismo ocorre, até certo ponto, para agrado da maioria.
Veja
E, no entanto, volta-se a falar em "império", "imperialismo",
"potência imperial" com uma força que não se via fazia
anos.
FHC Outro
dia vi na televisão uma discussão totalmente desfocada sobre
imperialismo. O imperialismo pertence a uma época da história
em que o mercado precisava do Estado para se impor. O interesse econômico
dependia do Estado. Hoje o que está posto não é mais
isso. A expansão das grandes empresas é por cima dos Estados.
A vontade de poder está até certo ponto dissociada do sentido
econômico. Liga-se a idéias. Idéias que se contrapõem
a outras. No caso atual, são ambas religiosas uma explicitamente
religiosa, a do Islã, e a outra implícita, porque baseada
em valores como o bem e o mal. O mundo do Marx era outro. Era o mundo
do predomínio do econômico. Não estou dizendo que
não haja predomínio econômico. Claro que o petróleo
pode ter um peso. Se houver uma guerra com o Iraque, e se ela for rápida
e bem-sucedida, do ponto de vista americano, vai haver abundância
de petróleo e mais possibilidades de exploração.
Mas não é por isso que se faz a guerra. Não precisa
fazer por isso. Um outro mundo está se iniciando neste século,
que pode ser magnífico, mas que pode ser muito preocupante.
Veja O senhor sentiu o Brasil mais cobrado pelo governo Bush,
depois do 11 de setembro?
FHC
Eu tenho de dizer, em respeito à verdade, o seguinte: os Estados
Unidos e o Brasil têm tido uma relação correta. Nesta
nossa última crise, por exemplo, houve apoio imediato. Os Estados
Unidos contribuíram para que o FMI nos concedesse o empréstimo.
Por outro lado, os Estados Unidos respeitam as posições
tradicionais do Brasil. Por exemplo, com relação a Cuba.
O Brasil sempre se absteve nas votações para a condenação
de Cuba na questão dos direitos humanos. São votações
em que nunca está em jogo apenas a questão dos direitos
humanos. O jogo é político, de isolamento de Cuba. Nossa
política não é essa. Não é de isolar
Cuba. Agora, desta última vez, já no governo Bush, houve
pressão para que os países da América Latina votassem
contra Cuba. Houve uma moção, movida pelo Uruguai. Vários
países foram conversados pelos americanos. Nós não.
Nunca houve pressão comigo. Eu friso: nunca.
Veja
Não lhe dá amargura o fato de uma famosa frase
sua, "O Brasil não é um país pobre, mas um país
injusto", ainda se mostrar atual, oito anos depois?
FHC
Eu tenho uma visão histórica. Não se resolvem 500
anos de injustiça em oito anos. A pergunta que deve ser feita é:
"Ficou mais ou menos injusto?". Acho que ficou menos. Porque nós
começamos a universalizar o acesso da população àquilo
que é básico: educação, saúde e terra.
O indicador mais vistoso que temos nesse sentido é o acesso à
escola. Nós universalizamos praticamente o acesso à escola.
Pode-se dizer pela primeira vez na história do Brasil que o analfabetismo
está morrendo, é residual. O dado que mais me chama a atenção
é que, no começo dos anos 90, só 75% das crianças
negras estavam na escola. Agora, 93% estão. No total, 97% das crianças
estão na escola. O problema maior ainda se concentra nos negros,
que são os mais pobres. Mas há um avanço. Não
há um dado social que não tenha melhorado nas camadas mais
pobres. E, mais importante do que isso talvez, não há um
dia no Brasil hoje em que não se faça menção
à injustiça social. Aquilo que era um dado de realidade
hoje é questionado o dia inteiro. Mesmo quando há melhora,
afirma-se: "Ah, não foi o suficiente". A consciência da injustiça
ajuda a combatê-la, mesmo se às vezes se volte contra o governo.
Juca Varella/Folha Imagem![]() |
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São Paulo, setembro de 2002: Lula na campanha presidencial |
Veja
Se existe consenso de que há injustiça, parece
não existir quanto ao modo de combatê-la. Para haver justiça,
vale dizer, para haver distribuição, não é
preciso tirar de alguém?
FHC Eis
a questão. Alguma coisa precisa. Por exemplo, terra. E é
o que fizemos. Nós tiramos 20 milhões de hectares de terra.
Não é brincadeira. Tiramos e pagamos, é verdade.
Mas 20 milhões de hectares de terra é algo sem paralelo
na história do capitalismo.
Veja Mas, se houve pagamento, isso quer dizer que as pessoas
não foram atingidas em seu poder econômico.
FHC
Em parte sim, porque houve grande desvalorização da terra.
Vou lhe dar um novo dado. Como é que o governo faz distribuição
de renda? Por um lado, pagando os salários do funcionalismo público,
que são muito mais altos do que a média. Nesse sentido atua
positivamente, embora provocando distorção, porque privilegia
uma camada. Por outro lado, há transferência direta de renda
aos menos favorecidos. Hoje, tudo o que o governo federal arrecada de
imposto de renda, de pessoa física e de jurídica, é
redistribuído sob a forma de dinheiro para os mais pobres. São
programas como Bolsa-Escola, auxílio-maternidade, erradicação
do trabalho infantil... Somando tudo isso à previdência rural,
que é sem cotização, chega-se a 30 bilhões
de reais. É mais que tudo o que o governo recolhe de imposto de
renda de pessoa física e de jurídica. Então aí
há uma função direta de distribuição
de renda. O governo tira de uns e dá para outros. Uma coisa é
a renda, outra a propriedade. A propriedade só adianta tirar se
é improdutiva. Se não é, tirar para quê?
Veja O senhor, quando senador, foi autor de um projeto de
taxação de grandes fortunas. O que o fez mudar: razões
doutrinárias ou práticas?
FHC
Práticas. Está demonstrado que no mundo de hoje não
há como taxar a grande fortuna. Ela muda de país. Vai para
Cayman, sob a forma de propriedade acionária.
Veja Como avaliar hoje o velho conceito distributivista de
tirar dos mais ricos para dar aos mais pobres?
FHC
Eu diria que é insuficiente, mas é educativo. Em termos
de um ideal de maior justiça, eu mantenho. Acho que alguns mecanismos
de redução de concentração de propriedade
deve haver. Renda é outra coisa. No Brasil há uma forte
reação contra a redistribuição de renda. Qualquer
tentativa de aumentar o imposto de renda, por exemplo, é imediatamente
sabotada.
Veja O presidente Lula, na campanha, falou em aumentar as
faixas de imposto de renda. Depois recuou, porque houve reação
negativa. Mas não é uma idéia sensata?
FHC
Eu acho. Agora, vai perguntar à classe média... Sempre aparece
o raciocínio de que só o salário é taxado,
a riqueza não. Não é verdade. O sistema financeiro
nunca foi tão taxado quanto é hoje. A acumulação
é enorme e por isso, por mais que se taxe, os lucros são
muito elevados. Mas a taxação foi cada vez maior. Hoje existe
uma noção geral de que os impostos devem ser reduzidos.
Eu tenho minhas dúvidas. Quando se diz que a carga tributária
chegou a 32% do PIB, a 33%, o tom é de escândalo. É
curioso. Em países como o México e a Argentina, o contrário
é que provoca escândalo. "É impossível ter
uma taxa impositiva tão baixa", dizem. Por que foi possível,
mudando um pouco de tema, fazer superávit primário e ao
mesmo tempo não interromper programas sociais nem ter uma recessão?
Porque nós taxamos. Por que foi possível não mexer
na Previdência, que é um problema gritante? Porque aumentou
a taxação. Caso se queira diminuir a taxação,
é preciso mexer na Previdência. Não mexer na Previdência,
continuar demandando educação, saúde, reforma agrária,
pagamento de funcionário, e não aumentar a taxação,
é impossível.
Veja Com isso se conclui que existe uma forte consciência
de que é preciso fazer justiça social, mas...
FHC
...mas existe forte resistência aos mecanismos dela. E, quando você
argumenta que é para benefício dos mais pobres, isso não
comove quem está pagando, que é a classe média. Os
mais ricos nem reclamam tanto, porque têm muito. É a classe
média que reclama.
Bia Parreiras![]() |
Ana Araujo![]() |
| O presidente, em abril de 1995 e em novembro de 2002: no início e no fim de mandato | |
Veja
Dom Pedro II tinha vergonha de apresentar-se como chefe de uma
nação escravista. Até fez força para aprovar
a Lei do Ventre Livre antes de viajar para a Europa, em 1871. O senhor
não tem vergonha de se apresentar como chefe de um país
com tanta injustiça?
FHC
Certamente, mas posso dizer, com consciência tranqüila, que
fiz tudo o que podia para diminuí-la. E tenho os dados que mostram
que diminuiu. A consciência social da injustiça está
aí. O que não se tem ainda é a compreensão
das conseqüências práticas de uma política de
redistribuição. Porque aí muitos vão ter de
perder. Aliás, já perderam relativamente. Quando se dá
mais atenção à educação fundamental,
o ensino superior deixa de aumentar na proporção que se
desejaria. Não é à toa que não gostam do governo.
Veja O senhor disse muitas vezes: "Preciso fazer isso, preciso
fazer aquilo, senão eu caio". Parecia assombrado pela crônica
brasileira de tantos presidentes depostos. O senhor se sentiu alguma vez
realmente ameaçado?
FHC
Houve tentativas, mas sempre tive maioria confortável no Congresso.
Acho que nenhum presidente, talvez só Getúlio, foi alvo
de tanta agressividade de certos setores da mídia como eu. Não
esqueça que a Folha fez uma edição de várias
páginas com argumentos para o impeachment, por causa do episódio
da escuta telefônica. Não esqueça que durante três
anos uma infâmia, o Dossiê Caribe, circulou como se fosse
uma possibilidade. O número de pedidos de impeachment no Congresso
é imenso. Advogados da mais alta respeitabilidade pediram impeachment,
com fundamento em recortes de jornais.
Veja
"Fora FHC" era o lema.
FHC
Isso foi o tempo todo. Não perdi o diálogo nem a calma.
Mas a atitude não foi democrática. O denuncismo não
era para apurar efetivamente se houve erro e de quem. Era para atribuir
culpa, e por causa dela pedir medidas políticas.
Veja Esse comportamento não abala sua convicção
de que as instituições democráticas estão
garantidas?
FHC
O fato é que esse comportamento gerou gritaria, mas não
teve conseqüência prática. Houve a tribunalização
da política no Brasil. Quando se aprova uma lei, o partido que
perdeu vai ao Supremo Tribunal e questiona sua constitucionalidade. Quando
se baixa um ato de governo, aquele que se julga prejudicado entra com
uma ação popular. Há advogados especializados em
abrir ação popular. E a mais vistosa é contra o presidente
da República. Dá para imaginar o gosto de um procurador
quando acusa o presidente. Mas, enfim, acho que isso faz parte do processo
de redemocratização. Em vez de reagir com indignação
pessoal, reajo com compreensão histórica.
Veja
O senhor está esperando certamente muitos processos agora.
FHC Já
tenho. Uns 150 ou mais. Eu e todo mundo. Alguns já foram condenados:
Malan, Pedro Parente...
Veja
O senhor apóia a restauração da prerrogativa
de foro, pela qual o presidente só pode ser julgado pelo Supremo
Tribunal?
FHC
Eu apóio. É claro que pelos atos praticados como presidente,
não como pessoa física. Imagine o que é se defender
de 150 processos, movidos em Manaus, em Pelotas, em Jacareí, em
toda parte. Você tem de ter uma corte de advogados. Isso é
uma loucura. No fim vai para o Supremo, mas até lá você
enlouqueceu e está pobre. É um sistema feito para atormentar,
perseguir mesmo. Como termina no Supremo, é melhor julgar logo
pelo Supremo. Li nos jornais que eu estaria tecendo uma rede de proteção
jurídica. Nomeando juízes que me protegeriam. Na verdade,
conheço pouquíssimos juízes. Do STJ só conheço
os presidentes. Assino as nomeações sem conhecê-los.
Ninguém está fazendo rede de coisa nenhuma. O que tem de
haver, e acho que o Congresso agirá nesse sentido, é maior
racionalidade nessa questão dos processos contra a autoridade.
O ministro Sepúlveda Pertence deu um parecer muito bom, quando
o assunto foi discutido no Supremo. O Supremo deixou de reconhecer a prerrogativa
de foro porque a Câmara se recusava a autorizar o processo de deputados.
O tribunal se cansou. Essa foi a razão. Mas Pertence deu voto mantendo
o foro, dizendo: isso é para garantir a independência da
autoridade enquanto está governando. Porque senão, a cada
decisão, ela terá medo da conseqüência.
Veja
O senhor disse que em geral não conhece os juízes
que nomeia, mas esse não é certamente o caso do Supremo
Tribunal. Para ele, o senhor nomeou pessoas muitos ligadas ao seu governo.
FHC
Eu e todos os presidentes.
Veja O senhor acha correto o critério de o presidente
indicar os ministros do Supremo Tribunal?
FHC
Acho. O Supremo tem tido decisões absolutamente independentes e
corretas. É um tribunal respeitado. Nomeei três ministros.
Uma eu não conhecia, que era a juíza Ellen Gracie. Eu queria
nomear uma mulher, e então fui procurar uma mulher com currículo
e competência para o cargo. Nomeei o Nelson Jobim, que tinha sido
ministro da Justiça, assim como antes dele foram nomeados ministros
da Justiça como Paulo Brossard, Célio Borja e tantos outros.
E nomeei o Gilmar Mendes, que foi advogado-geral da União, assim
como o Sarney nomeou o Pertence, que tinha sido advogado-geral de seu
governo. Essas pessoas, uma vez investidas de seu poder de juiz, agem
com a respeitabilidade que o Supremo exige. Eu tenho relacionamento pessoal
variado com os ministros, mas não há nenhum em quem não
tenha confiança. Acho que eles todos, todos, têm tido comportamento
de juristas. Quer ver um? Maurício Corrêa. Maurício
Corrêa é um bom ministro do Supremo. Melhor do que foi senador.
E isso não é opinião só minha. E quanta dúvida
não foi levantada quando Itamar nomeou o Maurício, que tinha
sido ministro dele. O Pertence é meu amigo. Já jantei na
casa dele, ele já veio aqui, a mulher dele é nossa amiga.
No entanto, ele vota quase sempre contra o governo. Acho que o Supremo
Tribunal tem tido um papel construtivo na redemocratização
do Brasil. Portanto, não vejo razão para mudar o sistema
de nomeação dos ministros. O pior sistema é o eleitoral.
Porque aí tem facciosismo, o juiz passa a cortejar seus eleitores...
Veja
Um dos vocábulos mais prestigiados, no léxico
de sua Presidência, foi "rumo". "O governo tem rumo", "o Brasil
tem rumo", o senhor dizia sempre. No entanto, há um setor em que
o que ressalta é a falta de rumo: o da Justiça e da segurança.
Foram tantos os ministros da Justiça, e pessoas tão diferentes,
alguns juristas, outros políticos... E nunca se percebeu uma política
consistente nesse setor. Por quê?
FHC
Em parte, você tem razão. Para governar, precisa-se escolher
prioridades. Em cada momento há certos problemas a ser resolvidos.
O problema inicial de meu governo era a inflação. Depois
era a reforma do Estado. Depois a universalização dos serviços
públicos acesso à educação, essas coisas
todas. Eu não entrei fundo em muitas questões. Quanto ao
Ministério da Justiça, várias vezes estive para mudar
sua estrutura. Porque esse ministério, com as transformações
ocorridas nestes anos no Brasil, virou um híbrido. Por um lado,
ele se tornou o Ministério da Cidadania, e nesse ponto avançamos
bastante: direitos humanos, a questão dos negros e das mulheres,
tudo isso passou a ser contemplado. Por outro lado, caberia a ele traçar
uma política para o Judiciário, e isso não fizemos.
É verdade. Tanto assim que a reforma do Judiciário que está
no Congresso não é minha é do Congresso mesmo
e do próprio Judiciário. Quanto à segurança
pública, todas as mudanças que propusemos morreram no Congresso.
O Mário Covas, depois de uma das crises em São Paulo, propôs
a unificação das polícias. Mandei para o Congresso.
Não andou. Os interesses corporativos das polícias não
permitiram que andasse. A proscrição das armas de fogo também
não andou. De qualquer forma, conseguimos algumas coisas nessa
área de segurança pública. Uma foi o fundo penitenciário.
São Paulo modificou todas as suas penitenciárias com dinheiro
basicamente federal.
Veja
No entanto, o problema das penitenciárias, pelo Brasil
afora, continua dramático.
FHC
Isso é curioso. Quando você olha para o que aconteceu no
Rio, percebe que os bandidos estão na cadeia. Estão condenados.
Quer dizer, a polícia prendeu e a Justiça condenou. Ambas
fizeram sua parte. Já o sistema penitenciário apodreceu.
Precisamos focalizar melhor essa questão. Apodreceu por causa da
corrupção. Não adianta mudar o bandido de presídio
se um é igual ao outro, do ponto de vista da corrupção.
Temos de nos concentrar numa nova política penitenciária.
Devo confessar que só percebi isso agora, mesmo porque não
é questão federal.
Veja
Droga é questão federal. O governo não
acordou tarde, se é que acordou, para a enormidade da questão
do tráfico?
FHC
Mais uma vez, em parte isso é verdade. Mas veja o seguinte. A Polícia
Federal, quando assumi o governo, estava muito desorganizada. Não
se esqueça de que no governo Itamar houve rebelião da Polícia
Federal. Agora melhorou, mas quantos policiais federais temos? Oito mil.
Sabe quantos policiais existem no Brasil? Quinhentos mil. É difícil
imaginar que com 8.000 se possa fazer o que 500.000 não fazem.
Esse é um problema para o próximo governo. Ele vai ter que
concentrar recursos na segurança. É um problema de magnitude
equivalente ao que foi o da inflação. A natureza do tráfico
no Brasil é especial porque, para usar uma expressão grosseira,
é um tráfico de pé-rapado. Costuma-se falar nos "barões
da droga", "os homens que vivem na Vieira Souto", mas onde estão
eles? Nunca ninguém achou. Nós estamos em cima, mas nunca
achamos. Você toma o Fernandinho não-sei-das-quantas. Onde
estão as amantes deles? Na favela. Onde estão as propriedades?
Na favela. É algo terrível, porque é algo que se
estabelece entre os pobres e fica entre os pobres. Que acesso tem o tráfico
aos níveis de poder? Muito baixo. Teve casos lá no Acre,
talvez haja na fronteira. Dessa característica resulta que o tráfico
aqui é uma questão ao mesmo tempo mais simples e mais complicada.
Mais simples porque não é tão poderoso. E mais complicada
porque é muito difundido e se dissemina entre os pobres.
Veja
O senhor desenvolveu, em entrevistas anteriores com este mesmo
jornalista, sua "teoria do curto-circuito". As sociedades, em determinados
momentos, seriam tomadas por uma descarga elétrica que as empurra
para as mudanças. A teoria se aplica à eleição
de Lula?
FHC
Até certo ponto, sim. Eu digo sempre que se ganha a eleição
quando há eletricidade no ar. Dá um curto-circuito, e aí
não há o que segure. No caso do Lula, não houve um
ponto que se possa dizer: aqui rompeu. Foi mais uma saturação
das políticas atuais, da mesma repetição,
da mesma linguagem... Aí o pessoal decidiu: "Vamos mudar".
Veja O senhor, ao desenvolver a teoria do curto-circuito,
citou casos como o Maio de 68 francês, a queda do Muro de Berlim
e, no Brasil, a campanha das diretas e o Plano Real. Ao menos com esses
episódios brasileiros, o caso de Lula é comparável?
FHC Só
que, nesses casos, havia objetivos claros. No caso do Plano Real, a sociedade
ansiava pela estabilização. Na campanha das diretas, pela
eleição. Aqui a coisa é mais difusa. Não há
um objetivo definido. Talvez seja esse o grande dilema do Lula. Lula é
um símbolo. Ele sozinho simboliza uma reivindicação
social. Veio de baixo, foi líder sindical. Enfim, expressa aquilo
que o Brasil mais almeja que todos possam ter uma vida melhor.
Como ele próprio conseguiu ter. Ele é símbolo. Agora,
como não definiu qual é o objetivo, há um risco de
a mesma sensação de "Ah, ganhamos" virar "Ganhamos o quê?".
Veja
A palavra que Lula usou muito, e que está no ar, é
esperança. É algo vago, mas altamente mobilizador.
FHC
Mobilizador.
Positiva. "A esperança venceu o medo", o Lula disse. Eu diria que
estou com medo da esperança. Tenho medo de que não se concretize.
Se ele tiver capacidade de transformar esse sentimento vago em algo objetivo,
tem caminho. Se não, não tem.
Veja
O senhor admite, hoje, que foi equivocada a política
de câmbio do primeiro mandato, em que se manteve o real artificialmente
elevado?
FHC
O câmbio serviu de âncora para o real. As posições
do Gustavo Franco, que na época comandava o Banco Central, podiam
ter um componente ideológico, mas também tinham base de
realidade. Se mexêssemos muito no câmbio digo muito
porque um pouco o câmbio mexia , qual teria sido o efeito
sobre a inflação? Não sabíamos. Quando mudamos
a política de câmbio, ficamos com medo. Todo mundo apostou
na volta da inflação. A televisão voltou a mostrar
a maquininha de remarcar preço. Enfim ganhamos, porque a inflação
não voltou. Hoje dá para afirmar que poderíamos ter
acelerado a mudança de câmbio no começo de 1998. Mas
é fácil ser engenheiro de obra feita. Na época, ainda
tínhamos medo da memória da inflação e de
uma retomada da indexação. Hoje, só se enfatiza o
aspecto negativo da política de câmbio, mas ela pode não
ter sido tão errada. Um efeito positivo foi permitir a modernização
da indústria. Naqueles anos, em que todo mundo trombeteava, no
primeiro mandato, que estávamos sucateando a indústria,
a indústria estava se reequipando. E isso graças ao câmbio
favorável. O real valorizado permitiu a modernização
do parque industrial, o que está contribuindo para o brutal incremento
nas exportações a que estamos assistindo agora.
Veja
O câmbio supervalorizado não teve o efeito de frear
o desenvolvimento e causar desemprego, o que é visto como o ponto
mais frágil de seu governo?
FHC Mas
será que não era necessário, para preparar para a
competição? Este é o ponto. Nossa indústria
estava montada em outro esquema, de economia fechada. Quando você
abre a economia, tem de se preparar para ser competitivo. Quanto ao emprego,
tenho mais dúvidas. O desemprego no Brasil nunca explodiu. Comparados
com outros países, nós nos mantivemos com um baixo nível
de desemprego, consideradas as condições atuais do mundo.
Como não se olha para os lados, faz-se demagogia: "Ah, o desemprego..."
Desemprego houve em toda parte onde ocorreu essa mudança tecnológica.
Agora, se não houvesse essa mudança, que aconteceria? Viraríamos
Quarto Mundo. O sistema capitalista é cruel. Basta ler Marx. É
destruidor.
Veja
Havia consciência, no tempo em que o real se manteve valorizado,
de que isso ajudaria a modernizar a indústria?
FHC
Não, estou fazendo uma racionalização. Na época,
os que eram a favor daquela política cambial não a defendiam
com base nesse argumento. Agora, curiosamente, a população
gostava mais daquele câmbio. Minha popularidade foi altíssima
no primeiro mandato, e caiu muito no segundo. Tudo o que os economistas
acham bom, que foi feito no segundo mandato, a população
não acha. A população viveu melhor quando o real
estava mais apreciado. O nível de renda média familiar da
população subiu, do real para cá, 20%. No primeiro
mandato, subiu 30%. E, no segundo, caiu 10%. É curiosa a diferença
entre a percepção que se tem das coisas e o que acontece
de fato. A percepção depende da tradução política
do que acontece. Prevaleceu uma visão ptolomaica das coisas, quando
o universo que propúnhamos já era copernicano. O próprio
PSDB jamais teve convicção suficiente para defender o caminho
que estávamos trilhando. O PT erguia a voz, e parecia que a razão
e a ética estavam todas concentradas do seu lado. "Está
aumentando o desemprego", dizia, e imediatamente tudo se paralisava. O
Brasil vem melhorando incessantemente. Mas as pessoas têm a sensação
de que está piorando incessantemente.
Veja O que o senhor está dizendo é que o PT
ganhou a corrida pelas mentes e pelas opiniões? Ou seja, para usar
a fórmula do pensador marxista Antonio Gramsci, conquistou a hegemonia
intelectual e moral?
FHC Isso.
A expressão é essa. Nós perdemos a guerra doutrinária.
A política social nunca avançou tanto quanto neste governo.
Ganhei um prêmio da ONU. E nós, esses anos todos, apanhamos
sem parar: "O governo não cuida do social". Até os nossos
achavam isso. Antes nós éramos hegemônicos. O discurso
do Covas, lá atrás, na campanha presidencial de 1989, em
que propunha o "choque de capitalismo", já apresentava um novo
rumo para o Brasil. Meu governo incorporou essas mesmas idéias.
E fomos hegemônicos, no sentido gramsciano da palavra. Agora perdemos
a hegemonia, se bem que há uma ironia nessa história: o
PT, para ganhar, assumiu muito da nossa ideologia. Jogaram fora os traços
ptolomaicos e assumiram os copernicanos. E assim derrotaram Copérnico,
que éramos nós. É curioso esse jogo dialético.
Veja
Está se desenhando um estilo Lula, de exercer a Presidência,
diverso do seu o seu mais "frio" e o dele, digamos, mais "quente",
embebido de povo. Que o senhor acha disso?
FHC Acho
perigoso. É populista. Isso é complicado para a democracia.
Eu nunca aceitei revestir a Presidência, ou a minha pessoa, de ares
carismáticos. É perigoso para a democracia. Não que
Lula vá atentar contra a democracia. Ele é um democrata.
E além disso tem o partido. Mas não acho isso positivo porque,
para ir ao Sérgio Buarque, é traço do homem cordial¹.
Nós precisamos de regras universais. De democracia. Não
precisamos de soluções que dependam do líder. Temos
de organizar mais, e isso não é um fator organizatório.
É um fator de mobilização, mas não de organização.
Tudo bem, ganhou a eleição, é o momento de festejar.
Mas não se deve exercer a Presidência dessa maneira, porque
deseduca para a democracia. Dá a impressão de que quem resolve
é o chefe. As esperanças ficam em cima do chefe. E a democracia
requer instituições. Eu sempre tive muito presente isso.
Sou muito institucional. Não é uma questão de ser
frio, de temperamento pessoal. Eu me dou muito bem com a massa. Lula sai
do carro e vai cumprimentar as pessoas... Eu faço isso com freqüência.
Agora, não deixei que isso virasse uma característica de
governo. Um país não deve ser dirigido com base em impulsos
pessoais.
Veja
O senhor dá a impressão de se sentir mais incomodado
com a crítica dos intelectuais, dos acadêmicos, do que com
a dos políticos. É assim mesmo?
FHC
É. Porque, entre os políticos, um dá uma canelada,
outro dá outra. A briga intelectual é mais ardilosa. Ela
esconde o motivo real. O político briga pelo poder. Todo mundo
sabe disso. O intelectual faz de conta que está dizendo a verdade.
Finge que fala em nome da ciência, quando está sendo partidário.
Outra coisa é que nunca fui favorável à atitude condescendente
de certos intelectuais. Há um setor da intelectualidade que é
condescendente. Se vem dos de baixo, é bom. Se é dos pobres
de espírito, que maravilha. Isso é uma traição
dos intelectuais à sua missão. Não pode ser bonzinho,
assinar tudo que é manifesto. Estar sempre do chamado, aspas, "lado
bom". E, aí, não fazer mais nada. Você apaziguou sua
consciência, ao assinar um manifesto do "lado bom". E passa o resto
da vida sem mexer uma palha para melhorar o país.
Veja
O senhor não acha que um elemento de desgaste para seu
governo foi a emenda da reeleição?
FHC
A oposição é que fez tudo para que se acreditasse
nesse desgaste. Afirmou-se que a reeleição obrigou a uma
relação espúria com o Congresso, inclusive com compra
de votos. Mentira. Todo mundo queria reeleição, naquela
ocasião. Todos os editoriais de jornal, todas as pesquisas de opinião.
A reeleição ganhou na Câmara por mais de quarenta
votos, e no Senado com 80% de aprovação. Comprar voto para
quê?
Veja
Houve casos comprovados.
FHC Não
foi o governo que comprou. Isso é uma exploração
indevida.
Veja
Eles falavam em Sergio Motta.
FHC
Eles, não. Um deles falou, o Sergio resolve isso, e ficou por aí.
O Sergio foi à Comissão de Justiça, e desafiou que
se fizesse uma investigação. Ele não tinha nada a
ver com isso. Pinçaram esse caso e transformaram numa compra do
governo. Não é verdade. No dia em que essa história
puder ser passada a limpo, você vai ver... Mas não vão
passar nunca, porque isso revela as entranhas do sistema político
brasileiro. Não tem nada a ver nem comigo, que jamais soube disso
nem concordaria com isso, nem com Sergio Motta, nem com o resultado da
votação. De novo, perdemos a batalha da propaganda para
a oposição. Nosso pessoal não combateu com a veemência
necessária. A oposição inventou um caso, fez uma
acusação, e qual a prova? Nenhuma.
Veja
De um ponto de vista pessoal, que diferencia o Fernando Henrique
Cardoso de 1994 e o de 2002?
FHC
É difícil de julgar. Acho que tenho uma visão mais
complexa, mais diferenciada, das coisas. Sei mais das dificuldades na
realização dos projetos, talvez conheça mais as pessoas.
Por outro lado, para ser presidente, nas atuais condições
de democracia e de estabilidade, é preciso aumentar seu grau de
paciência. Não adianta querer fazer depressa, que não
consegue. Ao mesmo tempo, não se pode desistir. Precisa-se de paciência
e persistência. Também se tem de ter mais humildade para
encarar o outro. É preciso relevar, e aprender, mais e mais, a
separar o que é fundamental do que não é. E não
se pode deixar-se envolver pelo turbilhão do dia-a-dia. É
preciso prestar atenção à crítica, mas também
manter a reflexão crítica sobre a crítica. Quando
vem a denúncia, o que é tão freqüente, é
necessário perguntar o que está por trás dela. Verificar
se ali há realmente uma vontade de corrigir ou uma maldade. Acho
que, humanamente, a experiência é rica. É muito cansativa.
Eu diria até que boa parte do trabalho de um líder político
é psicanalítico. Tem de ouvir, tem de deixar que a pessoa
desabafe. Ouve-se intriga o dia inteiro.
1 No capítulo "O Homem Cordial" do clássico Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda identifica os brasileiros como seres movidos, basicamente, pelo coração, ou seja, pelos impulsos emotivos. Em conseqüência, valorizam as relações pessoais e familiares, a cuja dinâmica se submetem, em detrimento das regras impessoais, que valem para todos, e que são o fundamento da democracia.
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