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Por que
milhões de brasileiros
resolveram procurar um
romance pela internet
Daniela Pinheiro

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A executiva
paulistana Esther Jagosehit, 30 anos, é um mulherão. Loura,
alta, magra, tem olhos azuis, sólida formação intelectual
e ganha o suficiente para levar uma vida para lá de confortável,
com freqüentes viagens ao exterior, carro do ano e casa própria.
Esther provoca tanto furor entre o público masculino quanto mexe
com as mulheres a presença do ator Renato Bizone, herdeiro do grupo
Brasimac, um império que fatura anualmente 100 milhões de
reais. Aos 27 anos, sempre citado em colunas sociais, ele ostenta um currículo
amoroso que inclui a apresentadora do Fantástico, Glória
Maria, e uma dezena de modelos. Alguém diria que ambos estão
procurando um relacionamento pela internet? Pois, pasme: eles estão.
A presença nos sites de namoro de gente como Esther, inscrita sob
a alcunha de "garota do campo", e Bizone, que usa o apelido "boyIIgirl",
aponta para um curioso fenômeno: a internet deixou de ser refúgio
para quem sempre teve problemas amorosos para se tornar uma eficiente
ferramenta mesmo para quem nunca encontrou dificuldade em arrumar namoro.
Fotos Claudio Rossi
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"Muita
gente estranha quando eu digo que estou inscrita em um site de namoro.
Sei que a maioria pensa: 'Ah, coitada, teve de ir para a internet
porque está encalhada'. Pois eu digo: isso é ridículo.
Nunca fiquei encalhada ou sem namorado na minha vida. O que ocorre
é que eu simplesmente cansei de dar tiro n'água. Cheguei
a um ponto em que não tenho mais idade nem paciência
para ficar contando a história da minha vida ou tentando
mostrar quanto sou legal para um zé-ninguém que eu
tenha conhecido em um bar. Pela internet, consigo peneirar exatamente
as pessoas que procuro, que pensam como eu, que querem o mesmo que
eu."
ESTHER JAGOSEHIT,
executiva,
30 anos
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Atualmente,
quase todo mundo tem um amigo, um parente, um vizinho que conheceu alguém
pela internet. Esse tipo de encontro se tornou assunto recorrente em qualquer
mesa de bar. A percepção da mudança no perfil de
quem procura namoro pontocom pode ser amparada por dados significativos.
Estima-se que cerca de 3,5 milhões de pessoas estejam inscritas
nos sites de relacionamento em todo o país. É um número
que corresponde a quase 10% dos solteiros brasileiros. Estudos recentes
apontam que, em três anos, pelo menos 50% dos desimpedidos dos países
do Primeiro Mundo vão conhecer um parceiro on-line. A conversa
poderá parar no estágio eletrônico. Algumas poderão
ir adiante. É por isso que a procura pelos sites especializados
só cresce. Nos últimos meses, foram lançados cinco
sites, somando um total de mais de vinte no Brasil. O maior deles, o www.parperfeito.com.br,
fatura só com a mensalidade dos inscritos mais de 1 milhão
de reais por mês. Basta uma olhada rápida nas fotos dos pretendentes
on-line para ter a medida de como a galeria de tipos mudou. Ali não
estão mais só os fora-de-forma, os nerds ou os carentes
profissionais. Há gente atlética, bonita e estudada. No
site www.comovai.com.br
(300.000 inscritos), 65% dos usuários
têm curso superior. No www.almasgemeas.com.br
(700.000 inscritos), boa parte das fotos exibidas
nos perfis dos inscritos foi feita em viagens internacionais. No ParPerfeito,
a maioria dos usuários é formada por profissionais das áreas
de comércio e administração de empresas.
Houve um
tempo em que discotecas e bares de paquera eram a grande esperança
dos corações solitários. Era sentar a uma mesa com
amigos, pedir as bebidas e aguardar. Dali a pouco chegava um "torpedo"
(bilhete de paquera entregue pelo garçom) ou alguém com
uma conversinha fiada. Era preciso muita paciência e disposição
para manter um papo. Ainda assim, a chance de engatar um romance quase
sempre beirava o zero. É essa a questão de quem está
em busca de um namoro on-line. A maioria absoluta das pessoas que se propõem
a sair com alguém que conheceu na internet está cansada
de gastar tempo e saliva com gente que acredita não valer a pena.
"As pessoas não se casam com o namorado de escola, adiam o casamento
por causa da vida profissional e, muitas vezes, a carreira as obriga a
mudar de cidade o que significa abrir mão do tradicional
círculo de conhecidos", diz a psicanalista paulista Anna Verônica
Mautner. "Soma-se o fato de trabalharem muito, sobrando pouco tempo para
se socializarem. As horas disponíveis acabam sendo muito preciosas."
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"Passei
por um momento em que estava absolutamente viciado na internet.
Ficava madrugadas conversando com dezenas de mulheres, rolava um
clima ótimo. Só tive o prazer de falar com gente bacana.
Minha experiência de conhecer alguém ao vivo também
foi excelente. Eu digo: há muita gente interessante on-line.
Ela era maravilhosa, charmosa, uma gata. Eu adorei. Na hora, não
fazia a mínima diferença se tínhamos sido apresentados
por um amigo em comum ou se tínhamos apenas nos falado pelo
computador. Acho muito saudável viver essa fantasia do pré-encontro.
Você fica imaginando a pessoa, como ela é, com quem
se parece. O encontro é sempre uma surpresa."
RENATO BIZONE, ator,
27 anos
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Esse tipo
de questão aflige quem é bonito e quem não é.
Quem é gordo e quem é magro. O alto e o baixo. "É
por isso que pessoas que tradicionalmente nunca imaginaram marcar um encontro
pela internet migraram para o ciberespaço. Depois de terem caído
por terra os estereótipos de que a internet é lugar de gente
desinteressante, não há como não aderir", diz a paulistana
Marly Kotujansky, uma das sócias do site Comovai, que fatura 300.000
reais por mês. É verdade. Por ser possível escolher
com exatidão o tipo de pessoa que se está procurando, a
sensação de eficiência na paquera parece ficar saciada.
A possibilidade de fazer essa pré-seleção é
um dos aspectos positivos. Você simplesmente descarta aquele sujeito
que assumiu ser um consumidor voraz de livros de auto-ajuda ou a garota
fumante sem precisar ter gasto horas contando onde passou a infância
ou qual é sua opinião sobre a culinária japonesa.
Outra vantagem: através dos sites de namoro, é possível
conhecer gente de profissões e cidades que jamais se imaginou.
Na vida real, a chance de uma geóloga de Ribeirão Preto
conhecer um barítono paraense é mínima. Se estão
inscritos em um site na internet, eles podem receber um e-mail dizendo
que a afinidade entre ambos é de 100%. E está feito o contato.
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"O que acho
fantástico é a possibilidade infinita de encontros. Dá
para marcar sete jantares com sete mulheres diferentes em uma semana.
É uma loucura", diz o empresário Alexandre Boz, 32 anos,
um adepto fervoroso de paqueras pelo ICQ, o mais popular programa de mensagens
instantâneas da rede. Curiosamente, ele compara a escolha de uma
eventual paquera a uma ida ao shopping. "Você vai vendo aquelas
fotos, lendo aqueles perfis e escolhendo. Parece que está indo
às compras. Descarta essa, guarda aquela. Eu não tenho problemas
de relacionamento. Ao contrário. Estou saindo com várias
mulheres, nenhuma que conheci na internet, mas acho a engrenagem fascinante.
É quase entretenimento", diz. Na avaliação dos especialistas,
a internet também tem desempenhado papel fundamental na tradicional
guerra dos sexos. Protegidos pelo anonimato, os homens costumam ser mais
sensíveis e as mulheres mais ousadas na hora de paquerar on-line.
Eles se sentem confortáveis em mandar poesias ou cartõezinhos
virtuais, enquanto elas ficam mais à vontade para expressar sua
sexualidade sem repercussões machistas. "É muito saudável
deixar esse lado transparecer. Ainda que isso esteja sendo mantido no
plano virtual, pode ser um bom passo para que esse comportamento seja
adotado nas relações cara a cara", diz o psiquiatra Ronaldo
Pamplona da Costa.
Os encontros
pela internet subverteram a ordem de como se engata um namoro. Se na paquera
tradicional a aparência física é um desempatador,
nas conversas on-line se torna um mero detalhe. Como as primeiras conversas
são anônimas, as pessoas se sentem mais propensas a ser honestas
e a deixar transparecer suas emoções. "Mesmo que dê
errado, a pessoa se sente menos ofendida. Ela foi recusada pelo discurso,
não pela aparência. Não se sente ferida narcisisticamente.
É como se dissesse: 'Não fui eu o recusado, foi a personagem
que criei'. Isso é interessante", comenta o psicanalista carioca
Joel Birman. A vendedora carioca Carolina Campos, 22 anos, ressalta outro
aspecto: "Passei horas falando com pessoas interessantes quando eu já
estava de pijama, descabelada, sem maquiagem. É uma maravilha não
precisar gastar um tempão para se arrumar e conhecer alguém",
diz ela, que já varou madrugadas nos sites de paquera do UOL até
conhecer o namorado em uma das salas de bate-papo.
Oscar Cabral
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"Comecei
a teclar com algumas pessoas sem maiores intenções.
Eu tinha acabado de me mudar de cidade, estava meio sozinha e aquilo
ali foi uma grande companhia para mim. Passava um tempão
conversando on-line. O que eu mais gostava era poder trocar mil
idéias, como se você estivesse num barzinho, sem precisar
me emperiquitar toda. Ficava em casa à noite, de pijama,
descabelada, mas me sentia num compromisso social. Um dia, comecei
a falar com um sujeito que me pareceu especial. Ele tinha tudo a
ver comigo, era inteligente e bem-humorado. Hoje, estamos namorando."
CAROLINA CAMPOS,
vendedora,
22 anos
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