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Para
cá de Bagdá
"Alguns
países resistem a bloqueios
econômicos por anos e anos. Outros
capitulam rapidamente. O Brasil
pertence à segunda categoria. Os
brasileiros nunca foram um exemplo
de coragem e ousadia"
Florença viveu seus dias de Porto Alegre. O Palácio da Signoria
assumiu o aspecto do Palácio Farroupilha. O Davi, de Michelangelo,
atingiu a magnitude do Monumento Júlio de Castilhos. O Domo
rivalizou com a Catedral Metropolitana. Foi o resultado do Fórum
Social Europeu, que reuniu, em Florença, o mesmo pessoal que, durante
o reinado petista, costumava se reunir em Porto Alegre, no Fórum
Social Mundial. Em apenas cinco dias, beneméritos representantes
de milhares de ONGs solucionaram, entre outras coisas, a fome no mundo,
a epidemia de Aids, o trabalho escravo e o contrabando de mogno. Donos
de todas as virtudes, eles terminaram o evento com uma marcha pela paz,
em que 500.000 manifestantes se opuseram à guerra contra o Iraque.
Estou indeciso sobre essa guerra. Quando ouço Bush ou Blair, viro
pacifista. Quando ouço os pacifistas, fico com vontade de bombardear
pessoalmente Bagdá. Os pacifistas dizem que os americanos só
querem petróleo mais barato. Duvido que uma guerra contra o Iraque
possa surtir esse efeito, mas seria muito vantajoso para o Brasil. Imagino
que Lula, secretamente, esteja torcendo para que isso aconteça.
Quem perderia alguns trocados seriam os tiranos árabes que se apropriam
de boa parte da renda petrolífera de seus países. Um dia
depois da marcha pela paz em Florença, o filho do presidente líbio
Muamar Kadafi apareceu num estádio de futebol italiano. Ele é
o segundo maior acionista particular do time do Juventus. Agora está
pensando em comprar o time do Lazio. Diminuir o preço do petróleo
significaria apenas diminuir a fortuna desviada por essa gente.
E o que dizer das vítimas inocentes? Elas servem de justificativa
tanto para um lado quanto para o outro. Os belicistas recordam as centenas
de milhares de vítimas inocentes que Saddam Hussein torturou, decapitou,
exterminou com armas químicas e mandou para o massacre em guerras
insensatas. Os pacifistas respondem apontando as vítimas inocentes
que os bombardeios americanos certamente provocariam. Além de se
oporem à guerra, os pacifistas também querem suspender o
bloqueio econômico contra o Iraque. Eles afirmam que essa medida
só afeta as pobres criancinhas iraquianas, que morrem por falta
de comida e remédios, como repetem sem parar as agências
de notícias de Saddam Hussein. O argumento dos pacifistas é
exatamente o mesmo que Margaret Thatcher usava para defender a África
do Sul durante o regime de apartheid. Ela dizia que os maiores prejudicados
por um eventual bloqueio econômico britânico seriam os próprios
negros miseráveis.
Alguns países resistem a bloqueios econômicos por anos e
anos. Outros capitulam rapidamente. O Brasil pertence à segunda
categoria. Os Estados Unidos já retaliaram o Brasil em três
diferentes oportunidades. A primeira, em 1962, contra a Lei de Remessa
de Lucros de Jango. Dois anos mais tarde, ele foi deposto. Em 1977, os
americanos mudaram de idéia e passaram a pressionar os militares
brasileiros para restaurar a democracia. Foi o que aconteceu. Em 1978,
os Estados Unidos desconfiaram de nosso programa nuclear. Prontamente,
nós lhes fornecemos todas as garantias exigidas. Os brasileiros
nunca foram um exemplo de coragem e ousadia. De fato, acho que vou desistir
de bombardear Bagdá.
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