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Edição 1 620 - 20/10/1999
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Briga de gêniosDisputa para decifrar Ricardo Villela Uma corrida emocionante está sendo travada no meio científico mundial. Ela envolve universidades de ponta, ganhadores do Prêmio Nobel, financiadores de pesquisa, multinacionais farmacêuticas. E egos fenomenais. Em jogo, está a glória de ser o primeiro a decifrar o código genético do homem, o chamado genoma humano. Para isso, dois grupos rivais estão investindo um total de 3,5 bilhões de dólares. De um lado, está o Projeto Genoma Humano, um consórcio financiado pelo governo americano por intermédio do Instituto Nacional de Saúde, NIH, pelas melhores universidades dos Estados Unidos e por laboratórios na Inglaterra, Alemanha e Japão. Do outro, está a empresa privada Celera Genomics, dirigida pelo californiano Craig Venter, enfant terrible do mundo científico que prometeu fazer o mesmo serviço do consórcio público em um quinto do tempo e com um sexto do orçamento. Para isso, está montando o segundo maior conglomerado de computadores do mundo, com capacidade inferior apenas à da supermáquina do Departamento de Energia americano, que simula explosões nucleares. Quando o projeto de Venter foi anunciado, em maio de 1998, os cientistas do consórcio público fizeram pouco caso. "O genoma de Venter vai ser incompleto e impreciso", vaticinou Francis Collins, um dos diretores do Projeto Genoma Humano. "Daqui a três anos, um de nós vai parecer um perfeito idiota", rebateu Venter. Tão deselegante troca de farpas encontra explicação na importância que essa empreitada tem para o mundo da biologia, da genética e da medicina. É no genoma que estão todas as instruções de funcionamento do organismo humano. Da cor dos olhos ao formato das mãos, tudo está ali, espalhado por cerca de 100.000 genes. Cada gene é formado por uma seqüência de substâncias chamadas bases, que podem ser de quatro tipos. Combinadas, chegam a 3 bilhões no genoma humano. Vence a corrida genética quem primeiro descobrir a seqüência exata em que elas aparecem em cada um dos genes do homem. É um trabalho hercúleo. Se fosse publicado em papel, seriam necessários 7.500 livros de 200 páginas para listar a seqüência inteira. Mas a descoberta é valiosa. Uma vez conhecido o genoma humano, ficará mais fácil identificar o conjunto de genes responsável por cada característica, e a partir daí a forma de lidar com as doenças vai passar por uma revolução. A medicina deixará a fase de detectar e tratar e entrará na era de prever e prevenir. Os médicos cuidarão de doenças da mesma maneira que os engenheiros de software consertam programas de computadores: eliminando as linhas defeituosas. "O genoma humano será para a biologia o que a tabela periódica é para os químicos", compara o biólogo brasileiro Fernando Reinach, um dos responsáveis pelo seqüenciamento do genoma da Xyllela fastidiosa, bactéria que ataca a laranja. Sem bafo na nuca – Até o ano passado, quando ainda era o único a enfrentar o desafio, o Projeto Genoma Humano funcionava como uma estatal nos tempos de Brasil fechado. Formado em 1990 com um orçamento de 3 bilhões de dólares e a promessa de terminar o serviço em quinze anos, não sentia o bafo da concorrência na nuca. Não precisava apressar-se. A criação da Celera Genomics, em maio de 1998, mudou o cenário. Para começar, sacudiu a opinião pública com um questionamento muito razoável. Se uma empresa privada está investindo para decifrar o código genético humano, por que o contribuinte americano também deveria pagar? Os integrantes do consórcio público responderam que a Celera pretendia trancafiar em patentes trechos de DNA, o que impediria outros cientistas de trabalhar. Depois, começaram a apressar o próprio cronograma. Para competir com o compromisso da Celera de publicar o genoma em 2001, anteciparam o fim do trabalho para 2003 e prometeram um rascunho em 2001. No início do ano, anunciaram uma versão do genoma com metade dos genes humanos para o primeiro semestre do ano 2000.
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