Edição 1 620 - 20/10/1999
 

Elas querem mais

Mulheres de meia-idade passam
a reivindicar seu direito ao sexo

Alice Granato


Leo Caldas/Lumiar
Oscar Cabral
Antonio Milena
"Os homens da minha idade são muito crianças. Não sabem encarar a velhice."
Dilma Queiroz, 50, empresária
"Sexo deixa a gente mais feliz. Só quero parar depois dos 90."
Mariza Paim, 48, advogada

"Quero encontrar um companheiro com 'c' maiúsculo."
Helga Nicklas, 58, artista plástica

Lá vêm elas de novo. Agora chegou a vez de respeitáveis senhoras de meia-idade botarem os homens contra a parede e se rebelarem contra a "aposentadoria" precoce. Com a vida financeira e profissional bem resolvida, filhos criados, esbarram em um problema: a falta de sexo. Uma pesquisa do Ministério da Saúde recém-publicada aponta que após os 56 anos apenas 37% das mulheres mantêm atividades sexuais. É um índice muito baixo, principalmente se comparado ao dos homens na mesma faixa etária, 93%. A novidade é que agora elas não se conformam mais com esse papel e estão empenhadas em reverter o jogo. Afinal, já se desvencilharam das dificuldades da menopausa, aprenderam a fazer reposição hormonal e cuidam da saúde e do corpo. Dizem que a sexualidade depois dos 50 pode ser ainda melhor do que na juventude. O difícil é convencer os homens disso. A maioria deles está mais atenta aos atributos da juventude.

A falta de sexo é hoje uma das queixas mais constantes das mulheres de meia-idade nos consultórios de psicologia e sexologia. "Há algumas décadas, essas mulheres não podiam nem gostar de dançar e tinham de se vestir de forma muito discreta, senão eram malvistas", diz a sexóloga carioca Regina Navarro Lins. "Hoje, as coisas mudaram e o prazer sexual não tem mais idade para acabar. É uma tendência em toda a sociedade ocidental." Essas mudanças começaram nos anos 60, quando a pílula anticoncepcional desvinculou o sexo da reprodução. Desde então, as mulheres vêm questionando seus direitos. "Elas tiveram de reprimir seus desejos por muito tempo e agora querem libertá-los da melhor forma", afirma a terapeuta sexual Aparecida Vanini Favoreto, diretora do Instituto Paulista de Sexualidade. "Essa é a primeira geração de mulheres de meia-idade que reivindica seu direito ao sexo."

Uma mulher que chega agora aos 50 anos é completamente diferente da de algumas décadas atrás. Além de encarar a vida de outra maneira e não viver mais só para criar filhos e ajudar na educação dos netos, ela tem muito mais recursos para manter-se bem fisicamente. A preocupação com a saúde e a estética é também maior do que no passado. Nunca houve tantos produtos cosméticos, técnicas de cirurgia plástica e recursos para retardar o envelhecimento como agora. As mulheres mais jovens são hoje donas de seu destino. Representam 40% da força produtiva do mundo. No Brasil, 18% comandam a própria família. Trabalham, ganham dinheiro e já escolhem quando e quem querem levar para a cama.

É o que as mais velhas gostariam também de estar fazendo, com algumas diferenças óbvias. Mulheres com 25 anos normalmente estão buscando um parceiro para construir uma família, dividir as despesas de casa, o entusiasmo e as angústias da profissão. Aos 50, as necessidades são outras. Elas querem compartilhar um lado bem específico da vida: o afetivo. "Em um primeiro momento, a gente procura alguém para dividir uma série de responsabilidades", comenta a psicóloga Ângela Massi. "Agora, queremos alguém que terá uma participação bem mais delimitada dentro de nossas vidas, voltada para o lado emocional."

É um caminho complicado. Um dos requisitos mais cultuados pelo homem é a beleza física. Nessa faixa etária esse não é o principal atrativo. Sentir atração por mulheres mais jovens é uma reação natural nos homens. Nem todos fazem isso somente porque querem. É mais do que isso: é instintivo. "Nossa cultura valoriza a juventude e a aceitação de novos padrões de beleza ainda deve demorar para acontecer", explica Aparecida Favoreto. "Os homens estão até se esforçando." Muitos, a partir dos 50 anos, querem recomeçar a vida e para isso buscam mulheres mais jovens para ter outros filhos e formar uma nova família. As próprias mulheres, com a maturidade, ficam mais exigentes, principalmente porque já passaram por outros relacionamentos. Procuram alguém que seja realmente interessante para elas, o que não é fácil em idade nenhuma. Segundo as próprias mulheres, elas atraem com maior facilidade homens mais jovens do que os da própria faixa etária. "A maturidade desperta o interesse nos homens mais novos", observa a psicóloga paulistana Suzana Domingues de Castro.

Avó de um garoto de 1 ano e mãe de quatro filhos, a advogada e designer de jóias do Rio de Janeiro Mariza Paim, de 48 anos, namora um homem seis anos mais novo que ela. "Está sendo maravilhoso", declara. "Era o que eu procurava: um companheiro para rir, me divertir e ter bons momentos", confessa. Mariza já teve três casamentos e diz que terá quantos for preciso para que esteja bem. "Antigamente, ensinavam que tudo era feio: casar e separar, querer sexo. Acho que as pessoas evoluíram e estão vendo que feio é não ser feliz", afirma. "Acho que melhorei muito com a idade. Eu era envergonhada, hoje me olho no espelho e me acho ótima."

Para a empresária pernambucana Dilma Queiroz, de 50 anos, o fato de homens de sua idade procurarem por mulheres mais novas é "infantilidade". "Eles fazem isso para fugir da própria velhice", diz. Embora se sinta atraída por homens de sua faixa etária, a pedagoga Nora Dalva, de 54 anos, separada há doze, acha que tanto o relacionamento de homens com mulheres mais jovens como o contrário devem ser encarados sem preconceitos. "A gente julga demais", diz. "Existem homens que gostam de menininhas e mulheres que gostam de garotões. Acho as duas coisas perfeitamente naturais." Nora, que cuida da saúde e do corpo, conta que aceita o processo de envelhecimento com naturalidade. "Você perde um pouco do físico, mas aguça a sabedoria", explica. "É isso que nos faz entender as mudanças e até gostar das transformações do corpo."

Segundo os especialistas, ainda é grande o número de mulheres que decidem pôr fim à vida sexual precocemente. Muitas delas tiveram experiências ruins no passado e desistem de recomeçar. "A vontade de continuar com a vida sexual existe apenas entre aquelas mulheres que conseguiram acompanhar as transformações da sociedade", constata Aparecida Favoreto. As mudanças não são poucas. Apenas no Brasil, a expectativa de vida é quase 50% maior do que na década de 50. Hoje, aos 40 anos, o brasileiro está apenas na metade da vida e, ao chegar aos 50, pode fazer uma infinidade de coisas. Por que não arranjar um novo par? Para isso homens e mulheres vão ter de acertar o passo. "Ainda há um desencontro grande entre as pessoas na minha idade", diz a artista plástica Helga Nicklas, 58 anos. "Temos de encontrar um caminho para andar juntos."

 
 

 




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