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Edição 1 620 - 20/10/1999
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África do Sul Fábrica do malComeça julgamento do médico que queria Cinco anos depois de formalmente enterrado, o apartheid, regime de segregação racial da África do Sul, ainda tem podres vindo à tona. E que podres. Em julgamento que começou num tribunal de Pretória no início do mês, e pode prolongar-se por até dois anos, o médico Wouter Basson está se revelando uma espécie de doutor Silvana, um gênio do mal do apartheid. Cardiologista e oficial do Exército, responsável pelo programa de armas químicas e biológicas durante os anos finais do governo de minoria branca, ele é suspeito de ter provocado 229 mortes, por meio de métodos mirabolantes como a contaminação por microrganismos. Apelidado pela imprensa sul-africana de "Doutor Morte", Basson também é comparado ao carrasco nazista Josef Mengele, que fazia experiências atrozes com seres humanos. Entre 1983 e 1993, Basson desenvolveu, com a ajuda de espiões, o mais avançado programa de armas químicas e biológicas fora dos Estados Unidos e da extinta União Soviética, conforme suas próprias palavras. Quando tomou posse como presidente, em 1994, o líder negro Nelson Mandela foi informado da existência do arsenal químico e de que Basson, então afastado do governo para não provocar suspeitas, tentava negociar seus conhecimentos com a Líbia. Mandela mandou recontratá-lo como médico do Exército. Em 1996, a Comissão da Verdade e da Reconciliação, criada para passar a limpo os crimes cometidos nos tempos do apartheid, começou a investigar o assunto. No ano seguinte, Basson, até então apenas testemunha, foi preso duas vezes, por tráfico de drogas (vendia comprimidos de ecstasy feitos por ele mesmo) e desvio de dinheiro público. Documentos encontrados com o médico transformaram-no em centro das atenções da comissão. A África do Sul desenvolveu um programa nuclear avançado e chegou a produzir a bomba atômica, que desativou ainda com os brancos no poder. O projeto paralelo chefiado por Basson surgiu do temor de um ataque com armas químicas e bacteriológicas à disposição das facções em luta em vizinhos inimigos, como Angola e Moçambique, apoiados por Cuba e URSS. Indícios divulgados pela Comissão da Verdade e da Reconciliação levam a crer, porém, que não se tratou de mera estocagem de armas com propósitos defensivos, como alega Basson, mas de uma usina de planos diabólicos. O pastor negro Frank Chikane, hoje assessor do presidente Thabo Mbeki, teve as cuecas embebidas em substância tóxica. Foi socorrido em estágio adiantado de envenenamento. O maior número de mortes colocado na conta de Basson é de guerrilheiros que lutavam contra o domínio sul-africano na Namíbia, atacados com drogas causadoras de paralisia total dos pulmões. Outros planos do Doutor Morte incluíam o desenvolvimento de uma bactéria que só atingisse a população negra, a esterilização em massa de mulheres e a distribuição de cigarros contaminados com microrganismos letais. Disso tudo, não se sabe ainda o que ficou restrito aos planos maquiavélicos ou aos tubos de ensaio e o que foi realmente usado. O julgamento promete. |
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