Edição 1 620 - 20/10/1999
 

Minas Gerais

O rato que ruge

Itamar esperneia e simula operação militar
contra venda de Furnas para chamar a atenção

Ronaldo França

Juca Varella/Folha Imagem
Itamar e sua tropa: sem treinamento e armas adequadas, não duraria nem 24 horas


Entre os velhos soldados, a exibição da Polícia Militar de Minas Gerais na região de Furnas na semana passada provocou duas reações distintas. Muitos riram. Os que levaram as manobras militares mais a sério consideraram que elas não passaram de um desrespeito infantil às Forças Armadas e à ordem pública. Em mais uma demonstração do que lhe vai pela cabeça, o governador Itamar Franco despachou 2.500 policiais militares para a região, armados com 200 fuzis, oitenta carabinas e 200 revólveres calibre 38. Um pequeno batalhão especial, um grupo de elite da PM, também foi convocado e empunhava submetralhadoras Uzi, de fabricação israelense. Levaram ainda bombas de gás lacrimogênio, em quantidade não revelada. Em sua maioria os integrantes da tropa de Itamar eram bombeiros, alunos e formandos da academia militar mineira, soldados sem muita experiência. A manobra foi planejada como um protesto bélico e simbólico contra a privatização de Furnas, a companhia federal de geração e distribuição de energia, cujo dique está localizado na cidade de Capitólio, perto da divisa com São Paulo. O que Itamar Franco quis deixar patente é que seria capaz de usar até soldados e armas para impedir a privatização. O ato do governador foi considerado bravata irresponsável por profissionais do ramo das armas.


Oscar Cabral
Newton Cruz: operação é uma ameaça à democracia


"Policiais militares só agüentam batalhas se forem urbanas e por um dia, no máximo", afirma o general da reserva Marco Antônio Felício da Silva. "E mesmo assim contra pessoas não treinadas." É claro que ninguém poderia admitir seriamente a hipótese de um confronto entre as forças mineiras e as tropas do governo federal. Seria uma situação absurda até mesmo para Itamar. Mas a exibição do governador é inconsistente até mesmo no campo da pura especulação. "A tropa mineira não duraria 24 horas de pé", afirma o general Newton Cruz, ex-comandante militar do Planalto. "Esses homens não têm armas nem treinamento necessário para combater o Exército." Seriam, portanto, alvo fácil para tanques e obuses. Principalmente se expostos às dificuldades naturais de um campo de batalha. Além da falta de preparo, haveria problemas de ordem estratégica. Minas Gerais só poderia pensar em enfrentar tropas federais caso tivesse um eventual apoio de outros Estados. "Ninguém apoiaria uma demonstração de desrespeito à ordem pública como essa. É um desrespeito à democracia", critica Newton Cruz.

O governador mineiro não encontrou respaldo para sua ação nem mesmo entre seus oficiais. A manobra em Capitólio, que custou 450.000 reais aos cofres públicos, foi desaconselhada pela maioria dos vinte coronéis que integram o Alto Comando da PM mineira. Itamar insistiu. "Ele quer chamar a atenção de jornais e TVs para cá", disse o comandante da operação mineira, coronel Ari de Abreu. O ex-presidente irritou-se. Contrariado, não compareceu, como prometera, ao encerramento de seu show, que culminaria com a explosão de um casebre próximo da represa na quinta-feira passada. Antes disso, assistiria à simulação do seqüestro de um ônibus e a perseguição, também simulada, de terroristas. Itamar acompanharia tudo isso camuflado num esconderijo um treinamento de guerra que, se tivesse sido executado, lembraria as comédias que o cinema inglês faz com tanta competência sobre ações militares. A ausência de Itamar serviu para evitar maior ridículo em torno da Guerra de Furnas. Em Brasília, a manobra foi encarada com estudada indiferença. "Não examinamos essa manobra nem pelo aspecto político nem pelo militar", diz o ministro da Defesa, Élcio Álvares. "Simplesmente a ignoramos."

 
 

 

Com reportagem de José Edward, de Belo Horizonte

 




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