Edição 1 620 - 20/10/1999
 

Reforma agrária

Marchando para trás

À medida que radicaliza suas ações, o
Movimento Sem-Terra perde apoio popular

Maurício Lima


Alan Marques/Folha Imagem

Ato do MST em frente da
Embaixada dos Estados Unidos
em Brasília: baderna


O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, MST, está perdendo popularidade. Em 1996, quase 80% da opinião pública aprovava o movimento. Era época da novela O Rei do Gado, transmitida pela Rede Globo, em que a bela Patrícia Pillar fazia o papel de uma sem-terra. Dois anos depois, esse apoio caiu para 58%. Segundo a última pesquisa feita pelo instituto Vox Populi em agosto, apenas 28% dos entrevistados apóiam o MST hoje. A queda de popularidade é o resultado direto de acontecimentos como o da semana passada em Brasília. Durante uma manifestação contra o governo, denominada Grito Latino-Americano dos Excluídos, integrantes de uma passeata enfeitada com as bandeiras vermelhas do movimento provocaram uma grande baderna no setor de embaixadas da capital. Entre pichações de paredes e palavras de ordem, eles quebraram e derrubaram a placa de identificação da embaixada americana. Foi um espetáculo grotesco e escatológico. Os manifestantes jogaram terra, cuspiram e fizeram outras coisas em cima da placa. A balbúrdia só não foi maior porque a polícia do Distrito Federal tinha ordens expressas para não intervir.

Quando surgiu como movimento social, o MST atraiu muita simpatia porque defendia uma bandeira justíssima: a reforma agrária. Hoje, os líderes do movimento mudaram de rumo. Eles começaram invadindo terras produtivas. Números do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Incra, mostram que um terço das terras tomadas pela turma da bandeira vermelha é de áreas produtivas. Depois, passaram a promover saques. Em apenas um mês de 1998, eles fizeram mais de uma centena de pilhagens. Agora, o objetivo do MST é outro. Eles desfilam pelas ruas exigindo coisas tão estapafúrdias como a moratória da dívida externa, a reestatização das empresas privatizadas e até mesmo o impeachment do presidente Fernando Henrique Cardoso. Nesses momentos, o MST se esquece do adubo, do trator e do inseticida. E a população brasileira se esquece um pouco mais do MST. A próxima meta política do movimento é engrossar uma paralisação nacional já convocada para o dia 10 de novembro pelas oposições. "Eles transformaram-se de movimento em movimentismo. Se todos os integrantes recebessem terras, o MST ignoraria isso e continuaria a marchar", diz o cientista político Bolívar Lamounier.

A radicalização política do MST vem arrebanhando opositores até de onde menos se espera. Há quinze dias, quando o líder do movimento, João Pedro Stedile, pregou o quebra-quebra de pedágios nas rodovias brasileiras, membros do PT o censuraram. Hoje, alguns setores mais moderados do partido já estão querendo mostrar que as bandeiras vermelhas do PT são diferentes das do MST. O raciocínio é simples: baderna não traz votos. O ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque, candidato assumido à Presidência da República pelo PT, é um dos defensores dessa tese. Para ele, o MST representa apenas uma parcela da população. Cristovam diz que o PT precisa aprender de uma vez por todas que o partido é uma representação da sociedade brasileira e não de alguns grupos organizados.

 
 

 




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