Edição 1 620 - 20/10/1999
 

A aposentadoria sumiu

"A nova geração quer ter o direito de escolher
quem vai cuidar de sua poupança, e não ver seus
salários usados para as aposentadorias dos outros"

Ilustração: Pepe Casals

A maioria dos leitores de VEJA vem contribuindo religiosamente para sua aposentadoria, ao longo dos últimos cinco a trinta anos, dependendo da idade. Normalmente, são 10% descontados em folha, e as empresas contribuem com mais 22%. Ao todo, são 32% de seu salário, que você poderia poupar para a velhice.

Só que no Brasil quem cuida desse dinheiro é o Estado, e por isso é bom verificar, de tempos a tempos, seu saldo. Se você entrar no site da Previdência e digitar o número de sua carteira de trabalho, descobrirá que seu saldo é zero. Seu dinheiro sumiu. Como irão sumir suas contribuições para o resto de sua vida profissional. Esse foi um dos segredos mais bem guardados dos últimos vinte anos por ministros, técnicos e pela própria imprensa.

Meu primeiro artigo em VEJA, "Velhice melhor", de 14 de maio de 1980, alertava: "Quem pretende aposentar-se lá pelo ano 2000 não conte demais com o INPS, faça suas economias, sua pensão corre perigo". Pelo menos avisei com a devida antecedência.

O governo estima o rombo da Previdência na casa dos trilhões de reais no decorrer dos próximos trinta anos. No ano 2030, os pagamentos para aposentadoria poderão chegar, na pior das hipóteses, a 17% do PIB, dinheiro que deveria ir para investimentos e geração de emprego.

Se seu suado dinheiro sumiu, como você vai se aposentar? Quem será a alma caridosa que pagará sua pensão? Papai Noel?

Quem já está aposentado está recebendo de quem? De você, pelo método de repartição social, que traduzido significa que as novas gerações pagam as aposentadorias das velhas gerações. Mas será que as novas gerações concordam?

Como ficam os direitos adquiridos sobre nosso dinheiro se ele sumiu? A nova geração não entende por que, mesmo com o dinheiro sumindo mês a mês há mais de vinte anos, ninguém se preocupou ou tomou providências. Por que não lutaram pelo direito de cada um cuidar de sua própria aposentadoria? A esquerda acreditou no socialismo da Previdência. A direita, no capitalismo de Estado. Ambas agora querem que a nova geração arque com as conseqüências, e esta não tem a menor culpa pelos erros do passado.

Os que pretendem aposentar-se estão diante de uma realidade dramática. Afinal, eles pagaram rigorosamente por 35 anos, como mandava a lei, e o dinheiro sumiu. Poderão os jovens deixar os mais necessitados sem amparo e comida?

Claro que não. Mas tirar a poupança futura de toda uma geração não é menos dramático só porque se trata do futuro. Somente neste ano foram 80 bilhões de reais de poupança que deixaram de ir para investimentos que teriam criado 2 milhões de empregos para a nova geração. Um pacto terá de ser acordado. A nova geração certamente aceitará um Pacto Intergerações, mas a velha terá de mudar o tom, sentar à mesa e reduzir a conta a ser paga.

Ao impedir a redução das aposentadorias de 110% para 100% do último salário, minha geração se arrisca a perder os dedos, em vez dos anéis. Querer postergar o problema quanto possível e discutir medidas transitórias suaves e indolores é simplesmente condenar os jovens à miséria.

Com esse comportamento, a velha geração está caminhando para uma ruptura institucional com relação à nova geração, que quer ter o direito de escolher quem vai cuidar de sua poupança, e não ver seus salários usados para as aposentadorias dos outros. Eles não pretendem cometer o mesmo erro de seus pais. Conhecendo a coragem das mulheres brasileiras, mães que são desta nova geração, não tenho a menor dúvida de que elas ficarão do lado de seus filhos, e não de seus maridos, que não se preocuparam com o destino de suas contribuições. Vamos torcer para que não tenhamos 140 milhões de mulheres brasileiras e jovens de um lado, contra um punhado de homens do outro.

 

 
 

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

 




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