Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Tales Alvarenga
É a cultura, tolinho!

"Intelectuais culpam os países ricos ou
as elites locais pelo atraso brasileiro.
Motoristas de
táxi culpam os políticos
ladrões. Cabeleireiros culpam o governo
do PT. Eu digo: não é nada disso. Somos
todos nós juntos"

Espero que você, leitor, não esteja mais entre aqueles que sempre procuram um bode expiatório para explicar o atraso brasileiro. No passado, culpou-se primeiro o imperialismo americano. Depois, mentes mais sofisticadas passaram a acusar a exploração promovida pelos "países centrais" contra os pobrezinhos "países periféricos", como o Brasil. Os africanos? Bem, os africanos viviam naquela pindaíba toda unicamente por ter sido triturados pelo colonialismo europeu, informavam os bem-pensantes. O colonialismo foi embora há uns cinqüenta anos. Ainda há escravidão na África, tribos chacinam tribos e a aids é ainda mais popular por lá do que a desnutrição. Recentemente, um governante da África do Sul chegou a dizer que o vírus da aids não passava de uma invenção ocidental. Intelectuais culpam os países ricos ou as elites locais pelo atraso brasileiro. Motoristas de táxi culpam os políticos ladrões. Cabeleireiros culpam o governo do PT. Eu digo: não é nada disso. É a cultura, tolinho! Somos todos nós juntos a causa do atraso.

A África está num estágio cultural semelhante ao dos bárbaros que derrubaram o Império Romano do Ocidente há um milênio e meio. Já estava antes do ciclo do colonialismo. O Brasil tem oscilado junto com a América Latina inteira. O bloco teve caudilhos na mesma fase, teve luta armada de esquerda no mesmo período, ditaduras militares paralelas, redemocratizações, planos econômicos mirabolantes e, por fim, as tentativas em curso de ajuste fiscal. Alguns países da América Latina se movimentaram de forma diferente, mas é impressionante a coincidência de tempos históricos na maior parte dos casos. Aí estão uma herança cultural e uma capacidade medíocre de reagir que transcende fronteiras. As condicionantes do crescimento são também externas (imperialismo, colonialismo, globalização), mas o que interessa é aquilo que os países fazem com os estímulos positivos ou negativos que recebem. As condições vigentes dos anos 70 aos anos 2000 depenaram os países latino-americanos, mas foram benévolas com os Tigres Asiáticos. Nos anos 70, o Brasil era muito mais ágil, mais rico e mais atraente para investimentos do que Taiwan, Coréia do Sul e Cingapura.

A busca de bodes expiatórios tende a nos transformar em um povo apático e conformista. Os Tigres Asiáticos se mexeram. Educaram suas populações para operar uma economia baseada em tecnologia. Mandaram multidões de jovens fazer cursos de doutorado no exterior em áreas favoráveis ao desenvolvimento. Criaram um ambiente propício aos investimentos. Incentivaram as exportações. Com exceção do Chile, que abriu e desregulamentou seu mercado, os latino-americanos foram lentos nessas mudanças. Na última semana, o Fórum Econômico Mundial, entidade internacionalmente respeitada, divulgou seu ranking global de competitividade. O Brasil estava em 54º lugar no ano passado. Caiu para o 57º lugar neste ano, entre 104 países analisados. Levamos notas péssimas em criminalidade, taxas de juros, burocracia, infra-estrutura, déficit fiscal do setor público, sistema de impostos. Na lista dos 104 países, a América Latina crava um 22º lugar em competitividade, com o Chile, e depois só volta a aparecer no 48º posto, com o México. No meio da lista, estamos rigorosamente alinhados com a mediocridade.

 
 
 
 
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