|
|
Ponto
de vista: Lya Luft Bruxas
e fadas existem
"A vida depois
da aparente morte existe, os encontros
humanos são destinados: algo secreto maneja os laços
que se atam e desatam em amores, família, amizades e até
encontros breves. Por que não?"
Gosto de pensar que o tempo não existe a não ser como convenção
para demarcarmos nossas atividades. Mas ele tem efeitos na geografia do nosso
corpo e, evidentemente, em nossa alma: que pode expandir-se, ficar mais generosa,
mais sensível ao que é belo e bom, ou ressecar-se, entregando-se
à lamúria, à sombra, ao amargor.
Isso será em parte escolha nossa. Depende da genética psíquica
com que somos marcados ao nascer, e também do que em nós causou
a família esse campo de treinamento como seres humanos, do qual
nos vem a capacidade de ternura e confiança, mas também a suspeita
e a autodestruição.
Com a realidade não é muito diferente: em que medida ela é
fruto da nossa formação?
Ilustração
Ale Setti
 |
Recentemente,
escrevi histórias infantis, nas quais me coloquei no papel de uma bruxa
boa disfarçada de avó. Essa bruxa escondia atrás dos livros
potes com pós mágicos, que usava para vencer as bruxas más,
moradoras de um buraco no meio-fio ali na esquina. "Bruxa existe, fada existe,
gnomo existe, bicho fala?", perguntava a criança que recheou minhas histórias
com suas maravilhosas fantasias (uma de suas perguntas foi, aliás, se "à
noite, as estrelas-do-mar acendem no fundo das águas").
Se bruxas e fadas existem... Respondi que existem, claro, para as crianças
que acreditam. Depois pensei que, no caso dos adultos, tudo depende de nossa capacidade
de escapar da prisão de nosso melancólico ceticismo e, assim, adentrar
os mistérios do mundo. Se é
possível acreditar que somos transcendentais, que existe o sagrado fora
de uma religião institucionalizada, por que não existiriam criaturas
miraculosas? E quem garante que, de vez em quando, dois mais dois não é
algo diferente do tedioso quatro?
Pesquisadores geniais começam a abrir frestas de conhecimento que nos revelam
universos insuspeitos (seriam os das bruxas medievais?). Quantas dimensões
temos no universo? Uma quarta foi aventada, e quem sabe outras mais não
existiriam? Comecei a querer entender
o mundo quando ainda nem comia à mesa dos adultos (outros tempos!), intrigada,
principalmente, com as tempestades que resfolegavam como um grande animal sobre
as árvores do jardim. Sempre quis entender: porque não entendo,
escrevo. Como jamais entenderei, até o fim da vida tentarei expressar em
palavras, e entrelinhas, esse desejo de tocar o indizível.
Bruxas existem, fadas existem, a vida depois da aparente morte existe, os encontros
humanos são destinados: algo secreto maneja os laços que se atam
e desatam em amores, família, amizades e até encontros breves. Por
que não? Nada é impossível
na vastidão do processo no qual estamos como as árvores na floresta
e as conchas na areia: transformação, não deterioração;
soma, não redução. Se conseguíssemos enxergar isso,
seríamos muito mais tranqüilos, mais abertos e ousados. Daríamos
mais importância ao crescimento, e não à castração;
à dignidade e ao amor, e não à vingança e ao ressentimento.
Teríamos consciência de que a vida nos lançou fora do casulo
do não-saber para exercermos generosidade e liberdade, até sermos
de novo encerrados (ou expandidos?) nisso que chamamos morte.
Ao menos por algum precioso instante de libertação, todos devíamos
poder ser crianças que acreditam que à noite, quando todos dormem,
esta que aqui escreve voa sobre os telhados em sua vassoura, feliz porque os que
ama dormem protegidos, enquanto ela, a Bruxa Boa, sob a claridade da lua, gira,
vigilante. Lya Luft é escritora
|