Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Sérgio Abranches
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
VEJA on-line
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Energia
O grande mistério atômico

O Brasil criou uma tecnologia nuclear
funcional mas cuja viabilidade comercial
ainda é um enigma


Marcelo Carneiro

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Um mercado em expansão

NESTA EDIÇÃO
Risco subterrâneo

O projeto nuclear brasileiro, que andou chamando a atenção do mundo, entrará em uma fase decisiva nesta semana. Na terça-feira, uma equipe da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) visitará as instalações da fábrica de enriquecimento de urânio que o governo federal está implantando em Resende, no sul do Rio de Janeiro. A visita pode representar o round final de uma briga que já se estende desde o início do ano passado. Fiscais da agência, órgão ligado à ONU cuja tarefa é inspecionar atividades nucleares em todos os países que detêm essa tecnologia, querem ter "acesso visual irrestrito" às centrífugas onde é enriquecido o urânio brasileiro, usado como combustível para o funcionamento das usinas nucleares de Angra I e Angra II. O Brasil, por sua vez, quer mostrar o mínimo possível de seus equipamentos, sob o argumento de que o modelo nacional, desenvolvido pela Marinha, é um avanço industrial e, como tal, tem direito à proteção do sigilo. O impasse pode estar perto de ser solucionado – e disso depende a entrada em pleno funcionamento da fábrica. VEJA ouviu de duas autoridades brasileiras envolvidas nas negociações que o governo concordou em ceder, parcialmente, aos apelos da agência. Hoje, as centrífugas estão escondidas por painéis de mais de 2 metros de altura. Eles deverão ser encurtados, para dar maior visibilidade aos inspetores da Aiea, mas as centrífugas continuarão ocultas. Ou, na peculiar definição dada por um assessor do Ministério da Ciência e Tecnologia, ao qual as Indústrias Nucleares Brasileiras (INB) – empresa responsável pela fábrica – estão subordinadas: "Vamos levantar um pouco mais a saia e abaixar o bustiê, mas o segredo continuará".

O segredo que o Brasil resiste tanto a revelar é uma inovação no processo industrial de enriquecimento de urânio que, em tese, traria uma vantagem competitiva ao país em um mercado anual de 6 bilhões de dólares (veja quadro). O problema é que as centrífugas brasileiras ainda não foram testadas em escala industrial. "Nossa tecnologia é, de fato, muito boa, mas atualmente funciona em baixa produção. Resta saber como se comportará quando for necessário produzir grandes quantidades de urânio enriquecido", explica Roberto da Franca, que presidiu as INB de 1993 até o ano passado e acompanhou de perto todas as negociações para o projeto da fábrica de Resende. Ou seja: na teoria, as centrífugas nacionais são um sucesso. Na prática, são ainda um mistério.

Para que se entenda como funciona uma centrífuga de enriquecimento de urânio, o caminho mais simples é imaginá-la como se fosse uma máquina de lavar caseira. A parte da máquina onde se colocam as roupas gira em torno de um eixo movido por um motor. O que os brasileiros conseguiram foi fazer com que esse compartimento rode sem o eixo, apenas sustentado por um campo eletromagnético. É igual ao trem japonês, que anda sem encostar nos trilhos. Como não produz atrito, necessita de menos energia e tem durabilidade muito maior. Essa máquina é também silenciosa. A levitação, como a chamam os técnicos, é o principal diferencial da tecnologia brasileira. Acredita-se que uma ultracentrífuga brasileira eletromagnética dure até vinte anos, enquanto os modelos de outros países resistem metade desse tempo. No início deste mês, VEJA esteve na fábrica de Resende, no galpão onde as centrífugas estão instaladas. Em um salão do tamanho de uma quadra de basquete, agrupam-se cerca de 400 delas – um número que a Marinha, o governo brasileiro ou as INB não confirmam nem sob tortura. Com base nessa informação é possível calcular a capacidade de produção de cada centrífuga, e assim chegar mais perto de dados altamente sigilosos como o tamanho de cada aparelho, estimado entre 1,50 e 1,80 metro. Essas máquinas giram a 1 300 quilômetros por hora, quase cinco vezes a velocidade de um carro de Fórmula 1.

Mesmo quando estiver produzindo 43 toneladas de urânio enriquecido, quantidade suficiente para suprir anualmente o abastecimento de Angra I e Angra II, a fábrica de Resende não chegará nem perto da produção de uma empresa como a Urenco, um dos líderes mundiais nesse setor. Formada por capital alemão, holandês e inglês e com fábricas nesses três países, a Urenco produz, por ano, cerca de 1.500 toneladas de urânio enriquecido. É uma diferença abissal, e mostra quanto o Brasil ainda engatinha no mercado nuclear. No mundo inteiro existem, neste momento, apenas dois tipos de tecnologia sendo usados em escala industrial para o enriquecimento de urânio. Um deles é a difusão gasosa, com a qual os Estados Unidos, uma potência nuclear, alimentam suas 104 usinas. O outro chama-se ultracentrifugação. É essa a técnica que o Brasil domina e, aparentemente, vem aprimorando. Há apenas sete países capazes de enriquecer urânio por esse processo. Os técnicos brasileiros dizem que a ultracentrifugação é até 25 vezes mais eficiente que a difusão gasosa e que as centrífugas de Resende proporcionariam uma economia de energia de até 30%.

Ninguém imagina que o Brasil seja mais capaz de produzir tecnologia de ponta do que um país do porte dos EUA, com sua notável capacidade de pesquisa e verbas estratosféricas. Ocorre que, de fato, o sistema de centrifugação inventado pela Marinha e implantado em Resende é inovador. O interesse por rotores que funcionam sem atrito é muito grande. Ela está na base de diversas apostas futuras não apenas no campo da energia, mas também do transporte e até das viagens espaciais. O Brasil chegou a essa tecnologia aos trancos e barrancos. As pesquisas tiveram início no período militar, marcado por uma das maiores mancadas internacionais no campo da energia nuclear. Do alto de sua sabedoria, os generais compraram gato por lebre da Alemanha. O governo do general Ernesto Geisel pagou bilhões de dólares por um brinquedo que nunca se mostrou útil fora dos laboratórios. O país virou piada. Dizia-se que, além da fissão e da fusão nuclear, os brasileiros haviam desenvolvido uma terceira via para o átomo: a ficção nuclear. Cercado de um sigilo indevassável também em suas contas, o programa nuclear brasileiro comandado pelos militares era mais do que secreto. Era clandestino. Previsivelmente, o programa atolou em um cipoal de contas secretas que somaram 1 bilhão de dólares. A desconfiança de que o país tinha interesse em montar um arsenal atômico nunca se dissipou. E tampouco foi muito bem disfarçada pelos generais. Escaldada com os erros cometidos, a Marinha começou a trabalhar em um projeto alternativo de ultracentrifugação com o objetivo de produzir combustível para um submarino nuclear, outro sonho que acalenta há décadas. Foi assim que entraram no cenário mundial as hoje mundialmente polêmicas centrífugas flutuantes brasileiras. Se elas são apenas mais um capítulo da suculenta ficção nuclear brasileira é ainda um grande mistério. Esse segredo pode estar começando a se revelar quando, na próxima semana, chegarem ao Brasil os inspetores internacionais.

 

 
 
 
 
topovoltar