Edição 1875 . 13 de outubro de 2004

Índice
Claudio de Moura Castro
Millôr
Diogo Mainardi
Gustavo Franco
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Diogo Mainardi
Entre Bush e Kerry, contra o PT

"Depois de acompanhar os debates eleitorais
americanos, continuo meio embananado.Ainda
não decidi por
quem torcer. Não é como nas
eleições brasileiras. Aqui a escolha é obrigatória:
devemos torcer contra os petistas, que querem
tomar conta de tudo"

O melhor dos debates eleitorais americanos foi aquele aparelhinho semelhante a um semáforo que ditava o tempo das respostas. Os candidatos dispunham de apenas dois minutos para responder às perguntas, e de um e meio para replicar. Quando faltavam trinta segundos para o tempo terminar, uma luz verde se acendia. Quando faltavam quinze, uma luz amarela. Quando faltavam cinco, uma luz vermelha. A partir de então, a luz vermelha começava a piscar e o candidato era interrompido por uma campainha. Os americanos dominam o mundo porque sabem que não há um único argumento que não possa ser exaurido em, no máximo, dois minutos. Do derretimento da calota polar à metempsicose em Platão. Todas as pessoas deveriam levar um semáforo igual àquele pendurado no pescoço. A vida em sociedade seria imensamente facilitada.

Depois de acompanhar atentamente todos os debates eleitorais americanos, continuo meio embananado. Ainda não consegui decidir por quem torcer. Não é como nas eleições brasileiras. Aqui a escolha é obrigatória: devemos torcer contra os petistas, que querem tomar conta de tudo. Nos Estados Unidos é mais complicado. Aborto e pesquisas com células-tronco embrionárias? Pontos para John Kerry. Afeganistão e cortes de impostos? Pontos para George Bush.

A questão fundamental da campanha é a guerra no Iraque. Eu só torceria por um candidato que se comprometesse solenemente a mandar mais soldados para lá. Bush não pode fazer isso. Significaria admitir o que ele sempre se recusou a admitir: que, desde o começo, a ação foi pessimamente planejada. Kerry é melhor. Pelo menos ele reconhece o problema. Em todas as ocasiões, acusa Bush de ter ignorado os conselhos de seus comandantes militares, que alertavam para a necessidade de duplicar ou triplicar o número de soldados invasores. O caso mais citado é o do general Eric Shinseki, que foi posto de lado pelos republicanos por ter declarado que a ocupação do país requereria 100.000 ou 200.000 homens a mais.

Só que não dá para confiar em Kerry. Ele é confuso demais. Por um lado, denuncia a falta de tropas no Iraque. Por outro, não está disposto a contrariar o eleitorado pacifista e defender o deslocamento de mais soldados americanos para a frente de batalha. Bush ridicularizou a única proposta de Kerry nesse sentido: a promessa de tentar convencer os aliados europeus a reforçar seus contingentes. Franceses e alemães não ajudarão os americanos a sair da enrascada em que se meteram. Se os Estados Unidos pretendem garantir a transição política no Iraque, e impedir que o país entre numa guerra civil, precisam se mexer sozinhos, confiando apenas em suas próprias forças. O futuro dos iraquianos depende da disponibilidade do próximo presidente americano de mandar mais combatentes para o sacrifício. Como nem Bush nem Kerry parecem propensos a enfrentar o desgaste de uma decisão tão impopular, fico sem saber por quem torcer.

É tudo o que eu posso dizer sobre o assunto. A campainha do meu semáforo acaba de disparar.

 
 
 
 
topovoltar