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Entrevista:
Yara Baumgart "Bandeirante
desbravante" É
assim que se define a empresária paulistana Yara Baumgart. Ela brilha
no mundo da beleza e gosta de esgrimir suas aptidões intelectuais  Juliana
Linhares
Claudio Rossi
 | "Acabo
de me formar em filosofia. Convivi com os grandes pensadores. Aprendi muito com
os meus queridos Aristóteles, Sócrates e Kant" |
| A
empresária paulistana Yara Baumgart, de 56 anos, sai do sério quando
alguém a chama de perua. Já levou à Justiça o colunista
José Simão, da Folha de S.Paulo, por ter-lhe sapecado esse
adjetivo um tantinho substantivado. Yara tem razão de ficar zangada. Depois
de anos dedicados exclusivamente à vida em sociedade e à família
(seu marido é o empresário Roberto Baumgart, fabricante de produtos
químicos e dono de shopping centers), ela resolveu dar um basta na dondoquice.
Usou a experiência adquirida como paciente de clínicas estéticas
no exterior para abrir a Kyron, a maior clínica desse tipo no Brasil. Há
alguns anos, Yara descobriu também que pode haver idéias debaixo
da chapinha japonesa. Em julho, formou-se em filosofia. Yara gosta de citar grandes
pensadores, diz que é fluente em cinco idiomas e conta que tem 5 000 livros
em casa. Fala sempre baixo e num tom monocórdio. Falar assim, explica,
"é muito europeu". Em seu escritório, em São Paulo, ela deu
a seguinte entrevista a VEJA.
Veja
Desde quando a senhora se dedica aos cuidados com a beleza? Yara
Desde muito pequena. Herdei essa característica de mamãe,
que sempre foi vaidosa. Lembro que, quando eu era criança, ela ia a uma
esteticista romena que lhe aplicava cremes de lanolina no corpo todo. Em casa,
mamãe se sentava em frente a um espelho que tínhamos no banheiro
e dava palmadinhas no rosto com uma almofadinha presa num arame, para ativar a
circulação. Aos 7 anos, comecei a estudar balé. Mamãe
vivia preocupada com as minhas pernas. Por isso, me levava para fazer massagem
com terapeutas alemãs. Ela tinha medo de que eu ficasse com pernas de jogador
de futebol.
Veja
Foi graças a sua mãe, então, que a senhora
ganhou pernas de bailarina... Yara
Fiz balé clássico até os 19 anos e ioga por mais
dezessete. Sempre me preocupei mais com o corpo do que com o espírito.
Agora, quero encontrar o caminho da verdade. Comecei a fazer aikidô. Um
sensei me dá aula particular. Ele tem uma energia fortíssima. Para
você ter uma idéia, o sensei arremessa os alunos faixa preta ao chão
com seus golpes. Depois, estende o braço e lhes mostra a palma da mão.
Os alunos ficam congelados no lugar onde caíram só pela energia
que sai da sua mão. É igual ao filme O Último Samurai.
Aprendi coisas incríveis com o aikidô.
Veja
Que coisas? Yara
A dar cambalhota, por exemplo. É mais ou menos a representação
da vida. Nascemos com a possibilidade de fazer uma infinidade de coisas, mas,
com o tempo, criamos arestas. O aikidô nos ajuda a aparar essas arestas
e ficar mais redondos. Veja bem: redondo no contexto energético. Fisicamente,
é o contrário. Aikidô emagrece e afina a cintura.
Veja
O que mais o aikidô lhe ensinou? Yara
Aguçou meu feeling. Tenho boa intuição, mas só
dei atenção a ela depois de uma experiência aterrorizante
no aeroporto em Paris. Senti um frio na barriga na hora em que peguei na esteira
de bagagem uma maleta Louis Vuitton, que tinha umas bobeirinhas dentro, como meu
passaporte o brasileiro, porque o italiano estava na bolsa , um reloginho
Cartier, uma maquininha digital e uns creminhos. Não dei bola para essa
sensação e fui para o carro que me esperava no terminal. Você
acredita que roubaram a maleta? O aikidô me fez enxergar minha parte de
culpa nisso. Pressenti que iam levar a maleta e não fiz nada.
Veja
A senhora fez faculdade? Yara
Acabo de me formar em filosofia. Foram quatro anos iluminados de estudos
e descobertas. Convivi com os grandes pensadores. Aprendi muito com os meus queridos
Aristóteles, Sócrates e Kant.
Veja
E teve formatura? Yara
Dei uma grande festa. Reproduzi na minha casa o bar da universidade.
Todos foram de estudante. Hebe Camargo foi de saia pregueada e meias três-quartos.
João Armentano, de boné e colete. Espalhei pôsteres de 3 metros
de altura com o rosto e os dizeres de filósofos. A idéia era passar
um pouquinho do meu conhecimento para os convidados. Um dos pôsteres era
de Parmênides: "O homem é e não pode não ser". Isso
diz muito. É como vermos na rua uma pessoa atropelada ou espancada. Não
dá para fazer de conta que não aconteceu.
Veja
A senhora pretende continuar seus estudos filosóficos? Yara
Vou fazer mestrado em filosofia da estética que, nossa, é
um sem-fim. Pretendo estudar (Theodor) Adorno (filósofo alemão).
Chego a ter taquicardia quando leio seus livros.
Veja Por quê? Yara
Ele fala da estética do homem como um todo, sabe? A pintura,
a arquitetura, a poesia, a literatura. A estética trata desses assuntos
que acabei de falar.
Veja
A senhora poderia ser mais clara? Yara
Por exemplo: eu gosto desse quadro chinês aí na parede.
Você não gosta? Tudo bem. É uma questão de valores.
Isso é que é estética. É mais ou menos por aí.
Veja O que a senhora modificou na estética do seu corpo?
Yara Vamos por partes. No cabelo, fiz reflexo e um relaxamento na
raiz dos fios. É que, cá entre nós, (cochichando)
meu cabelo é pixaim. Fiz uma plástica no nariz, outra no pescoço
e coloquei silicone nos seios. Tenho aparelho fixo nos dentes, que empurra os
lábios para fora, fazendo com que eles pareçam carnudos. Uso lentes
de contato verdes ou azuis. Ponho as azuis quando estou relaxada ou em missões
de paz. Comprei as verdes para ficar com a cor dos olhos dos meus netos quando
estamos juntos. Agora, quando vou assinar contratos ou dar entrevistas, fico com
os olhos castanhos mesmo, que transmitem firmeza.
Veja
E Botox? Yara
Apliquei na testa e em volta dos olhos. Tem gente que exagera e fica
sem expressão. Em mim, ficou natural. É bem verdade que não
levanto muito as sobrancelhas. Também não consigo abrir um sorrisão.
Mas tudo bem: as coisas estão aí para ser usadas. Não perco
tempo passando mil cremes. Não perco tempo com futilidades.
Veja
Então a senhora sai de casa de rosto lavado? Yara
Nunca! Não gosto de mim sem maquiagem. Detesto me olhar no espelho
de manhã.
Veja
Que mulheres a senhora mais admira? Yara
Uma é a Marilyn Monroe. Ela adorava o glamour. Também
me identifico com Diane de Poitiers e Aspásia. Diane viveu no século
XVI e ampliou a cultura na França. Sua família tinha títulos
de nobreza, como a minha. Aos 60 anos todo mundo lhe dava 30. Além disso,
protegia pintores e divulgava encontros culturais. Já Aspásia foi
a professora de Sócrates.
Veja
Que homens a senhora considera elegantes? Yara
Elegância é uma coisa que vem de dentro. (O jornalista)
João Dória Júnior e Fernando Collor são exemplos de
homens elegantes. Vestem-se de maneira clássica, são tradicionais.
O João é capaz de jogar futebol sem tirar um fio de cabelo do lugar.
Ah, acho elegantes também todos os homens que jogam pólo.
Veja
A senhora é religiosa? Yara
Fui católica até os 14 anos. Um dia, quando estava me
confessando, o padre me deu uma bronca porque não havia ido à missa.
Na hora, tive certeza de que o catolicismo não era o meu caminho. Quem
era aquele homem para me criticar? Passei a acreditar na natureza. Creio nas árvores,
nos bichos e na água. O canto do passarinho é a representação
pura da energia que existe no cosmo. Daí o meu cuidado com o meio ambiente.
Só uso spray de cabelo que não prejudica a camada de ozônio.
Ando tendo muitas preocupações com o mundo.
Veja
Quais? Yara
A maior é com a água. Se não economizarmos, vai
faltar no próximo século. Também estou apreensiva com o tempo.
Li que o dia passou a ter só dezesseis horas, segundo a física quântica.
É incrível como não conseguimos mais cumprir com nossos compromissos...
Veja Como a senhora definiria a física quântica? Yara
Não sei explicar direito, mas posso dar um exemplo. Quando vou
contratar alguém, além de avaliar seu currículo, procuro
sentir sua energia. Se é boa, houve um encontro dos nossos campos energéticos,
entendeu?
Veja Mais ou menos. A senhora faz caridade? Yara
Não dou esmola, mas ajudo carentes em Campos do Jordão.
Acho um absurdo essas pessoas que fazem de pedir esmola na rua um comércio.
Detesto ver crianças exploradas pelas mães nos semáforos.
Uma vez vi um senhor que tinha um quelóide no peito e fazia point nos Jardins
(bairro de classe média alta de São Paulo). Um absurdo!
Veja
Quais foram as maiores lições que recebeu de seus
pais? Yara
Mamãe me ensinou a dar festas como ninguém. Aos 9 anos,
eu já era capaz de organizar um jantar americano para trinta pessoas. Papai
me ensinou a gostar de livros.
Veja
De que tipo de livros a senhora gosta? Yara
A-do-ro livros. Tenho 5 000 volumes em quatro bibliotecas. Na biblioteca
que eu chamo de social, guardo obras raras. Outra é meu cantinho, com livros
de psicologia e de filosofia. A terceira, no meu quarto, tem os livros de capa
mole, de administração, auto-ajuda e estética. No escritório
do meu marido, estão os livros de arte. Colecionar livros é uma
das minhas paixões.
Veja
Quais são as outras? Yara
Música. Adoro Wagner. Toco muito bem piano. Aliás, tenho
três: um Challen, um Bechstein e um pianinho de apartamento para tocar jazz.
Outra paixão é olhar o mar. Sinto paz, muita paz. Só de falar
sobre o mar, já me sinto tranqüila.
Veja A senhora tem um gosto musical refinado... Yara
Você acha mesmo?
Veja
É o que parece. A senhora gosta de algo simples? Yara
Macarrão Miojo e pão com manteiga. Já quanto a
creme hidratante, minha filha, não tenho nada de sofisticada. Uso o da
latinha azul, sabe?
Veja
Qual é a sua roupa preferida? Yara
Uma calça Lee, que ganhei aos 12 anos. É a minha medida
até hoje. Quando não entro nela, sei que estou gorda.
Veja
Qual é o número dela? Yara
Trinta e oito, talvez.
Veja
Quantos vestidos de festa a senhora tem? Yara
Não sei, mas meu acervo está catalogado, assim como minha
biblioteca. Digitalizei meus livros. Agora, estou fazendo isso com os vestidos.
Fiz uma foto minha usando cada um deles. Junto com a foto, tem uma ficha com informações
importantes. Coisas como onde e quando ele foi comprado, em que ocasiões
foi usado e quando foi lavado pela última vez etc. O único problema
é que as empregadas não sabem mexer no computador. Quando quero
uma roupa, tenho de procurar eu mesma.
Veja Qual foi a sua maior loucura consumista? Yara
Fiz uma carreira muito bonita de bailarina em Frankfurt e em Londres.
Minha professora, para quem sabe um pouquinho de balé, era da companhia
da Anna Pavlova. Minha grande loucura foi gastar meu primeiro salário num
par de sapatos e num mantô Dior.
Veja
Como eram os sapatos? Yara
Sou uma pessoa muito sóbria. Eram de verniz preto, clássicos.
Compro pouco, mas sempre do melhor. Gosto de qualidade, não de quantidade.
Isso é bem europeu. Eu me sinto muito européia.
Veja
O que é se sentir européia?
Yara Todas as viagens que faço têm de ter uma paradinha
em Paris. É o ponto de partida da minha vida. Meus avós são
italianos. Minha educação, portanto, foi européia. Aprendi
as coisas da vida através da arte, da música, da literatura. Por
causa dessa tradição, abri uma galeria de arte. Arte, arte, arte,
arte, eu respiro arte desde muito pequena. Dizem até que eu sou uma mecenas.
Veja
A senhora não gosta de ser brasileira? Yara
Tenho orgulho do Brasil. Fico feliz quando as pessoas se maravilham
com a nossa cirurgia plástica. Não admito que falem mal do Brasil.
Uma vez tive uma discussão horrorosa com um alemão. Ele criticou
Jorge Amado. Como falo bem alemão, mostrei minhas garras.
Veja
Como a senhora se descreveria?
Yara Sou uma bandeirante desbravante. Desvendo novos caminhos. Sou
o próprio Mito da Caverna de Platão buscando conhecimento. Estudo
nos fins de semana. O primeiro livro de gente grande que li foi a biografia de
Leonardo da Vinci. O poder criativo dele me fez perceber que eu poderia realizar
tudo aquilo que quisesse. Essa esperança do vir-a-ser é muito bonita.
Veja Mais alguma coisa? Yara
Anote aí (lendo um papel): eu respeito a pluralidade
racial. Meu querido Kant tinha essa luta. Ele queria a paz entre os iguais. Ah,
por favor, não me deixe parecer fútil nesta entrevista, sim? |