Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Auto-retrato
Lou Reed


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Para ouvir: músicas do cantor


O cantor americano Lou Reed, de 62 anos, sempre se destacou pelo retrato que suas letras apresentam da cidade de Nova York e de seus habitantes. Ex-membro da lendária banda Velvet Underground, que surgiu no fim dos anos 60, e dono de uma respeitável carreira-solo, Reed está lançando NYC Man, compilação de seus maiores sucessos. Ele falou por telefone ao repórter Sérgio Martins.

O SENHOR É O GRANDE CRONISTA MUSICAL DA CIDADE DE NOVA YORK. DE QUE MANEIRA OS ATENTADOS DE 11 DE SETEMBRO MUDARAM SEU TRABALHO?
Eu não trocaria Nova York por nenhum outro lugar do mundo, e não gosto de falar sobre o 11 de Setembro justamente por isso: é um assunto doloroso para mim. A atmosfera da cidade mudou desde os atentados, mas ela não perdeu aquilo que sempre retratei em minhas canções, que é a capacidade de reunir os tipos humanos mais pitorescos. Do traficante de drogas de Waiting for the Man ao travesti de Walk on the Wild Side, é assim que Nova York sempre apareceu em minhas letras, por meio de histórias e personagens curiosos.
 

A COLETÂNEA NYC MAN INCLUI DOIS REMIXES ELETRÔNICOS DE SUAS MÚSICAS. O QUE NA MÚSICA ELETRÔNICA ATRAI UM VETERANO DO ROCK COMO O SENHOR?
Os artistas mais interessantes da atualidade têm saído da música eletrônica e do rap. Quando ouço uma rapper de qualidade como Missy Elliott, e outros artistas novos, fico com muita vontade de trabalhar com eles, inclusive pela diversão. A idéia dos remixes vem daí. Além disso, essas regravações ajudam a divulgar a minha música nas pistas de dança. Ir a clubes e dançar está entre as minhas diversões prediletas.

O SENHOR POSSUI OUTRO HOBBY?
Artes marciais. Faz mais de 25 anos que eu pratico. Comecei para me afastar das drogas e me manter sadio. Há pouco tempo, meu esforço foi recompensado. Apareci na capa de uma das revistas de artes marciais mais importantes dos Estados Unidos. Para mim, foi o máximo.
 

JÁ TEVE DE USAR SUAS HABILIDADES PARA SE DEFENDER?
Felizmente, nunca. Não faço artes marciais para brigar, mas porque o esporte me mantém em forma física e mentalmente.
 

O SENHOR ESTEVE NO BRASIL EM 1996 E 2000. EXISTEM PLANOS DE UMA NOVA TURNE PELO PAÍS?
Pensei em passar pelo Brasil neste ano, mas não houve acordo financeiro. Portanto, se eu visitar vocês nos próximos tempos, será apenas como turista. Sou louco pelo Brasil. Para mim, existem poucas visões mais reconfortantes do que as mulheres do Rio de Janeiro em seus minúsculos trajes de banho.
 

A MÚSICA BRASILEIRA O ATRAI?
Conheço a cantora Bebel Gilberto, uma menina bastante simpática. Mas musicalmente prefiro o pai dela. João Gilberto é um gênio. Não perco nenhum de seus shows em Nova York.
 

VÁRIOS ROQUEIROS AMERICANOS ADERIRAM À CAMPANHA DO CANDIDATO DEMOCRATA JOHN KERRY PARA A PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS. O SENHOR APÓIA ALGUM POLÍTICO NESTA ELEIÇÃO?
Eu me interesso muito mais em fazer o americano se conscientizar de que o voto dele é importante do que em escolher este ou aquele candidato. No início do mês eu, minha mulher, Laurie Anderson, e outros artistas do cenário pop participamos de um show chamado Joyful in November (Alegria em Novembro). Todo o dinheiro arrecadado foi revertido para financiar campanhas e anúncios que estimulem o povo a ir às urnas. Nos Estados Unidos, o voto é facultativo. O americano tem de se conscientizar de que a eleição decide o futuro do país.
 

O SENHOR NÃO GOSTARIA DE ATUAR MAIS NA POLÍTICA?
Não sou político, sou apenas cantor e compositor. E acho que meu público é inteligente o suficiente para fazer suas opções.

 
 
 
 
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