|
|
André
Petry À procura da Justiça
"Trocando
em miúdos: o nome de um desembargador sob investigação
deve ficar em segredo, mas a rabacuada não merece o mesmo direito"
Imagine se os
médicos, reunidos num encontro nacional, decidem que aquele remédio
menos amargo deve ser de seu uso exclusivo quando eles próprios adoecerem.
Os demais pacientes, ao contrário, devem seguir usando outro medicamento,
mais amargo e menos eficaz. Não seria um absurdo? Pois é mais ou
menos isso que querem os desembargadores brasileiros. Ao fim de um encontro em
Belém, no Pará, eles lançaram uma carta assinada por 32 desembargadores.
O documento tem quatro itens. Neles, não há uma vírgula sobre
a necessidade de romper com a lentidão da Justiça. Não há
uma menção à importância de democratizar o acesso à
Justiça. Não há uma palavra sobre a reforma do Judiciário,
sobre o controle externo. Mas, entre os quatro itens, há um pedido escancarado:
quando eles próprios, juízes de direito, estiverem sendo investigados,
sob suspeita de uma maracutaia qualquer, seus nomes devem ser mantidos em sigilo
até que a ação penal seja aberta.
Quer dizer: os desembargadores, que compõem a cúpula da Justiça
nos Estados, reúnem-se em Belém durante quatro dias, bem pertinho
do feriadão que coincide com a belíssima festa do Círio de
Nazaré, e tudo o que têm a nos dizer é que querem um privilegiozinho...
Trocando em miúdos: o nome de um desembargador sob investigação
deve ficar em solene segredo, mas a rabacuada não merece o mesmo direito.
E eles
é que fazem justiça no Brasil.
• • • "Champinha"
é o apelido do criminoso que, há um ano, assassinou brutalmente
um casal de adolescentes num sítio na região de Embu-Guaçu,
no interior de São Paulo. Champinha desferiu onze facadas na menina, de
16 anos, e disparou um tiro na nuca do namorado, de 19. Um crime sádico,
assustador, repulsivo. Na época, novembro do ano passado, Champinha tinha
16 anos. Foi preso e levado para uma unidade da Febem. Agora, está com
17 anos, mas em dezembro próximo completará 18 e, como manda
a legislação em vigor, será libertado e voltará para
casa, depois de perder a liberdade por pouco mais de um ano. Por esses dias, a
revelação da iminente libertação de Champinha produziu
uma onda de indignação. Então, a Secretaria de Justiça
de São Paulo pediu à Febem que revisasse todos os laudos anteriores,
favoráveis à libertação de Champinha
devido ao seu bom comportamento.
Com a revisão dos laudos sob uma atmosfera de indignação,
é altamente provável que a libertação de Champinha
deixe de ser recomendada. Parece uma vitória, mas não é.
Ou a Febem, quando não está sendo observada, faz laudos sem nenhum
fundamento. Ou, quando está sob observação, faz exatamente
o que o observador quer. Qualquer hipótese é um desastre. Até
o pai da menina assassinada, um advogado, que aliás tinha todo o direito
pessoal de clamar pela vingança dos céus contra o criminoso, teve
mais lucidez em meio à tragédia: em vez de pressionar pela solução
ao arrepio da lei, em uma audiência com o então presidente do Supremo
Tribunal Federal, Maurício Corrêa, clamou justamente por sua mudança.
E, até agora, a lei permanece estupidamente igualzinha.
E acham que isso é fazer justiça no Brasil. |