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Ponto
de vista: Lya Luft No
denso nevoeiro
"Intelectuais de boa formação,
pessoas com preparo suficiente para ser lúcidas,
parecem cegas à realidade e querem nos convencer
de que este país nunca esteve tão bem"
O momento nacional nos dá a impressão aflitiva de estarmos envolvidos
num denso nevoeiro, sem enxergar com clareza, por cima de um atoleiro de perplexidade
no qual vamos afundando. Muitos dos que não sabem da missa a metade mas
pagam o dinheiro que forra o bolso dos espertos e compra a dignidade dos desprivilegiados
seguem seu cotidiano como condenados à forca da alienação.
Com formadores de opinião dizendo que ética não importa,
que governar ou fazer política é, afinal, coisa pouco higiênica,
que partido honesto não vence eleições, mas, "se abrindo
as comportas", tudo muda de figura, o jeito de fugir ao desânimo seria mudar
de canal, botar fora o jornal logo depois de ler cultura e necrológio e
cuidar só da própria vida; dane-se o país. Mas a gente insiste
na esperança, vai ver nos jornais:
Ilustração
Atomica Studio
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"A
política é um terreno pantanoso, a ética é de conveniência.
Se o fim é nobre, os fins justificam os meios", afirmou um desses famosos
que, só por isso, já formam opinião de muita gente. "O que
eu acho inaceitável é roubar. Eu acho que o mensalão é
do jogo político, não é roubo (...). Mas sanguessuga é
roubo. Deveriam ser fuzilados."
Fuzilados, pode
ser um exagero: sanguessugas talvez sejam absolvidos (se julgados) e dos mensaleiros
ninguém fala mais. Foram liberados para se candidatar a cargos públicos,
muitos estão praticamente reeleitos. Que mundo este nosso.
Intelectuais de boa formação, pessoas com preparo suficiente para
ser lúcidas, parecem cegas à realidade, arrastando velhas ideologias
com cheiro de naftalina, que desmoronaram em outras partes mas aqui persistem.
Querem nos convencer de que este país nunca esteve tão bem e até
serve de modelo para o resto do mundo. Está quase perfeito em saúde
pública, por exemplo, tem uma economia crescente e outras maravilhas. Quando
a economia mundial não for mais tão favorável, poderemos
ainda alardear isso do Brasil, um dos países que menos crescem no mundo?
O casamento infeliz de corrupção
com cumplicidade e a resultante crise de autoridade na vida pública (com
reflexos em toda a sociedade, inclusive na família) trazem à tona
a questão da moralidade. (Não estou usando, de propósito,
a palavra ética: a pobre anda humilhada demais.) Não se confunda
moralidade com moralismo, que é filho da hipocrisia. Moralidade faz parte
da decência humana fundamental. Dispensa teorias, mas é a base de
qualquer convívio e ordem social. Embora não necessariamente escrita,
está contida também nas leis tão mal cumpridas do país.
Todos a conhecem em seus traços mais largos, alguns a praticam.
Moralidade é compostura. É exercer autoridade externa fundamentada
em autoridade moral. É fiscalizar rigorosamente o cumprimento das leis
sem ser policialesco. É respeitar as regras sem ser uma alma subalterna.
Moralidade pode ser difícil num país onde o desregramento impera.
Exige grande coragem dizer não quando a tentação (de roubar,
de enganar, ou de compactuar com tudo isso) nos assedia de todos os lados, também
de cima. Num governo, é o oposto do assistencialismo, que dá alguns
trocados aos despossuídos, em lugar de emprego e educação,
que lhes devolveriam a dignidade. É lutar pelo bem comum, perseguindo e
escancarando a verdade mesmo que contrarie grandes e vários interesses.
Mas, aqui entre nós, de momento a imoralidade
tudo contamina como um vírus ativo num corpo frágil. Um conhecido
autor de novelas se confessou surpreso porque os telespectadores torcem pelos
personagens cafajestes, que dão ibope, e os honrados passaram a ser os
"malas". Possivelmente, a inconfiabilidade de pessoas que deveriam estar nos dando
apoio nos priva do estímulo para viver segundo alguns valores. Mas onde
estão esses valores? Onde estão a justiça e a ordem? Que
mundo estamos legando a nossos filhos e netos? Que tipo de vida estamos aceitando?
A das cidades comandadas por organizações criminosas, a do campo
ameaçado e assaltado, a das ruas inseguras, das casas trancadas, da cultura
medíocre e das vidas desperdiçadas? Seremos todos assim, precisamos
ser assim, não teremos discernimento nem força suficientes para
mudar? Se o moralismo é detestável,
a moralidade nos falta: é bom levar isso muito a sério, e tratar
de recuperá-la, urgentemente, talvez com o voto mais lúcido dos
nossos anos de democracia pois o preço de sermos o alegre país
da malandragem consentida poderá ser alto demais.
Lya Luft é escritora |