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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo VIVA
LA MUERTE! Que tempos, para
um pai na Faixa de Gaza...
Ainda bem que estamos distantes. Ou
não? Para se ter uma idéia
do que se passa no favelão conhecido como Faixa de Gaza, muito mais úteis
do que acompanhar o noticiário sobre mortos e feridos ou conhecer os comunicados
de Israel ou da Autoridade Palestina são duas conversas entre pai e filho
relatadas numa recente reportagem do jornalista Jeffrey Goldberg para a revista
The New Yorker. A primeira tem como cenário a sala coberta de retratos
de "mártires" (os homens-bomba palestinos) da casa de Abu Hussein, um dos
líderes das brigadas especializadas em disparar foguetes contra o sul de
Israel. Abu Hussein é militante do Hamas, o grupo político-terrorista-religioso
hoje majoritário entre os palestinos. Enquanto conversava com Goldberg
sobre o Hamas (que ele considera estar ganhando a guerra contra Israel) e a qualidade
dos rústicos foguetes Qassam (que freqüentemente acabam caindo no
próprio território palestino), seu filho de 15 anos se mantinha
ao lado, sentado no mesmo sofá. "Sim, nós
não temos tanques", dizia. "Mas temos mártires. Olhe para os rostos
na parede. Todos nós ansiamos por morrer para ganhar de volta nossa terra.
Os judeus preferirão deixar a Palestina a morrer. Essa é a diferença."
A certa altura, Abu Hussein estreitou o filho, estudante secundário, num
abraço: "Eu quero que ele termine os estudos, mas, se acontecer de ele
morrer, não me importo, desde que morra como um mártir e leve alguns
judeus consigo. Ficarei feliz, se ele morrer assim". O filho sai da sala e volta
com um retrato em que aparece com uniforme de combate e um fuzil AK-47 na mão.
"Esta é a minha foto de mártir", explica ao visitante. Se eu morrer,
é ela que vai aparecer nos pôsteres em Gaza." Todos os seus colegas
de escola têm suas "fotos de mártir", explica o menino. O pai acrescenta:
"Nós ficamos felizes em sacrificar nossa família para ganhar essa
batalha". O filho ri, achega-se ao pai e comenta: "Eu sou seu filho único,
e ele quer que eu morra". Na segunda conversa,
o jornalista da The New Yorker está diante de Rafiq Hamdouna, antigo
líder da Fatah, a organização rival do Hamas leiga,
mais pragmática e adepta de uma saída negociada com Israel. "A única
solução realística é a dos dois estados", diz Hamdouna,
afirmando sua oposição à tese da destruição
de Israel do Hamas. Ele acrescenta porém que o cerco de Israel e a tentação
pela morte violenta entre os palestinos dificultam a aceitação de
um compromisso sem ardor religioso nem fantasias de heroísmo. Para exemplificar
como os espíritos estão envenenados, conta que seu filho Basel outro
dia lhe disse que gostaria de se transformar em mártir. "Tive de ficar
calmo", prosseguiu. "Disse a ele: 'Basel, você sabe o que acontece quando
você se explode? Você não vai para o paraíso. Você
vai para um buraco na terra e se cobre de sujeira'." Hamdouna encerrou o assunto
com um comentário desacorçoado: "Todo pai em Gaza tem a mesma conversa
com os filhos. Todo pai enfrenta isso". Na Guerra
da Espanha, o general Millan Astray, um dos comandantes do lado franquista, celebrizou-se
pela divisa "Viva la Muerte!", que usava como grito de guerra. Era um brado "necrófilo
e insensato", como disse o filósofo Miguel de Unamuno, corajosamente, na
cara de Millan Astray, num famoso episódio. Na primeira conversa, a do
militante do Hamas com o filho, a celebração da morte adquire um
caráter doméstico, manso e carinhoso que a torna mais tenebrosa
do que se tivesse lugar num evento político. Na segunda conversa, o pai
se utiliza da ducha fria do racionalismo para combater as ilusões que ameaçam
contaminar o filho. Mas o comentário final de que "todo pai enfrenta isso"
mostra que ele tem consciência de lutar contra a corrente. As circunstâncias
são desfavoráveis demais, os espíritos estão embriagados
demais. Ele não se pode deixar levar pela ilusão de que seu argumento
conquistou o filho. • • •
Sorte que a Faixa de Gaza seja uma realidade distante para nós, brasileiros.
Ou será que, pensando bem... Nos favelões do Brasil, os meninos
são atraídos pela legenda dos homens do tráfico. Eles sabem
que aquilo não acaba bem. Se a morte escapa de vir da polícia, chegará
na guerra entre facções. Um pai (ou mais freqüentemente uma
mãe) nos favelões brasileiros não enfrenta situação
muito diferente da dos pais de Gaza. Também entre eles as circunstâncias
são desfavoráveis demais para a vitória da racionalidade,
e os espíritos estão embriagados (ou entorpecidos) demais. O "Viva
la Muerte" cativa também os seus filhos. P.S.:
Num artigo na Folha de S.Paulo em que justificou (ou melhor: apoiou) as
falcatruas do PT no governo, a escritora Rose Marie Muraro saiu-se com a seguinte
e lapidar afirmação: "Ser moral dentro de um sistema imoral é
legitimar a imoralidade". Ô Rose Marie!!! Pela primeira vez alguém
vem a público para, diante da famosa disjuntiva (de Stanislaw Ponte Preta?
Millôr? Barão de Itararé?) "Ou se restaure a moralidade ou
nos locupletemos todos", lavrar sua opção pelo "locupletemo-nos".
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