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Brasil
Empreguismo e trambicagens
A Câmara anuncia demissão de 1 200
funcionários e diz que é para cortar
excesso. VEJA teve acesso à lista dos
demissíveis e descobriu que não é
só isso: há uma teia de bandalheiras

Diego Escosteguy
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Depois de se tornar palco de mensaleiros
e sanguessugas, a Câmara dos Deputados tem feito um esforço
para recauchutar sua imagem diante da opinião pública.
Recentemente, aprovou o fim do voto secreto, uma medida que, na
hora da cassação do mandato de parlamentares enrolados,
poderá ajudar a evitar a corrente de impunidade que se viu
no caso do mensalão. Na semana passada, em mais uma iniciativa
simpática aos olhos dos eleitores, o presidente da Câmara,
Aldo Rebelo, anunciou que vai cortar pela metade o número
de ocupantes dos chamados "cargos de natureza especial", apelidados
pela burocracia de CNEs. Atualmente, existem 2 365 funcionários
nessa categoria, recebendo salários que variam de 1 500 a
8 200 reais mensais. Até o dia da eleição,
em 1º de outubro, 1 163 serão demitidos, proporcionando
uma economia anual de 47 milhões de reais para a Câmara.
O anúncio merece aplausos, mas, mesmo com a demissão
de quase 1 200 funcionários, a Câmara dos Deputados
brasileira permanecerá na vexatória condição
de ser um dos parlamentos mais inchados das democracias modernas.
Adriano Machado/AE
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| O enrolado senador Ney Suassuna, que nomeou
a prima na liderança do PMDB: ninguém a conhece |
No fim da década de 50,
a Câmara dos Deputados tinha um funcionário para cada
deputado. Esse número só tem crescido desde então,
mas, depois de 1984, quando o país começa a voltar
ao regime democrático, deu-se um salto estratosférico.
Naquele ano, a Câmara tinha nove funcionários por deputado.
Hoje, a relação disparou para 32 por deputado. No
México, com sua economia de porte semelhante ao da brasileira,
há seis funcionários por deputado. Na Índia,
com sua imensa população de 1 bilhão de pessoas,
há 5,5 funcionários por deputado (veja
quadro). Um combustível para a explosão
do empreguismo na Câmara foi justamente a criação
dos tais "cargos de natureza especial", em 1992. Originalmente,
esses cargos seriam ocupados por técnicos, como economistas
que ajudam na análise do Orçamento da União
ou advogados que orientam na confecção de projetos
de lei. No princípio, seriam menos de 800 funcionários,
mas logo os parlamentares perceberam a brecha para montar um cabidão
de empregos de apaniguados. Por isso, a lista hoje beira os 2.400
nomes.
Apesar da saudável decisão
de demitir metade, a lista dos CNEs ainda é um dos segredos
mais bem guardados da Câmara. No dia 26 de julho passado,
o procurador da República Paulo José Rocha Júnior
solicitou a lista completa à direção da Câmara.
Deu um prazo de dez dias. A Câmara até hoje não
forneceu os dados e, para garantir o sigilo, chegou a editar uma
portaria na surdina determinando que apenas o procurador-geral da
República, Antonio Fernando de Souza, teria competência
para pedir a lista. Um mês atrás, respeitando a mudança
de última hora, o procurador-geral refez o pedido
e, até agora, nada. Há seis semanas, VEJA também
pediu a lista, cujos dados são oficialmente públicos.
Até a última semana, o pedido ainda estava sob "apreciação"
da cúpula da Câmara. Apesar da embromação
das autoridades, VEJA teve acesso à lista completa atualizada
até o dia 24 de junho passado. Lendo-se o documento, é
possível entender a razão de tantos segredos e manobras
para impedir a divulgação: a lista é um catálogo
de bandalheiras.
Ed Ferreira/AE
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| José Jorge, vice de Alckmin, cuja esposa estava
na lista desde 1997: "Isso não é nepotismo" |
Existem casos de nepotismo, desvio
de função e funcionários fantasmas, envolvendo
desde simples assessores até membros da alta cúpula
de partidos políticos. Na lista, há pelo menos 37
dirigentes de dez partidos (veja
quadro). É gente que recebe salário
da Câmara, mas trabalha para sua respectiva legenda, o que
é irregular. O recordista é justamente o PCdoB do
presidente da Câmara, Aldo Rebelo. O PCdoB tem oito dirigentes
empregados na Câmara, mas todos moram em São Paulo.
Um dos membros da bancada dos comunistas-fantasma é Walter
Sorrentino, secretário de organização do partido.
"Apesar de morar em São Paulo, exerço todas as funções
que a liderança do partido me atribui", diz. "Fantasma eu
não sou. Estou bem vivo." O fato de um líder partidário
efetivamente trabalhar para sua legenda, no entanto, não
resolve o problema nem desfaz a irregularidade do caso. Os partidos
recebem dinheiro público do fundo partidário
neste ano, serão 120 milhões de reais exatamente
para custear despesas, inclusive a remuneração de
dirigentes. Pendurá-los na Câmara é trambique.
O PDT escorou cinco dirigentes,
incluindo membros de sua cúpula nacional. O presidente Carlos
Lupi está lotado na liderança do partido na Câmara,
mas mora no Rio de Janeiro. "Minha produção é
intelectual. Não pode ser medida pelo espaço físico
que ocupo", diz ele, que garante ter deixado o cargo há três
meses para se dedicar à sua campanha ao governo do estado.
O secretário-geral, Manoel Dias, também recebe para
trabalhar em Brasília, mas mora em Florianópolis,
onde é candidato ao governo. Na semana passada, estava em
casa, recuperando-se de uma crise no nervo ciático, e não
respondeu ao pedido de entrevista de VEJA. O PTB emprega quatro
dirigentes, entre eles seu secretário de comunicação,
Honésio Pimenta Pedreira Ferreira, que recebe cerca de 5.000
reais mensais em Brasília, mas mora em Petrópolis,
a terra do inesquecível ex-deputado Roberto Jefferson, que
denunciou o mensalão e, indefeso diante dos encantos
do nepotismo, presenteou sua irmã, Rosane Monteiro Francisco
Zappala, com um carguinho de natureza especial.
André Dusek/AE
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| Aldo Rebelo, do PCdoB, que anunciou as demissões:
silêncio sobre os dirigentes do seu partido |
A velha chaga do nepotismo, é
claro, também está espalhada pela lista dos cargos
de natureza especial. VEJA identificou pelo menos vinte casos de
parlamentares e ex-parlamentares que empregam mulher, filhos, irmãos
e primos. Um dos casos envolve o senador José Jorge, do PFL
de Pernambuco, candidato a vice-presidente na chapa do tucano Geraldo
Alckmin. Até maio passado, sua mulher, a médica Maria
do Socorro Guimarães de Vasconcelos Lima, constava da lista.
Estava lotada na 1ª Vice-Presidência da Câmara,
ocupada pelo correligionário José Thomaz Nonô,
do PFL de Alagoas. Ganhava 2.800 reais mensais. Maria do Socorro
fez sua estréia em cargos de natureza especial em 1997 e,
desde então, passou por quatro setores da Câmara. No
seu último posto, os funcionários nunca a viram trabalhando.
O senador garante que não lhe deu o emprego e, por coincidência,
no mês em que foi escolhido vice de Alckmin, sua mulher resolveu
deixar Brasília e voltar ao Recife. "Nepotismo seria se ela
estivesse empregada no meu gabinete", acredita o senador. "Ela mais
foi atrapalhada do que beneficiada por ser casada comigo. O pessoal
olha torto."
O pessoal também olha
torto para o senador Ney Suassuna, do PMDB da Paraíba, enroladíssimo
no escândalo dos sanguessugas. Sua prima, Deborah Suassuna
Brilhante, desfruta um cargo na liderança do partido, embora
esteja presentemente ocupada com sua faculdade de direito em Mossoró,
no interior do Rio Grande do Norte. Talvez a faina acadêmica
a mais de 2.300 quilômetros de Brasília explique o
fato de que, consultados por VEJA, os funcionários da liderança
do PMDB tenham sido unânimes em informar que jamais ouviram
sequer falar no nome da moça. O PMDB garante que ela já
foi exonerada, mas seu nome consta da lista atualizada até
24 de junho. O senador Efraim Morais, do PFL da Paraíba,
que ganhou seus minutos de fama ao presidir a CPI dos Bingos, é
outro que se rendeu ao nepotismo. Na lista, aparece sua mulher,
Ângela Maria, e seu filho George. Os dois trabalhavam na secretaria
comandada pelo deputado sanguessuga João Caldas, do PL de
Alagoas. Os dois, apesar do emprego em Brasília, têm
endereço em João Pessoa, na Paraíba. Os dois
jamais foram vistos no local de trabalho.
Além de parentes e dirigentes,
a lista está crivada de fantasmas, digamos assim, comuns.
Na semana passada, VEJA foi à Câmara tentar localizar
78 ocupantes de CNEs cujos endereços residenciais não
são de Brasília. Dos 78, apenas dois eram conhecidos
pelos colegas de trabalho. Há fantasmas de todos os tipos.
Elizer Bernini, que deveria trabalhar na liderança do PTB
em Brasília, passa seus dias úteis em Pelotas, no
Rio Grande do Sul. Questionado por VEJA sobre seu trabalho, foi
lacônico: "Não vou poder te responder. Preciso antes
consultar algumas pessoas". Getúlio Lins Marques é
funcionário da liderança do PP em Brasília,
mora em Salvador e não gosta de falar de sua situação
funcional. "São questões de foro íntimo", arrisca.
Lindolfo Canedo Machado deveria trabalhar na liderança do
PFL na capital federal, mas admite que não é possível
encontrá-lo na cidade. "Só vou a Brasília quando
preciso", diz. E Maria Edwiges de Oliveira Souto pode ser encontrada
no PTB? "Ela mora no sítio, no interior do estado", informa
um familiar da funcionária localizado por VEJA em Curitiba,
no Paraná.
Por que o Parlamento brasileiro
chegou a esse nível de degradação? A curva
do empreguismo mostra que o problema se agravou mesmo depois que,
com retorno à democracia, o Congresso Nacional voltou a ganhar
relevância e, naturalmente, precisava contratar pessoal
especializado, sobretudo quando enfrentou a tarefa de elaborar uma
nova Constituição, em 1988. "Mas a forma como isso
se deu foi errada. Temos um número de funcionários
espantoso", afirma a cientista política Maria Dalva Kinzo,
da Universidade de São Paulo (USP). Nem se pode alegar que
isso seja uma marca de democracias periféricas ou de países
mais pobres. "O inchaço não é uma particularidade
de países subdesenvolvidos, mas uma particularidade do Brasil,
que não consegue mexer no tamanho do Estado, não consegue
fazer reforma administrativa", comenta Maria Dalva Kinzo, para completar:
"E tudo isso acaba alimentando a corrupção".
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ELES EMPREGAM OS FILHOS
| Fotos Ed Ferreira/AE
e Samuel Silva/Diário do Amapá |
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PHILEMON RODRIGUES
Defende o limite de contratação
de "três parentes" por deputado
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REMI TRINTA
Na liderança do PL sempre cabe mais
um parente de parlamentar |
EDUARDO SEABRA
No PTB não é diferente. O deputado
empregou Júnior na liderança
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Joedson Alves/AE
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Lucivaldo Sena/Interfoto
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GONZAGA PATRIOTA
O deputado garante que nada teve
a ver com a contratação da filha
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ZÉ LIMA
No primeiro mandato federal, o parlamentar
aprendeu rápido
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