|
|
Brasil
A cartilha de
irregularidades do PT
TCU abre processo contra o governo
para investigar o sumiço de cartilhas
e intima Gushiken a devolver quase
4 milhões de reais aos cofres públicos

Fábio Portela
Ed Ferreira/AE
 |
Rafael Neddermeyer/AE
 |
| Berzoini (à esq.):
ele assume que o PT distribuiu 930 000 fascículos pagos
pelo governo. O ministro Aguiar, do TCU (à dir.):
e onde foram parar os outros 960 000 exemplares? |
Há um ano, o Tribunal de
Contas da União (TCU) detectou indícios de fraudes
na impressão de cartilhas encomendadas pela Secretaria de
Comunicação (Secom), órgão ligado diretamente
à Presidência da República. Entre 2003 e 2004,
a Secom contratou a confecção de 5 milhões
de exemplares com propaganda do governo. Para os auditores do TCU,
o negócio foi superfaturado. Além disso, a Secom não
conseguiu comprovar a execução e distribuição
de uma parte substancial do serviço, o equivalente a quase
2 milhões de unidades. Questionada pelo tribunal, a secretaria
finalmente alegou, depois de muitas tergiversações,
que não tinha documentos que atestassem o recebimento do
material porque ele havia sido entregue aos diretórios estaduais
e municipais do PT. O partido teria sido encarregado de distribuir
o material oficial, já que, na versão da Secom, isso
sairia mais em conta para o governo. O responsável pelo processo,
o ministro Ubiratan Aguiar, considerou que a resposta equivalia
a uma confissão de culpa. Para ele, ao entregar as cartilhas
ao partido, a Secom fez uma "confusão entre ação
governamental e a partidária". Aguiar concluiu seu relatório
no fim de 2005. Em sua última edição, VEJA
revelou a história.
Na semana passada, o tribunal
julgou o caso e decidiu abrir um processo de tomada de contas especial
sobre a Secom. Os ministros mantiveram o entendimento dos auditores
de que as encomendas foram superfaturadas. Consideraram, ainda,
que as justificativas apresentadas pela Secom só valem para
930.000 cartilhas, metade do total. Ainda assim, diz o TCU, entregá-las
ao PT foi ilegal, porque o partido as teria usado para se promover
junto à população. A interpretação
do tribunal é que o PT fez campanha eleitoral com dinheiro
público. Por isso, o então titular da secretaria,
Luiz Gushiken, deve devolver ao Erário os 3,7 milhões
de reais gastos na confecção das cartilhas. Só
se livrará da pena se apresentar uma justificativa melhor.
Esse é apenas um dos problemas de Gushiken. O outro é
que, até agora, a Secom não deu nenhuma explicação
quanto ao destino de outros 960.000 exemplares cuja impressão
não foi comprovada.
As agências de publicidade
Duda Mendonça & Associados e Matisse, incumbidas de produzir
as cartilhas, também foram punidas pelo TCU. Elas têm
quinze dias para convencer os técnicos do tribunal de que
os contratos não foram superfaturados e de que os produtos
foram entregues. Se não conseguirem, terão de devolver
7,9 milhões de reais aos cofres públicos. Cada uma
deve cerca de metade desse valor. Uma das maiores questões
que a Duda Mendonça e a Matisse terão de esclarecer
é por que encomendaram a maior parte das cartilhas à
gráfica Kriativa, conhecida como uma das mais careiras da
praça. Ela foi contratada para imprimir nada menos que 3,4
milhões dos 5 milhões de cartilhas da Secom. O tribunal
encontrou nesses contratos fortes sinais de sobrepreço e
indícios de que parte dos serviços não foi
realizada. Questionada pela imprensa, a gráfica Kriativa
recusou-se a apresentar as notas fiscais que poderiam atestar que
ela, de fato, entregou as cartilhas ao governo federal.
O imbróglio das cartilhas
que foram entregues ao PT se é que elas foram mesmo
impressas e o resultado do julgamento do TCU dominaram as
discussões políticas na semana passada. Com a decisão
do tribunal, o presidente do PSDB, Tasso Jereissati, passou a falar
na instauração de processo de impeachment do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva. A justificativa é que o
responsável pelos contratos, o ex-ministro Gushiken, era
um subordinado direto de Lula. O ministro de Relações
Institucionais, Tarso Genro, rebateu as denúncias e acusou
a oposição de golpismo. No meio da confusão,
o presidente do PT, Ricardo Berzoini, divulgou uma nota na qual
manteve a versão de que as cartilhas foram confeccionadas
e distribuídas legalmente pelo partido. VEJA solicitou a
Berzoini documentos que corroborassem essa versão. Ele se
negou. VEJA pediu-lhe, então, que fornecesse uma relação
dos diretórios que teriam recebido as cartilhas. Berzoini
respondeu que não dará mais declarações
à imprensa. Os acusados ainda podem recorrer da decisão
do TCU por mais duas vezes (veja quadro). A decisão
final do tribunal de contas só deve ser tomada no ano que
vem. Depois disso, o caso ainda poderá ser levado à
justiça comum.
|
OS PRÓXIMOS PASSOS DO PROCESSO
NO TCU
ABR
 |
| Gushiken: intimado a devolver
milhões de reais à União |
NOVO PRAZO PARA
PROVAS
Gushiken e as agências têm quinze dias
para provar que os fascículos foram confeccionados,
não foram superfaturados, nem serviram de propaganda
para o PT. Caso contrário, precisarão
devolver 11 milhões de reais à União
nesse prazo
SEGUNDA INSTÂNCIA
O tribunal analisará as novas alegações
de Gushiken e das agências. Depois, julgará
se a ordem para devolver os 11 milhões de reais
deve ou não ser mantida
TERCEIRA INSTÂNCIA
Se forem condenados na segunda instância,
Gushiken e as agências poderão pedir ao
TCU que julgue seu caso pela terceira vez
JUSTIÇA
COMUM
Se forem condenados na terceira instância,
Gushiken e as agências poderão recorrer
à Justiça comum para tentar anular a punição
imposta pelo TCU
|
|
|