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Brasil A
utopia real de Gabeira Aos 65 anos,
o ex-guerrilheiro coroa uma carreira de rupturas radicais como o principal
nome da luta pela recuperação da ética e da credibilidade
da política brasileira  Lucila
Soares Oscar
Cabral
 | | Fernando
Gabeira, às vésperas de concluir o terceiro mandato: "Não
podia mais ficar só pensando em grandes causas e me omitindo em relação
ao que estava acontecendo no Congresso" |
O deputado federal Fernando Gabeira, candidato à reeleição
pelo PV, está vivendo dias especiais. Aos 65 anos, o ex-guerrilheiro que
voltou do exílio anistiado e com a cabeça cheia de temas avançados
demais para o Brasil de então, como ecologia, sexualidade, drogas, tornou-se
um símbolo da ética. Virou uma espécie de homem-elefante
da política, um ser que, à semelhança do personagem do filme
famoso de David Lynch, grita: "Eu não sou um animal político. Sou
um ser humano, sou um homem...". Fernando Gabeira chama atenção
pelas qualidades morais, pela sensibilidade, pela inteligência, características
que marcam um imenso contraste com a fauna que o circunda no Parlamento. Além
de seus eleitores habituais, de classe média da Zona Sul carioca, param
para falar com ele motoristas de táxi, senhoras de cabelos brancos, circunspectos
aposentados. Um grupo que, até pouco tempo atrás, ou não
o conhecia ou o via apenas como um sujeito exótico. Ele está entre
os dez nomes mais lembrados entre os candidatos a deputado federal no Rio de Janeiro
e recebe mais de 1 milhão de visitas por semana em seu site na internet.
Mineiro de Juiz de Fora e carioca
por opção, Gabeira é dono de uma trajetória única
na política brasileira, marcada por rara independência. Começou
a questionar os rumos da esquerda ainda no exílio. Naquele período,
atraiu-o o pacifismo do indiano Mahatma Gandhi e do americano Martin Luther King.
Deu-se então a segunda grande ruptura na vida de Gabeira. A primeira o
levara à luta armada. Essa agora o fazia dar um adeus às armas.
Sua paixão foi preenchida então pela luta de libertação
pessoal. Ele se tornou ardoroso defensor do feminismo, encantou-se com os movimentos
negros e adotou a agenda das minorias sexuais. Na volta ao Brasil, em 1979 bateu
de frente com os antigos companheiros da esquerda que não estavam nem um
pouco ligados em discutir a política do corpo, a descriminalização
das drogas. Mais de uma vez foi acusado de traição no Congresso
ao votar com "a direita", como a privatização da telefonia e a quebra
do monopólio da Petrobras. Em 2002, apoiou Lula. Um ano depois, rompeu
com o PT por discordar das práticas do partido no governo e no Congresso.
Diz a cientista política Lúcia Hippolito: "Gabeira representa a
face mais avançada da esquerda mundial, que não nega a modernidade,
não rejeita o mercado nem a globalização e ao mesmo tempo
defende as minorias. Ele não ficou embolorado naquela esquerda ultrapassada,
albanesa". Gabeira tornou-se um guerrilheiro da lucidez, a materialização
das utopias possíveis. Oscar
Cabral
 | | Gabeira
na orla de Copacabana: eleitorado já não se restringe à classe média da Zona Sul
carioca |
Na vida civil,
Gabeira é o mesmo há muito tempo. Não come carne vermelha,
anda de bicicleta e de moto e continua defensor da legalização da
maconha. Sua frase famosa a respeito do tema dá uma idéia de como
ele administra as esferas pública e pessoal de sua ética: "Aqui
não fumo porque é contra a lei, mas, quando vou a Amsterdã,
dou uns tapinhas..!". Fala baixo, usa o plural majestático. Mudou um pouco
o estilo de vestir, que se tornou mais sóbrio, clássico, e está
em ótima forma física. Tem um eleitorado fiel, que já lhe
garantiu três mandatos (o primeiro em 1994) e uma boa votação
em 1986, ano de criação do PV, pelo qual concorreu ao governo do
Rio de Janeiro. Mas nunca foi um campeão de votos. Na campanha de 2002,
quando se elegeu pela legenda do PT, obteve pouco mais de 40.000 votos e quase
ficou fora do Congresso. O ponto de
partida de sua atual popularidade é inequívoco. Em setembro do ano
passado, em discurso, enfrentou, de dedo em riste, o então presidente da
Câmara, Severino Cavalcanti. VEJA revelara dias antes que Severino recebia
propina do dono do restaurante da Câmara. A intervenção de
Gabeira pôs frente a frente o país da corrupção e do
atraso e o país inconformado com a situação. "Vossa excelência
está em contradição com o Brasil. Vossa excelência
na presidência da Câmara é um desastre para o Brasil. Vossa
excelência ou se cala ou vamos iniciar um movimento para derrubá-lo",
disse o deputado, com veemência, infelizmente, rara no Brasil. Três
semanas depois, Severino renunciou, derrubado por seu "mensalinho". Ana
Araujo
 | | Gabeira
de bicicleta, rumo ao Congresso, em Brasília: alternativo na política e no estilo
de vida |
O deputado Gabeira
teve participação decisiva na instalação da CPI dos
Sanguessugas e também na aprovação em primeiro turno do voto
aberto, há duas semanas. "Ele fazia o discurso de um grupo restrito, o
Posto 9 de Ipanema, era uma audiência muito pequena. Quando foi em cima
do Severino, teve a atenção de todo o eleitorado brasileiro, estava
falando para 100 milhões de pessoas", diz Ricardo Caldas, do Instituto
de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). Seu
prestígio na classe política se ampliou na mesma proporção.
Gabeira tem sido assediado por candidatos de outros estados e até
de outros partidos para gravar depoimentos a ser exibidos no programa eleitoral
gratuito. Até o momento, ele recusou. Mas vem aparecendo em quase todo
o Brasil pedindo votos para o PV, que está ameaçado de perder a
legenda por não atingir os 5% de votos exigidos pela cláusula de
barreira. "Eu não podia mais
ficar só pensando em grandes causas e continuar a me omitir em relação
à deterioração do Congresso", diz Gabeira. Quando Severino
começou a agir para impedir a punição dos mensaleiros, ele
decidiu partir para o tudo ou nada. A mesma convicção o moveu na
briga pela instalação da CPI dos Sanguessugas. Diante do desinteresse
dos presidentes da Câmara, Aldo Rebelo, e do Senado, Renan Calheiros (a
quem chamou de "chefe de quadrilha"), pela CPI, chegou à conclusão
de que seria impossível sobreviver sem tomar alguma atitude destinada a
interromper o processo de degradação do Congresso Nacional. Aos
olhos dos cínicos, a indignação de Fernando Gabeira é
um tanto suspeita. Por que ele não se levantou antes contra a bandalheira
que o cercava? Por que só reagiu agora? Gabeira já era parlamentar
quando se votou a emenda da reeleição de Fernando Henrique Cardoso,
processo que transcorreu sob o signo da suspeita de compra de votos. Não
se ouviu sua voz condenando nada disso. Diz Gabeira: "Achei que bastava não
me envolver com os corruptos e navegar ao largo da bandalheira até que
vi que o Congresso estava chegando ao fundo do poço". Os cínicos
continuam no direito de achar essa atitude de Gabeira um tanto alienada. Mas o
certo é que ele, mais vez, rompeu com algo que se tornara insuficiente.
Dessa vez rompeu com a ética passiva.
A nova frente de ação de Gabeira parte de um pressuposto. "Existe
um grupo ético pequeno, um patrimonialista, para ser muito eufêmico,
e muita gente indecisa, que pode votar com o lado ético nas decisões
vitais para o país", resume, pragmático, o deputado. Para o cientista
político Bolívar Lamounier, Gabeira é a figura mais habilitada
para levantar a bandeira da moralidade na política porque não vive
da política, mas para a política. Diz Bolívar: "Ele passou
por uma reflexão pessoal intensa, está pensando o mundo, pensando
sobre si mesmo. É de uma densidade que não se vê muito no
meio político. E sabe expressar suas idéias".
O ex-guerrilheiro tem, de fato, idéias concretas para o que considera o
sonho possível neste início do século XXI. Não se
tornou partidário do capitalismo, mas admite que não existe no mundo
atual nenhuma alternativa. "O que não se pode é propor algo mais
ultrapassado ainda para substituí-lo", pondera. O caminho que decidiu trilhar
é a defesa do desenvolvimento sustentado. No Brasil, isso significa modernização
do capitalismo, o que em sua opinião exige em primeiro lugar melhorar a
qualidade do gasto público, principalmente em saneamento e educação.
"Em alguns programas, a atividade-fim fica em alguns casos com apenas 10% do Orçamento.
O resto se perde na burocracia", afirma. "Isso reduz a capacidade de investimento
do Estado, que é a mais baixa desde o pós-guerra, e desestimula,
na seqüência, os investimentos privados." Para Gabeira, sem recuperar
a capacidade de investimento, que vai criar emprego e melhorar a renda, não
há programa social que funcione a contento para reduzir a pobreza. Oscar
Cabral
 | | Gabeira
em campanha no Rio: apontado e aplaudido como o homem que expulsou Severino Cavalcanti
do Congresso |
É fácil
achar elogios a Gabeira em figuras que, aparentemente, não compartilham
nenhuma idéia com ele. Caso do senador Antonio Carlos Magalhães,
do PFL da Bahia. "A diversidade é que faz o Congresso, e ele tem um bom
relacionamento com todo mundo", diz. A deputada federal Yeda Crusius, do PSDB,
participou com Gabeira do movimento Pró-Congresso, pela moralização
do Parlamento. Segundo ela, enquanto muitos estavam descrentes e querendo ir embora,
Gabeira foi um dos que seguiram pelo caminho contrário, pregando que era
hora de fazer resistência, e não de desistir. Diz ela: "Apesar de
radical, ele é uma pessoa bem articulada com a sociedade, sabe usar a tribuna
e tem um senso de oportunidade muito especial".
O cientista político David Fleischer, da UnB, sustenta que Gabeira catalisa
a esperança de que a crise de credibilidade dos políticos resulte
em melhores dias para o Brasil. Isso já aconteceu em outros países.
Ele cita como exemplo o caso dos Estados Unidos, que, após a renúncia
do presidente Richard Nixon, em decorrência do escândalo Watergate,
promoveram, a partir de 1977, um "saneamento político", com novas regras
de financiamento de campanha, entre outras medidas. Mais adiante, quando o presidente
Bill Clinton enfrentou acusações de que teria favorecido ex-financiadores,
o Congresso endureceu ainda mais as leis. Caso semelhante ocorreu na Alemanha,
que também apertou o cerco às contas de campanha depois do episódio
envolvendo o ex-chanceler Helmut Kohl, acusado de receber recursos indevidamente.
"Quase todos os países passam por altos e baixos. Os exemplos mostram que
é possível arrumar a casa", afirma Fleischer.
Gabeira resume com a lucidez que lhe é característica e a dose de
sonho que considera possível sua avaliação quanto ao futuro
do Congresso. Diz ele: "Minha tese é que estão dadas algumas condições
históricas para fazer do Congresso um espaço decente e produtivo.
Um espaço com o qual o novo presidente possa trocar idéias, e não
moedas". O eleitorado parece concordar. Na semana passada, Gabeira foi nadar num
clube carioca, como faz todas as manhãs, e encontrou a piscina lotada.
Pediu licença para usar apenas uma raia. Ouviu em resposta: "Quem expulsou
Severino Cavalcanti do Congresso pode usar até a piscina inteira". Gabeira
nada de braçadas.
LULA "Faço
a minha autocrítica. Blindamos o Lula com o argumento de que as pessoas
que achavam que ele dizia coisas sem sentido eram preconceituosas. Temos de acabar
com o elogio da ignorância." Setembro
de 2005 AG.
JB
 | | Entre
Suplicy e Lula, ainda companheiros de legenda: em 2003, a discordância com as
práticas do PT no governo e no Congresso levou Gabeira a romper com o partido
|
SONHO
"Não digo que meu sonho acabou. Digo
que sonhei um sonho errado." No discurso em
que anunciou à Câmara seu desligamento do PT, em 2003 Dida
Sampaio/AE
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SEVERINO "Vossa
excelência está se comportando de maneira indigna com o cargo de
presidente da Câmara. Vossa excelência está em contradição
com o Brasil. Vossa excelência na presidência da Câmara é
um desastre para o Brasil. Vossa excelência ou se cala ou vamos iniciar
um movimento para derrubá-lo." Agosto
de 2005 MENSALÃO
"Lula tenta repetir Júlio César, mas
não consegue, porque teria de reformular a frase célebre, dizendo:
'Até tu, quem?'." Sobre as declarações
de Lula de que "não interessa se foi A, B ou C" que lhe deu uma "facada
nas costas" com o mensalão IDEOLOGIA
"Vários mitos caíram. A ausência
de um mito messiânico da classe operária permite concluir que não
temos salvadores, o que é um avanço. A decadência moral em
que parte da esquerda se meteu mostra que ela não é o bem absoluto.
Fica demonstrado também que a direita não é o mal absoluto.
Abre-se espaço para novas conformações políticas"
2005 Ag.
JB
 | | Memórias
da luta armada: com os companheiros de guerrilha, logo antes de embarcar para
o exílio (acima), na Suécia (abaixo, à esq.)
e no retrato falado, após o seqüestro do embaixador americano | Nestor
Noya
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GUERRILHA
"O que fiz com a minha habilidade para atirar?
Derrubava maços de cigarros nos parques de diversões." 1995
IMAGEM "É
impossível alguém defender as posições que defendo
e não ser chamado de veado ou maconheiro. Existe aquela tendência
a te associar às coisas e a te catalogar e estigmatizar. Mas isso não
me incomoda." 1995 | |
10 dicas para identificar o mau candidato
A principal recomendação de Fernando Gabeira é muito simples:
"Procure saber quem ele é". Os itens em que o eleitor deve ficar de olho
são: BIOGRAFIA
Compare o que ele diz com o que ele realmente é. O Google pode
ajudar HONESTIDADE Cuidado
com quem, diante de uma acusação, alega apenas estar sendo vítima
de perseguição ACESSIBILIDADE
Deu tapinha nas costas mas não prestou a mínima atenção
no que você disse? Esqueça TRANSPARÊNCIA
1 Se as contas de campanha não são claras, a atuação
parlamentar provavelmente também não será
TRANSPARÊNCIA 2 Se é candidato à
reeleição e você não tem idéia do que ele fez
nos últimos quatro anos, é melhor escolher outro
AUTOCRÍTICA Quem diz que nunca errou só
pode estar mentindo IDÉIAS
Desconfie de quem não diz como vai cumprir o que promete
PLANOS Atenção a quem se candidata
a um cargo eletivo já pensando na eleição seguinte
BRASIL Essa é óbvia.
Não se pode legislar sobre um país que não se conhece a fundo
DEMOCRACIA Diz-se
um democrata mas aplaude ditadores? Pode usar o mandato para defender medidas
autoritárias | | 
Com
reportagem de Marcelo Bortoloti e Ronaldo Soares |