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Entrevista:
Dick Pound O
doping será vencido Odiado por
atletas e dirigentes, o presidente da Agência Mundial Antidoping anuncia
testes contra a trapaça genética
 André
Fontenelle
Andre Forget/AFP
 | "Não
se trata apenas de um atleta aqui e outro ali. Há equipes, médicos e treinadores
trabalhando juntos para enganar" | |
Um dos homens mais odiados do esporte é o advogado canadense Richard Pound,
"Dick" para os amigos e inimigos. Esse ex-nadador de 64 anos é o presidente
da Agência Mundial Antidoping (AMA) desde que a entidade foi criada, em
1999. Nessa condição, comprou briga com gente poderosa do esporte,
a quem acusa de falta de interesse em perseguir e punir atletas que usam substâncias
proibidas. Desentendeu-se, por exemplo, com Sepp Blatter, presidente da Fifa,
até que a entidade máxima do futebol se curvou ao Código
Mundial Antidoping. Há quem diga que Pound está ultrapassado e defende
uma causa inglória, pois o doping nunca pareceu tão propagado. Para
ficar apenas num exemplo recente, em agosto o velocista americano Justin Gatlin
perdeu o recorde dos 100 metros livres, que igualara em maio, e foi suspenso por
oito anos por uso de esteróides. Nesta entrevista, Pound se define como
um "idealista cínico" que sonha com um esporte limpo como no tempo em que
foi atleta olímpico. Nos Jogos Olímpicos de Roma, em 1960, foi sexto
colocado na final dos 100 metros nado livre, em que o brasileiro Manoel dos Santos
foi medalhista de bronze. Como prova de seu otimismo, anuncia para breve um teste
contra a nova ameaça o doping por manipulação genética.
Veja Casos
de grandes atletas, como Justin Gatlin, provam que o doping não pode ser
vencido? Dick Pound Não. O doping é um grande
problema, mas temos feito progressos, como se pôde ver nas investigações
recentes na Espanha, na França e na Itália (em que a polícia
desbaratou redes de fornecimento de drogas a atletas). Não se trata
apenas de um atleta aqui e outro ali tomando substâncias proibidas. Há
equipes, médicos e treinadores trabalhando juntos para enganar. Para enfrentá-los
é preciso uma combinação de esforços: programas de
teste reforçados e uso do poder investigativo das autoridades públicas.
Veja Isso
significa que a luta antidoping virou caso de polícia? Dick Pound
Significa que é preciso lançar mão de todos os
poderes disponíveis. Sabemos quem são os atletas e onde eles estão.
Sabemos mais ou menos o que eles tomam e quem são seus treinadores. Mas
não temos o poder de fazer apreensões e intimar testemunhas.
Veja Treinadores
e médicos também devem ser suspensos? Dick Pound
As regras do esporte já prevêem isso. O difícil é
obter provas. Com atletas é fácil: se a prova e a contraprova dão
positivo, acabou. Mas com técnicos e médicos é mais complicado.
Por isso estabelecemos na agência um modelo que inclui a ajuda de autoridades
públicas. Veja
Em centenas de testes na última Volta da França de ciclismo houve
apenas um caso positivo, o do campeão, o americano Floyd Landis. O senhor
acha que ele foi o único a se dopar? Dick Pound Tenho
certeza de que não. Veja
Como o senhor explica, então, só uma descoberta? Dick
Pound Sempre tivemos dificuldades com os procedimentos da União
Ciclística Internacional (UCI). Ao ser chamado para o teste, o atleta tem
até uma hora para se apresentar à sala de exame. Nesse lapso de
tempo, fica sem nenhuma escolta. É tempo demais para quem quer manipular
o teste, tomando substâncias mascarantes, por exemplo.
Veja O que o senhor acha das desculpas que
atletas como Landis e Justin Gatlin dão para seus casos? Dick
Pound Precisamos ouvi-las, mas não precisamos acreditar nelas.
Landis deu cinco ou seis explicações diferentes entre a prova e
a contraprova. Primeiro, que era testosterona natural. Segundo, que foram umas
cervejas. Terceiro, que foi uísque. Quarto, que foi excesso de exercício.
E assim por diante. Ele terá, na apelação, oportunidade de
apresentar desculpas e veremos se os juízes vão aceitá-las.
Algo me diz que não. Veja
Landis alegou que foi testado oito vezes antes e todos os resultados
foram negativos. Como isso é possível? Dick Pound
O nível de testosterona estava dez vezes acima do normal. Se essa fosse
a condição normal do atleta, teria aparecido em testes anteriores.
E isso nunca aconteceu, ponto final. O resultado positivo aconteceu no dia seguinte
a uma etapa desastrosa, em que ele perdeu algo como oito minutos. Foi um dia de
um esforço heróico, em que ele reduziu a diferença a menos
de 30 segundos. Um desempenho fantástico, justamente no dia em que se achou
a testosterona. Diante dos fatos não há desculpas.
Veja Por que o senhor acusa a União
Ciclística Internacional de não enfrentar o problema? Dick
Pound É uma evidência. Quando se vê que a organização
da Volta da França deste ano teve de excluir o segundo, o terceiro, o quarto,
o quinto e o sexto colocados de 2005 e que a prova e a contraprova do vencedor
deram positivo, é sinal de que o problema está fora de controle
e que a UCI foi incapaz de agir. Veja
Por quê? Medo de prejudicar o próprio negócio? Dick
Pound Imagino que essa seja uma possibilidade. Para mim, é muito
estranho que uma organização de grande importância e abrangência
como a UCI não consiga encontrar nenhum atleta dopado em seus testes.
Veja O senhor também acusou a Fifa
de não fazer o suficiente contra o doping. Que esportes estão atrasados
nesse aspecto? Dick Pound O caso com a Fifa foi que, embora
tenha adotado o Código Mundial Antidoping, ela não mudou suas regras
internas. Continuamos pressionando por mudanças porque a Fifa representa
o esporte mais popular do planeta, que tem doping como qualquer outro. O atletismo,
o halterofilismo e a natação também têm problemas.
Nenhum esporte tem doping zero. Veja
Atletas acusados têm contratado advogados caros e agressivos
que contestam o procedimento dos exames. Isso ameaça a luta antidoping? Dick
Pound Não. Se os atletas quiserem gastar o dinheiro deles com
advogados caros, ainda assim vão acabar perdendo. Esse foi o caso de Tyler
Hamilton (ciclista americano suspenso quando um teste detectou sangue de outra
pessoa em sua amostra) e de Tim Montgomery (americano que teve cassado
o recorde mundial dos 100 metros rasos). Provavelmente Floyd Landis vai pagar
muito por um advogado. Seu teste também demonstrou que a testosterona,
além de elevada, não era de origem natural. Chega uma hora em que,
por melhor que seja o advogado, não se pode fugir das evidências.
Veja No ano passado
revelou-se que amostras da urina de Lance Armstrong, colhidas em 1999, tinham
a proibida eritropoietina (EPO). Por que ele não foi punido? Dick
Pound Tudo o que posso dizer é que o caso não foi totalmente
explorado. O laboratório francês tinha amostras congeladas de 1998
e 1999. Elas foram analisadas anonimamente, para fins de pesquisa, e quinze deram
positivo para EPO, substância que não podia ser detectada em 1999.
Repórteres do jornal L'Équipe obtiveram não
sei como cópias dos testes de Armstrong na época, cruzaram
números e publicaram a manchete "Armstrong, a fraude". Dissemos à
UCI que, se as regras da entidade permitissem uma desclassificação
com base nisso, eles deveriam assumir suas responsabilidades e tomar uma decisão.
Tudo o que fizeram foi protestar pelo vazamento das informações.
Veja O senhor
foi acusado de responsabilidade por esse vazamento. Dick Pound
A AMA foi criada em 1999 e não poderia ter os formulários dos testes
de Armstrong daquela época. Veja
Um relatório de um especialista contratado pela UCI inocentou
Armstrong. Dick Pound É claro que o relatório
foi tendencioso. E não o inocentou de verdade. Disse apenas que havia a
possibilidade de manipulação errada no laboratório francês.
Mas se trata de um dos melhores laboratórios do mundo. Eles são
muito cuidadosos. Se disseram que havia EPO nessas amostras, é porque havia
mesmo. Veja É
difícil confrontar atletas que são ídolos em seus países,
como Armstrong, que o chamou de "antiético"? Dick Pound
Essa é uma das razões pelas quais criamos uma agência
internacional e independente. Depois do caso Festina (em que a equipe foi pega
no maior escândalo de doping da história do ciclismo, em 1998),
ninguém confiava mais na UCI. Depois que Juan Antonio Samaranch (então
presidente do Comitê Olímpico Internacional) deu uma famosa declaração
(minimizando o caso Festina), ninguém confiava mais no COI. E nenhum
país confiava no outro para punir seus próprios atletas. Então
concluímos que a única solução era criar uma agência
absolutamente independente. Veja
O jornal inglês Financial Times defendeu a liberação
do doping. O que o senhor responde a essa proposta? Dick Pound
Acho que é a procura de uma solução fácil para
um problema complicado. Deve-se ter em mente que as pessoas não se dopam
para ficar iguais às outras, e sim para obter vantagem. Se todo mundo estiver
tomando 10 gramas de estanozolol (um esteróide proibido), que tal
se eu tomar 20, 30 ou 40 gramas? Embarca-se em um círculo vicioso. Além
disso, não se pode limitar a questão a uns poucos atletas de nível
mundial, porque a mensagem resultante para tornar-se um grande esportista,
você tem de fazer isso chegaria aos jovens no ensino médio.
De repente, haveria 2 milhões ou 3 milhões de jovens tomando drogas
e se teria um problema de saúde pública, mais que qualquer outra
coisa. Veja Sua
agência tem feito algo contra o doping genético? Dick Pound
O doping genético é uma possibilidade concreta. Provavelmente,
dentro de poucos anos ele será usado. Mas a diferença em relação
ao doping tradicional, se é que posso chamá-lo assim, é que
a agência não está esperando que ele se torne problema antes
de procurar uma solução. Da década de 1960 à de 1990,
o movimento esportivo deixou o doping tradicional fugir do controle. Agora, começamos
quatro anos atrás a nos encontrar com os principais geneticistas do mundo.
Acho que teremos um teste simples disponível na época em que começarem
a usar o doping genético. Chegaremos na frente.
Veja Isso já acontecerá nos
Jogos de Pequim, em 2008? Dick Pound Talvez seja um pouco
cedo demais, mas quem sabe? Estamos financiando e encorajando pesquisas e trabalhando
ao máximo para produzir um teste não invasivo que possa determinar
a diferença entre genes originais e alterados.
Veja O senhor pode dar mais detalhes? Haveria
um banco de DNA de atletas? O teste seria com amostras da saliva? Dick
Pound Não posso dar esse tipo de detalhe. Sou apenas um advogado
tributarista, não entendo muita coisa a respeito dos detalhes científicos.
Mas sei que será algo simples. Veja
Dias antes das Olimpíadas de Atenas, em 2004, o senhor anunciou
um teste para detectar hormônio de crescimento humano, o que teria feito
muitos atletas desistir de competir. A ameaça pode dissuadir trapaceiros? Dick
Pound Nós realmente dispúnhamos de um teste para HGH.
Foi assim que Tyler Hamilton foi pego no ciclismo. Mas infelizmente houve um erro
de manipulação da contraprova no laboratório e ele não
perdeu a medalha de ouro. Depois não pudemos fazer mais testes, e não
basta fazê-los apenas na época das grandes competições.
É preciso ir aos treinamentos, sem aviso prévio, mas não
temos anticorpos de HGH suficientes. Trabalhamos com a indústria farmacêutica
para produzir a quantidade adequada a um número maior de testes.
Veja Havia doping
no seu tempo de atleta? Dick Pound Não. Isso começou
com os levantadores de peso e os arremessadores de peso, disco e martelo no fim
dos anos 1960. Até 1968 não havia sequer exames antidoping nos Jogos
Olímpicos. Na natação, o máximo que fazíamos
para obter vantagem sobre os adversários era depilar as pernas.
Veja A revista inglesa
The Economist chamou-o de "idealista nos moldes vitorianos". Sua luta não
é utópica? Dick Pound Estão me chamando
de velho? Gosto de pensar em mim mesmo como um idealista cínico. Sei como
o esporte deveria ser, mas sou cínico o bastante para saber que há
pessoas que farão qualquer coisa para vencer. Acho que isso destrói
o esporte e é injusto com os outros competidores.
Veja Quais os maiores desafios da luta antidoping? Dick
Pound O primeiro é que muitas federações internacionais
parecem não insistir para que os países afiliados tenham programas
antidoping efetivos. O segundo é que levará muito tempo até
que o público compreenda os perigos éticos e físicos do doping.
A Interpol dispõe de uma estatística segundo a qual o mercado das
substâncias dopantes, como os anabolizantes, é maior que o tráfico
de maconha, o de cocaína e o de heroína combinados.
Veja Isso não prova que tentar detê-lo
é uma utopia? Dick Pound Não. O problema é
que as autoridades sempre se concentraram nas chamadas drogas recreativas, como
a maconha. Vai levar tempo para pensarem nos esteróides e começarem
a processar quem compra, tem ou vende substâncias do gênero. Por outro
lado, é verdade que a entrada do crime organizado nesse mercado só
complica as coisas. Veja
O senhor presidiu o comitê que investigou a atribuição
dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 a Salt Lake City, quando membros
do COI receberam presentes em troca de votos. O doping não seria apenas
um aspecto da corrupção generalizada no esporte? Dick
Pound O caso de Salt Lake City chegou perto, mas não chegou
a ser de corrupção. Foi de comportamento antiético. Ele mostrou
que existe um problema. Mas, assim como um alcoólatra só consegue
lidar com o problema a partir do momento em que o admite, será impossível
encontrar uma solução enquanto o esporte não fizer o mesmo.
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