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Luiz Felipe de Alencastro

Quinze anos de democracia

"O julgamento do caso Pinochet
equipara-se ao impeachment do
ex-presidente Collor. Dois acontecimentos essenciais no campo do direito, da prática
política e da maturidade democrática da
América Latina"



Ilustração Ale Setti


O crescimento regular do PIB brasileiro nestes últimos meses traz de volta o "orgulho economicista", que consiste em propalar a aptidão desenvolvimentista do governo. Na realidade, todos os governos dos países arrebatados pela fase atual de crescimento valorizam seus atos e fatos favoráveis ao aumento da riqueza nacional. É natural que seja assim. Mais ainda em nosso país, flagelado por longos períodos de recessão econômica.

Entretanto, nem todos esses países tiveram de lidar, como o Brasil, com a delicada tarefa de proceder, simultaneamente, à retomada do crescimento econômico e à consolidação da democracia. Uns, como a China, campeã das taxas de aumento do PIB, violam ultrajosamente as liberdades públicas. Outros, como a maioria dos países ocidentais, dispõem há muito tempo de instituições democráticas bem estabelecidas.

Vivendo na zona de sombra em que a democracia não é regra permanente e o autoritarismo pode surdir no horizonte, o Brasil e os outros países latino-americanos engajaram-se em reformas bem mais complexas de ser levadas a cabo. No momento em que a economia parece engrenar, é interessante conferir, ao menos em alguns países, os novos rumos da democracia na América Latina.

No Chile, a recente decisão da Corte Suprema sobre o caso Pinochet introduz um novo paradigma no direito e na política latino-americanos. Os magistrados chilenos levantaram a imunidade senatorial de Pinochet e, numa interpretação de grande alcance jurídico, consideraram que os oposicionistas desaparecidos durante a ditadura foram vítimas de um "seqüestro permanente", porquanto nem seus restos mortais nem suas pessoas foram localizados. Desse modo, o crime continua tendo curso e não pode ser coberto pela anistia decretada na época em que Pinochet estava no poder. Os assassinos e ladrões de cadáveres chilenos caíram na própria armadilha: o sumiço dado ao corpo de suas vítimas com o fito de apagar o crime tornou-o imprescritível. Os traumas causados pelas ditaduras do continente ainda não estão cicatrizados, como o demonstra a declaração da Igreja argentina, que, referindo-se aos capelães militares, pediu "perdão pela participação efetiva de seus filhos em sessões de tortura".

Outro ponto alto da história política na América Latina ocorreu no Brasil, que completa neste início de milênio um período de quinze anos seguidos de prática democrática. Aniversário que parece banal e tem ares de repeteco: de 1945 a 1964 o Brasil viveu um ciclo mais longo ainda de legalidade constitucional. Mas a comparação é inadequada. O período 1945 a 1964 permeou-se de tumultos (suicídio de Getúlio, tentativas de golpe de Estado) que prenunciavam a longa ruptura efetivada em 1964. O ciclo político 1985-2000 é realmente inédito na História brasileira, na medida em que seu momento mais grave – o impeachment de Collor – redundou num reforço da democracia. Recapitulando: o primeiro presidente eleito pelo voto direto desde 1960 deixa-se envolver numa rede de corrupção, a imprensa põe a nu os fatos, o Congresso cria uma CPI que aprofunda as investigações e esclarece o país ao vivo na TV, manifestações populares apóiam o trabalho dos parlamentares e o processo de impeachment é instruído em boa e devida forma no Senado. Encadeamento de feitos políticos irreprocháveis, perfeitamente conformes com os dispositivos da Constituição. Difícil imaginar outra época de nossa História em que esses fatos pudessem ter acontecido. Embora não tivessem faltado, evidentemente, presidentes corruptos no passado republicano brasileiro.

Nesse sentido, o julgamento da Corte Suprema sobre o caso do general Pinochet equipara-se, na sua significação mais ampla, ao impeachment do ex-presidente Collor. Dois acontecimentos essenciais no campo do direito, da prática política e da maturidade democrática da América Latina.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)

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