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Roberto Pompeu de Toledo

E se as Olimpíadas
fossem no Brasil?

Seria ocasião para marchas, índios
que bloqueiam estradas,
sem-terra
que ocupam a Vila Olímpica

Ok, a Austrália existe. É isto o que as presentes Olimpíadas têm de mais substancioso a oferecer: mostrar que a Austrália tem existência real. Não é mitológica como a ilha onde a ninfa Calipso acolheu o grande Ulisses. Tampouco é a ilha onde Camões, nos Lusíadas, faz seus heróis repousarem, depois da conquista das Índias, entre ninfas – e onde um deles, ao vê-las no meio das ondas, nuas, se precipita ao mar sem mesmo tirar as botas, "a matar na água o fogo que nele arde". Não, a Austrália não é mitológica – mas bem que poderia ser.

Mencionemos de passagem o fato de a Austrália ser a terra dos cangurus, um bicho que tinha tudo para ser dos domínios da ficção. Se não houvesse fotos, filmes e testemunhos idôneos de sua existência, quem acreditaria em canguru? Que categórico exemplar a zoologia mítica perdeu. Mas deixemos o canguru em paz, fixemo-nos de preferência na história. A Austrália começou sua carreira como terra de degredados. Não poderia ser mais extremo o contraste entre seu início e o dos Estados Unidos, embora ambos os países sejam obra de ingleses. Os Estados Unidos começaram como uma espécie de colônia religiosa, a terra prometida dos puritanos do Mayflower. É revelador o nome com que passaram a ser conhecidos os passageiros desse célebre navio: "peregrinos". O nome os equipara a quem faz uma viagem a um lugar santo. A Jerusalém, por exemplo, ou Santiago de Compostela.

Já a Austrália começa com a exportação maciça de condenados. Numa operação que envolveu vários navios de guerra, em 1778, 730 deles foram despejados em suas costas – 570 homens e 160 mulheres. E, depois desse ato inaugural, a remessa de degredados só se acelerou. Por volta de 1830, 58.000 tinham sido lá depositados. Se os Estados Unidos eram uma colônia religiosa, a Austrália era uma colônia penal. Não a ilha de Calipso, nem a de Camões, mas uma gigantesca Ilha do Diabo, uma Alcatraz, uma Ilha Grande. E, no entanto, que é a Austrália hoje? Um país próspero, pacífico, simpático – e com isso eis-nos de volta à mitologia. A Austrália é como a ilha de A Tempestade, de Shakespeare, onde se enfrentavam Ariel e Calibã, o primeiro o espírito do bem, etéreo e encantador, e o segundo o do mal. Tal qual na peça, houve um combate entre os dois. E no fim Calibã, que no caso australiano é representado pela maldição dos primeiros povoadores, é vencido por Ariel. A Austrália triunfou de seu destino. Não é, mas, dada sua trajetória, bem poderia ser um reino mitológico.

Ou não? Ou esta história está mal contada? Claro, há outro jeito de contá-la. Todas as histórias têm outros jeitos de ser contadas. A Austrália – este é outro jeito – era um paraíso onde viviam, na sua vida de natural inocência, pacíficos grupos primitivos, ali chamados, em vez de "índios", como na América, de aborígines. Tais aborígines, se a ocupação da terra deve ser revertida em título de propriedade, têm sobre ela muito mais direitos que os europeus. Eles lá se encontravam já fazia 40.000 anos quando os europeus despontaram no horizonte. Mas, desde então, perderam muito, quase tudo – terras, liberdade, vidas. Durante mais de meio século, e até recentemente – até 1970! –, tinha curso no país a política de lhes seqüestrar os filhos, para que fossem criados pelas famílias de origem européia. Contada por esse prisma, a história australiana vira legenda negra. A vitória de Ariel é a vitória racista dos brancos sobre os seres humanos de segunda que são os Calibãs.

A Austrália que se apresenta ao mundo nestas Olimpíadas é um país vencedor. Muito mais para a primeira do que para a segunda versão de sua história. No entanto, imagine-se por um momento que a Austrália é habitada por brasileiros. Ah, então – todos os holofotes na legenda negra! A rara oportunidade de estar no centro das atenções do mundo seria aproveitada de modo oposto ao que vem sendo feito pelos australianos. Manifestações, índios que bloqueiam estradas, padres que organizam plebiscitos. A Vila Olímpica ficaria sitiada pelos sem-terra, que ameaçariam invadi-la. No fim, da mesma forma como se concluiu, recentemente, entre nós, que não havia nada a comemorar, no transcurso dos 500 anos do Descobrimento, se concluiria que não havia por que realizar evento tão festivo como as Olimpíadas, num país tão indigno. E fim. Restaria recolher-se à vergonha de habitantes de uma terra maldita.

Não que o Brasil tenha poucos problemas, ou que a Austrália os tenha da mesma dimensão que o Brasil, mas vai se arriscar uma moral da história que agrega outro elemento, na comparação entre os dois países, além dos habituais dados econômicos e sociais: um país será tão vitorioso quanto se quer vitorioso. A Austrália é vitoriosa, entre outras razões, mas não a menor, porque se quer como tal. O Brasil não é, na mesma proporção, porque não se quer.

P.S.: Se esta página apresentou-se com enfoque parecido com o da semana passada, pede-se a compreensão do leitor. É que o país não mudou lá essas coisas nos últimos sete dias.

 

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