Artes e Espetáculos Livros

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Madonna e seu novo disco
A vitória da gordinha em No Limite
O filme em que as garçonetes fazem o show
A Festa do Bode, de Vargas Llosa

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

A ressurreição do ditador

Vargas Llosa traça um retrato
implacável do dominicano Trujillo

Tomás Eloy Martínez*

Há bibliotecas inteiras dedicadas à ascensão e à queda do generalíssimo Rafael Leónidas Trujillo Molina, ditador da República Dominicana de 1930 a 1961. Mas quem se aventurar nas páginas do último romance do peruano Mario Vargas Llosa, A Festa do Bode (tradução de Wladir Dupont; Mandarim; 450 páginas; 37 reais), poderá passar ao largo delas, pois este livro é a destilação prodigiosa de todo esse conhecimento. Mais ainda que os dados, importa aquilo que Vargas Llosa fez com eles: um retrato implacável do poder absoluto, num romance que se lê sem pausa do começo ao fim.

É preciso aproximar-se de A Festa do Bode em estado de inocência, deixando-se levar pelo autor sem perguntar a cada instante o que é mentira e o que é verdade, ou por que este ou aquele personagem, inspirado em algum bufão ou em alguma vítima do trujillismo, difere da pessoa real que lhe serviu de modelo. O que mais assombra em A Festa do Bode é o enorme trabalho de investigação, que sustenta o romance sem que jamais sejam notadas suas costuras. Como nos melhores textos de Vargas Llosa, aqui também assoma sua obsessão flaubertiana pelos detalhes que recriam o passado. Alguns sobreviventes recriminaram Vargas Llosa pela inexatidão desta ou daquela filigrana, baseados tão-somente nos registros da própria memória, sem no entanto considerar que o livro condensa centenas de documentos e aborda questões tão pequenas quanto o menu de restaurantes da década de 50.

Além de ressuscitar incontáveis memórias, este romance reúne também todas as técnicas e todos os gêneros freqüentados por Vargas Llosa, desde que estreou na literatura, com A Cidade e os Cachorros, até o recente Os Cadernos de Don Rigoberto. Ele é, de uma vez só, relato policial, melodrama, intriga política, história de uma conspiração, história de uma guerra e retrato de um ditador. Os tempos narrativos se movem com liberdade de um parágrafo a outro, sem que haja sobressaltos na leitura.

Mais de um crítico já indagou o porquê de Vargas Llosa ter decidido escrever um romance de ditador neste momento, 25 anos depois do surgimento de obras semelhantes, como O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez, ou Eu, o Supremo, de Augusto Roa Bastos. Creio que a resposta é esta: porque agora é mais oportuno que antes. Em 1974 e 1975, os romances de ditador eram uma resposta ao afã dos poderes absolutos em apropriar-se da verdade. Agora que estão renascendo os autoritarismos, sob o disfarce de democracias rotas e manipuladas – no Peru de Alberto Fujimori, na Venezuela de Hugo Chávez –, os extremos inverossímeis da tirania trujillista servem para recordar que a aceitação dos primeiros abusos acaba na aceitação de abusos piores. Nos anos descritos por A Festa do Bode, tudo o que havia na República Dominicana era propriedade de Trujillo e de sua família: as indústrias, as Forças Armadas, o sistema de educação, as terras cultiváveis e até as mulheres, sobre as quais o ditador e seus filhos exerciam poderes medievais. Nunca é demais recordar que esses desmandos ocorreram neste continente. Podem ocorrer de novo.


Reuters
Joaquín Balaguer: títere e, depois, herdeiro definitivo


Cada romance cria seu próprio universo. Sua única obrigação é engendrar uma verdade que tenha valor por si mesma. Esse prodígio é difícil de alcançar num romance que trabalha sobre o tecido da história recente, porque neste caso cada leitor acredita possuir uma verdade distinta, que contradiz a ficção. Em A Festa do Bode, Vargas Llosa permitiu-se todos os malabarismos e irreverências com a realidade, enriquecendo o romance com a entrada e saída de seres vivos que ainda escrevem a história no presente. O Joaquín Balaguer de 93 anos que, cego e surdo, acaba de candidatar-se à Presidência da República Dominicana pode agora comparar-se ao astuto Joaquín Balaguer do romance, presidente títere de Trujillo e seu herdeiro definitivo. Não há operação novelística mais audaz que a de converter o presente em fábula. Os personagens históricos estabelecem, em A Festa do Bode, uma relação dialética com a imaginação. Ernest Hemingway escreveu, no prólogo de Paris É uma Festa, que as ficções podem sempre iluminar com luz nova coisas que antes foram narradas como fatos. A operação alquímica de Vargas Llosa em A Festa do Bode vai ainda mais longe. O Trujillo que prevalecerá na memória dos latino-americanos é o hipnótico personagem do romance, não o das biografias.

* O argentino Tomás Eloy Martínez é crítico literário e romancista, autor de Santa Evita, entre outros livros.

 

Os tubarões são testemunhas

"A raiva surdia por todos os poros do corpo, rio de lava subindo até o cérebro, que parecia ferver. Sempre soubera controlá-la quando preciso: dissimular, mostrar-se cordial, afetuoso com o pior lixo humano, as viúvas, os filhos ou os irmãos dos traidores. Por isso ia cumprir trinta e dois anos levando nas costas o peso de um país. Ah, como era agradável deixar a raiva fluir quando não havia perigo para o Estado. As barrigas dos tubarões eram testemunhas de que ele não se havia privado desse prazer. Ele jamais havia se arrependido de nada."

Trecho de A Festa do Bode

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco