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A revolta dos doutores

Associações médicas entram em guerra
contra planos de saúde

Ricardo Galhardo e Cristina Poles

 
Roberto Voltan
Gracitelli: contra o limite de um atendimento por mês

Há uma guerra em curso no Brasil. De um lado estão a Associação Médica Brasileira e o Conselho Federal de Medicina, entidades que representam os 220.000 médicos em atividade no país. Do outro, as 3.000 empresas de medicina privada, que movimentam 25 bilhões de reais por ano. No meio do fogo cruzado, 40 milhões de pessoas, um quarto da população brasileira, que aderiram a planos e seguros de saúde para fugir da precariedade do sistema público. Os médicos acusam as empresas de fazer uma pressão intolerável para que eles peçam menos exames, indiquem menos cirurgias e optem por hospitais de segunda linha na hora de internar pacientes. Os planos e seguros, por sua vez, afirmam que muitos médicos exageram ao prescrever certos procedimentos, aumentando os custos dos tratamentos. Até pouco tempo atrás, essa guerra era travada nos bastidores. Começou a vir à tona há cerca de um mês, quando outdoors surgiram na cidade de São Paulo, pagos pelos representantes dos médicos. "Tem plano de saúde que enfia a faca em você. E tira o sangue dos médicos", diziam os cartazes. A partir desta semana, o embate esquentará. A campanha ganhará as ruas de outras cidades brasileiras e as entidades dos doutores lançarão sites na internet e serviços de atendimento telefônico 0800. Por meio deles, um médico ou um paciente que se sentirem lesados poderão registrar sua reclamação e ser orientados sobre quais medidas tomar. "As empresas estão passando por uma contenção de despesas, mas não pode haver prejuízo da qualidade de atendimento", tenta contemporizar Arlindo de Almeida, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo.


Ricardo Benichio
Rovela Jr.: recusou preço abaixo do custo e acabou sendo descredenciado


Essa é uma briga em que a razão se encontra em todo lugar e, conseqüentemente, em lugar nenhum. Os médicos não podem ser tolhidos no exercício de sua profissão – uma atividade que, é sempre bom lembrar, lida com o que há de mais precioso, a vida humana. Mas também não podem usar dessa prerrogativa para compensar as baixas remunerações que recebem dos planos. Alguns médicos mantêm acordos com laboratórios de análises clínicas, que lhes pagam um porcentual do que recebem dos planos de saúde a cada exame prescrito e realizado. Assim, quanto maior for o número de exames, mais os dois lados ganharão. Também é uma prática comum marcar consultas desnecessárias com um mesmo paciente, a fim de aumentar o caixa no final do mês.

Da parte das empresas, é inegável que permitem o acesso à saúde de uma massa de brasileiros que, sem elas, estariam malparados. Boa parte dos conveniados são assalariados humildes, cujos planos são pagos pelas firmas em que trabalham. No entanto, isso não lhes dá o direito de pagar aos médicos preços aviltantes por consulta – até porque, no limite, isso significa um atendimento pior aos clientes. Para se ter uma idéia, há profissionais que recebem apenas 10,50 reais para atender um paciente. Como o cliente particular é uma espécie em extinção, os médicos têm de sujeitar-se à tabela dos planos – oito de cada dez doutores brasileiros o fazem. As empresas alegam que, se aumentarem os honorários, terão de salgar ainda mais as mensalidades dos usuários. As entidades médicas retrucam que se trata de uma inverdade, já que a margem de lucro dos planos e seguros é astronômica. Para sustentar seu argumento, brandem um número: de 1996 até abril deste ano, a média de elevação das mensalidades foi de 93,4%, um índice bem maior que a inflação do período, que ficou em 41,6%. A Associação Brasileira de Medicina de Grupo contra-ataca. Diz que o aumento no período foi bem menor, da ordem de 51%.

As empresas erram, ainda, ao colocar sob suspeita todos os médicos credenciados. A maioria não utiliza expedientes escusos para faturar um pouco mais. Ao restringir o atendimento e punir indiscriminadamente quem ultrapassa os estreitos padrões estabelecidos, os planos de saúde podem lesar quem os sustenta – o consumidor. Há inúmeros casos contabilizados pela Associação Médica Brasileira. Recentemente um cardiologista de São Paulo teve o valor recebido por consulta reduzido de 20 para 4 reais. O motivo: em um mês, o doutor havia pedido cinco cateterismos. Pelas normas do plano em que está credenciado, ele só poderia ter solicitado um exame. Só que, dos cinco pacientes que se submeteram ao procedimento, quatro tiveram de sofrer cirurgias para colocação de ponte de safena ou desobstrução das artérias coronárias. Ou seja, os cateterismos eram necessários. Vitais. Se ele tivesse prescrito tomografias computadorizadas do cérebro, que nada têm a ver com sua especialidade, até daria para entender a retaliação da empresa. Mas ele é um cardiologista e o cateterismo, um dos procedimentos mais comuns na investigação da saúde do coração.

Outro exemplo: em março deste ano, o gastroenterologista Lacildes Rovela Jr., dono de uma clínica em São Paulo, recebeu uma carta de seu plano. A partir daquela data, dizia a carta, a empresa pagaria somente 60 reais por uma endoscopia, cujo custo pode chegar a 150 reais. Rovela não concordou com a decisão e, três meses depois, levou o troco: foi informado de que sua clínica fora excluída do plano. "Tive de interromper vários tratamentos", afirma ele. Na carta de desligamento, a empresa diz que a clínica foi descredenciada devido a um "melhor dimensionamento e distribuição geográfica" de sua rede de atendimento. As estratégias para pressionar os médicos são muitas (veja quadro). Há empresas que simplesmente proíbem que se atenda uma pessoa mais de uma vez por mês. "Se um paciente sofrer um acidente e, além de um ortopedista, precisar, por exemplo, de um cirurgião vascular, ele não poderá usar minha clínica. Isso é um absurdo", diz o médico Luiz Carlos Gracitelli, dono de um pronto-socorro de ortopedia em São Paulo. A queda-de-braço entre médicos e empresas promete ser dura.

 

 

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