Sob
pressão total
Terminada
a
festa de abertura
dos
Jogos, os
atletas brasileiros
têm
de
encarar a dura
caça às
medalhas
Dorrit
Harazim
AFP

VERDADE
Cavaleiros
com bandeiras da
Austrália avançam numa
das alegorias da cerimônia
de abertura: a hora
da verdade chegou |
Foi
o momento mais belo e poderoso da festa de abertura dos XXVII Jogos
Olímpicos de Sydney: Cathy Freeman, envolta em águas
e luzes no topo do estádio na Austrália, com a chama
da pira olímpica a seus pés. Pela primeira vez na
história dos Jogos, a tecnologia do espetáculo fez
com que a pira descesse até o nível do homem antes
de ascender aos céus. Sempre foi o contrário: para
acender a chama olímpica, o atleta tinha de galgar alturas
metafóricas. "Sou australiana, sou aborígine, sou
campeã", diz a corredora que nestasOlimpíadas carrega
um país, um povo e a própria carreira nas costas
ou melhor, nas passadas de estilo único, em que o calcanhar
quase toca nas nádegas e o joelho chega à altura do
peito. Duas vezes campeã mundial dos 400 metros e medalha
de prata em Atlanta (1996), Cathy, junto com a sensação
das piscinas, Ian Thorpe, está condenada a vencer em Sydney.
O resto de sua vida será afetado por menos de 49 segundos
da próxima segunda-feira, dia da final de sua prova maior.
Antonio Milena

FESTA
Desfile da delegação brasileira
com Sandra, do
vôlei de praia, como
porta-bandeira: promessa de ouro |
As Olimpíadas virtuais dos prognósticos, dos
medalhistas dados como certos podem ser cruéis para
o atleta. E se Ian Thorpe, de 17 anos, recém-saído
da adolescência, não conquistar as quatro medalhas
de ouro que a nação australiana em peso já
reservou para esse filho de Sydney? E se Marion Jones, a grande
e única estrela do atletismo americano, voltar
para casa com "apenas" quatro ouros? Nos Jogos Olímpicos
da Cidade do México (1968), o nadador Mark Spitz, que havia
alcançado alturas sem precedentes nos Jogos Pan-Americanos
do ano anterior, foi considerado um fracasso pelo seu país
por ter conquistado "apenas" duas medalhas de ouro (em provas de
revezamento), uma de prata e uma de bronze. Pela lógica das
Olimpíadas virtuais, ele deveria ter vencido cinco, seis
ou até sete provas. Spitz deu o troco quatro anos mais tarde,
em Munique, quando entulhou o peito com sete medalhas de ouro.
Para um país como a Austrália, onde a natação
é mais venerada que qualquer outro esporte, Ian Thorpe é
o ícone dos sonhos de 19 milhões de habitantes. Detentor
de nove recordes mundiais nos doze últimos meses, e prematuramente
sacramentado como o maior nadador da história, Ian teve os
Jogos de Sydney moldados para ganhar quatro ouros nos 200
e 400 metros livre, além de duas provas de revezamento. A
ponto de seu companheiro de equipe Michael Klim, recordista mundial
dos 200 metros livre em 1998, desistir de nadar a prova. Segundo
o técnico da equipe de natação australiana,
Don Talbot, a Austrália do ano 2000 pode reposicionar a linha
imaginária que dividia a natação mundial em
dois hemisférios os EUA e o resto do mundo. Os americanos,
sozinhos, já conquistaram 385 medalhas de natação
desde as primeiras Olimpíadas dos tempos modernos (1896),
e só foram vencidos uma única vez justamente
em Melbourne, Austrália, nos Jogos de 1956. A idéia
é repetir o feito, com Ian Thorpe à frente, embrulhado
no mítico maiô pele de tubarão e impulsionado
por seus pés tamanho 50. Sua estréia, logo no primeiro
dia após a abertura oficial dos Jogos, pararia a nação
da mesma forma que um jogo de futebol da seleção paralisa
o Brasil.
Nick Wilson/Allsport

TUBARÃO
O australiano Ian Thorpe com seu traje negro que imita pele
de tubarão: com ele cai na água a esperança de toda uma nação
|
Embora o estreante Thorpe tenha uma nação inteira
para satisfazer, ele sabe que sua vida olímpica não
se encerra em Sydney. Já para o veterano Alexander Popov,
também chamado de Príncipe da Velocidade, a pressão
é individual, interior, definitiva e única. "Se você
vence numa Olimpíada", diz Popov, "torna-se famoso. Se vence
duas, passa a ser um dos grandes. Se vence a terceira, você
entra para a História". Esta é sua terceira Olimpíada
e a aposta que fez consigo mesmo é sem precedentes: vencer
os 50 e 100 metros livre pela terceira vez consecutiva. Nascido
nas montanhas de Sverdlovsk, atual Ekaterinburgo, onde o czar Nicolau
II e sua família foram executados na revolução
socialista de 1917, Popov continua magnético. Não
fosse pela cicatriz que carrega no abdome (da linha da sunga até
a altura do umbigo), nada indicaria que esteve à morte quatro
anos atrás, após ser esfaqueado numa rua de Moscou.
O corpo esguio e o porte de quem se sabe belo não mudaram.
As feições eslavas que sugerem malícia e doçura
continuam enganosas: Alexander Popov é demolidor. Tem nervos
de aço e língua cortante. "Tenho minha própria
pele", diz apenas, com um sorriso letal, quando indagado sobre o
uso dos maiôs que imitam pele de tubarão. Nervos. Controle.
Domínio. Nesse terreno, ser veterano é decisivo
e ser Alexander Popov ajuda mais ainda.
O
brasileiro Edvaldo Valério da Silva Filho, de 22 anos, está
na outra ponta. Baiano de Salvador, nascido de família carente
e pai policial, Valério teve a sorte de cair nas mãos
do técnico Sérgio Silva, também baiano, emotivo
e generoso como seu abraço de urso. Estão juntos há
catorze anos, desde que "Bala" tinha 8 anos de idade e viajava 25
quilômetros com a mãe para as aulas de natação.
Competiu em muitas provas no mar para financiar sua participação
em campeonatos no Brasil. Mas chegou lá. Vice-campeão
de duas etapas do mundial de 50 metros livre, "Bala" estava escalado
para fechar o revezamento brasileiro dos 4 x 100 no dia da estréia
da natação posição tradicionalmente
alocada a Gustavo Borges, o melhor e o mais completo nadador brasileiro
de todos os tempos. "Tremer ele não vai", esperava seu treinador
às vésperas da prova. Mas a responsabilidade de fechar
um revezamento desse porte, somada à possibilidade de encarar
ninguém menos do que Ian Thorpe na perna final da prova,
pode ser aterradora para qualquer um.
O especialista brasileiro em salto em distância Nelson Ferreira
Júnior conhece as armadilhas da pressão olímpica
sobre novatos. Nos Jogos de Atlanta, em 1996, ele era considerado
o principal medalhável entre os 41 integrantes do atletismo
brasileiro. No dia da eliminatória, sentiu-se na obrigação
de começar de forma espetacular. Logo no segundo salto tentou
cravar uma distância de 8,50 metros quando a marca
necessária para chegar às finais era de apenas 7,90.
"Os dirigentes e a imprensa tinham muita expectativa, e eu não
quis decepcionar", conta o atleta. O resultado foi desastroso. Nelson
desabou sobre o tanque de areia com o músculo do quadríceps
da coxa direita rompido. Os Jogos para ele haviam acabado. Desta
vez, antes de chegar a Sydney, Nelson teve sessões de terapia
para ajudá-lo a controlar a ansiedade.
Por vezes a pressão psicológica se torna simplesmente
insuportável. Nos Jogos de Moscou, em 1980, Djan Madruga,
então estrela maior da natação brasileira,
foi eliminado da fase classificatória de sua prova mais forte,
os 1.500 metros, após ter conquistado uma medalha de bronze
no revezamento 4 x 200. Seu descontrole ocorreu no chamado "corredor
da morte", a sala de espera onde todos os adversários se
encontram pouco antes de ser chamados para a prova. Madruga contaria
mais tarde que seu adversário russo, o lendário Vladimir
Salnikov, o hipnotizara naquela sala. Para sorte do Brasil em Sydney,
ninguém intimida Gustavo Borges no corredor da morte. "Ali,
é Gustavo quem bufa e assume o controle total", diz o coordenador
técnico Ricardo de Moura.
"Em
Olimpíadas", explica Torben Grael, o nome maior do iatismo
brasileiro, "ninguém fala com ninguém, ninguém
olha para o lado, com medo de ser mal interpretado. Enfim, é
uma guerra, diferentemente dos campeonatos mundiais, em que não
existe tensão e tudo termina em chopadas e novas amizades.
Basta dizer que, dos cerca de 120 barcos da classe Star que costumam
competir nos Mundiais, apenas dezesseis estão aqui em Sydney.
Ou seja, só tem fera, não tem nenhum otário,
e qualquer um pode faturar." Para a carioca Adriana Behar e a cearense
Shelda Bede, consideradas imbatíveis nas quadras de areia
e citadas em todas as listas olímpicas virtuais como favoritas
ao ouro, a melhor forma de combater a pressão é montando
uma estrutura de fazer inveja a adversárias do mundo inteiro.
Elas chegaram a Bondi Beach com parte de sua equipe de onze profissionais
bancados pelo Vasco da Gama, que inclui uma técnica, quatro
auxiliares de preparação, três fisioterapeutas,
uma nutricionista, um preparador físico e um ortopedista.
Nenhuma outra dupla, nem entre os homens, tem estrutura semelhante,
que custa 20.000 dólares mensais.
Antonio Milena

TENSÃO
O psiquiatra e consultor organizacional Roberto Shinyashiki
faz uma preleção para os nadadores brasileiros: a tensão pode
paralisar |
O
velocista Claudinei Quirino da Silva conta que em seu primeiro grande
triunfo internacional conquistou o 5º lugar no Mundial
de Atletismo de Gotemburgo, Suécia, em 1995 terminou
a prova com os nervos em frangalhos. Não conseguira dormir
direito nem se alimentar na véspera e acabou desmaiando após
cruzar a linha de chegada. "Eu nunca havia visto um estádio
cheio e fiquei impressionado com as roupas incrementadas dos americanos,
com o jeito de eles se aquecerem, gritando e olhando para os outros
atletas para intimidar", lembra o atleta. Em Sydney, a pressão
já não é mais a do calouro deslumbrado, mas
a de um dos favoritos de sua prova, a corrida de 200 metros. "Digo
a Claudinei que em primeiro lugar ganhar ou perder nas Olimpíadas
é uma coisa que só diz respeito a ele", explica o
chefe da equipe de atletismo, Sergio Coutinho Nogueira. "E, em segundo
lugar, que ele não tem nada a perder em Sydney. Se fracassar,
nada mudará, o contrato que tem (de 9.000 reais) será
mantido e sua carreira continua do jeito que está. Mas, se
conquistar uma medalha olímpica, tem chance única
de ganhar fama e dinheiro."
Antonio Milena

SEM
OTÁRIO
O formidável iatista brasileiro Torben Grael batiza seu barco:
"Aqui não tem otário. Ninguém nem olha para o lado" |
"Já
está tudo escrito", conclui Gustavo Borges. "Você sempre
tem de nadar como se fosse a última vez." Muitas são
as vidas marcadas pela fortuna. Outras trazem nos genes a propensão
para a fama. Freqüentemente, fama e fortuna se alimentam uma
da outra. Mas glória é algo maior bem mais
passageiro e elusivo, e por isso mesmo tão cobiçado.
Para os 10.305 atletas que começaram a se medir na Austrália
na semana passada, esta pode ser a chance de suas vidas. "As Olimpíadas
não têm dono", costuma dizer Ricardo de Moura. Todos
buscam uma fatia da glória disponível em Sydney.
|
Tempestade
de última hora
Antonio Milena

Xuxa com Michael Lohberg: o atleta escolhe
|
Marola às vésperas decompetição
nunca é bom. Justo quando os nadadores se preparavam
para o ritual de raspar o pêlo e submergir no noticiário,
para só reaparecer com glórias ou derrotas na
piscina, uma palavra maldita escapuliu de dentro da equipe
brasileira e se esparramou entre atletas e dirigentes: doping.
O falastrão? Michael Lohberg, um dos três técnicos
estrangeiros que integram a equipe de natação
do Brasil. "Hoje em dia", comentou de supetão Lohberg,
"o atleta tem duas escolhas. Ou ele decide que vai competir
porque gosta do esporte, e dá seu máximo na
piscina, ou ele decide que vai ganhar medalhas e para isso
precisa se dopar. Sem drogas não há medalhas."
Ponto.
Mario Andrada e Silva, o repórter da agência
noticiosa Reuters que anotava com espanto as palavras de Lohberg,
perguntou-lhe se era isso mesmo que ele queria dizer. Era.
Tinha mais: "Os testes antidoping anunciados em Sydney são
uma bobagem... Só um perfeito panaca consegue ser pego
em testes como esses". Estava formado o barraco olímpico.
Lohberg, que já foi técnico da equipe de natação
da Alemanha e hoje treina os brasileiros Fernando Scherer,
Fabíola Molina e Rogério Romero nos Estados
Unidos, recebe 3 500 dólares da Confederação
Brasileira de Desportos Aquáticos para acompanhar Xuxa
até o final das provas em Sydney. Mesmo valor que recebem
os outros dois técnicos americanos da seleção
brasileira (Dennis Dale e Joe Goeken) e o brasileiro Luiz
Eduardo Raphael, por treinar possíveis medalhistas.
"O
que ele falou todo mundo sabe que existe", diz Xuxa, determinado
a defender seu técnico dentro e fora d'água.
O brasileiro Eduardo de Rose, membro da Comissão Médica
do Comitê Olímpico Internacional e encarregado
do controle antidoping, foi mais cauteloso. "Se ele está
querendo dizer que existem possibilidades de doping que não
estão cobertas pelo controle, nós já
sabíamos disso. Mas, para dizer o que está dizendo,
com certeza ele sabe de coisas que não sei."
Para os australianos, que lançam à água
sua mais poderosa esquadra de natação dos últimos
quarenta anos, a acusação de Lohberg soou indigesta.
"Esse tipo de declaração não passa de
desculpa esfarrapada (para não ganhar medalhas)", reagiu
o presidente da Federação Australiana de Natação,
Terry Gathercole. O chefe da equipe de natação
da Austrália, Don Talbot, argumenta que haveria motivos
de preocupação se, de uma hora para outra, nadadores
começassem a fazer os 100 metros livres em 45 segundos
(o recorde mundial, de Alexander Popov, está em 48s21).
Vale registrar, contudo, que dezoito recordes mundiais de
natação foram quebrados nos últimos três
meses.
Dentro da própria equipe brasileira houve um racha.
"Estou chocado. O que é que eu vou dizer a minha garotada?",
pergunta o técnico baiano Sérgio Silva, que,
aos 49 anos, faz sua estréia olímpica ao lado
do extraordinário Edvaldo Valério, o Bala, de
22 anos. "O que você fala você não engole
de novo. Lohberg está credenciado com o uniforme do
Brasil, e nós não trabalhamos dessa forma."
No fundo, a trapalhada de Lohberg é mais de forma do
que de fundo. Indagado se numa final olímpica dos 100
metros rasos todos os atletas talvez estejam correndo dopados,
o técnico de atletismo brasileiro Nélio Moura,
responsável pelo desempenho de Maurren Maggi, não
se esquivou. "Posso até admitir que seja verdade, mas
tenho de me convencer de que não é assim, senão
meu trabalho como técnico ficaria comprometido."
Doze anos atrás, Joaquim Cruz, medalha de ouro nos
Jogos de Los Angeles (1984) e maior corredor do atletismo
brasileiro, deu sua opinião sobre a generalização
do doping e pagou caro por ela. O cenário era as Olimpíadas
de Seul (1988), convulsionada pela descoberta de que a estrondosa
vitória do velocista canadense Ben Johnson nos 100
metros rasos fora uma fraude. Joaquim já havia abocanhado
uma medalha de prata na prova dos 800 metros e se preparava
para correr os 1.500 quando foi entrevistado sobre o assunto.
"Florence Griffith Joyner era muito feminina no início
da carreira. Hoje ela parece um homem", comentou o atleta
na ocasião.
|
Com
reportagem de Maurício Cardoso e Sérgio
Ruiz
|