Não
me mandem esse lixo!
O
comércio pirata de endereços eletrônicos
escancara a falta de privacidade na rede
Nilson
Vargas e Elen Peterson
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Liane Neves

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| Eduardo
Hartz, da MD Brazil, e a lista dos 2,2 milhões de e-mails que
sua empresa vende |
Se
você não agüenta mais a avalanche de mensagens
que abarrota sua caixa postal de propagandas, correntes, pirâmides,
boletins e todo tipo de lixo digital, aí vai um consolo:
segundo o Gartner Group, um dos principais institutos de pesquisa
sobre a internet, nove em cada dez usuários de correio eletrônico
recebem por semana pelo menos uma dessas mensagens indesejadas.
Elas são conhecidas como spam. É uma marca de presunto
enlatado americano. Numa das comédias do grupo inglês
Monty Python, um grupo de vikings, reunidos numa taberna, pede irritantemente
"Spam, Spam, Spam". Para muitos internautas é isso mesmo
que acontece. Os spams não param de chegar à caixa
postal e fazem a internet ficar com o gosto ruim de comida enlatada.
O problema maior é que, muitas vezes, para alcançar
o destinatário, os responsáveis por malas diretas
digitais invadem a vida das pessoas sem pedir licença, seguindo-as
pela rede.
Oscar Cabral
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| Diomar
Oliveira: pelo menos cinqüenta spams e vinte minutos de
trabalho perdidos por dia |
Basta ter um endereço eletrônico para se tornar um
alvo dos spams. Diomar Oliveira, gerente de marketing da Hermes,
uma empresa que vende produtos por catálogo, se considera
uma vítima preferencial dessa praga digital. Ele recebe em
média 150 e-mails por dia, dos quais perto de cinqüenta
são indesejáveis. Abrir essas mensagens, conferir
o conteúdo e mandá-las para a lixeira é uma
atividade que consome pelo menos vinte minutos do dia de trabalho
de Oliveira. Não é pouco. Considerando-se a faixa
de salário que o mercado paga a um profissional de seu porte,
esse tempo equivale, para a empresa, a jogar perto de 25 reais fora
todos os dias. "A invasão é um preço que pagamos
para usar essa ferramenta poderosa, que é o correio eletrônico",
resigna-se Oliveira.
A
comunicação pela internet facilitou a vida de quem
faz propaganda. É muito mais barato enviar 100.000
e-mails do que imprimir e distribuir 100.000
folhetos. Segundo pesquisa da Jupiter Communications, uma campanha
publicitária via correio eletrônico custa menos de
10% do valor de uma campanha convencional, por mala direta. Além
disso, pode ser montada e disparada em cinco dias, enquanto a outra
exige pelo menos um mês. O índice de resposta às
mensagens também é muito maior 40% para o e-mail
contra 0,5% para o correio normal. As vantagens são tantas
que estimulam igualmente as boas e as más iniciativas de
quem vê na rede um canal eficiente de propaganda. "A dificuldade
é estabelecer padrões éticos que protejam o
direito à privacidade, sem inviabilizar a utilização
comercial dos dados das pessoas", resume Peter Rosenwald, presidente
do conselho consultivo da Federação Brasileira das
Associações de Marketing Direto e Interativo (Febamdi)
e vice-presidente de marketing direto do Grupo Abril.
A
invasão da privacidade eletrônica já está
dando briga nos tribunais. Nos Estados Unidos, os clientes foram
à luta para impedir que a Toysmart, uma loja virtual de brinquedos
que faliu no início do ano, vendesse seu banco de dados para
pagar os credores. A operação significaria abrir para
outras empresas informações confidenciais, como endereços
eletrônicos, números de cartão de crédito
e hábitos de consumo de 190.000
pessoas que se haviam cadastrado no site. A Justiça decidiu
que o banco de dados só será liberado para quem comprar
a loja. No começo de setembro, a Amazon, maior livraria virtual
do mundo, deu sua contribuição para alimentar a polêmica
ao anunciar que poderá compartilhar informações
de seus clientes com parceiros comerciais.
O
Brasil ainda não registra episódios desse porte, mas
já abriga um comércio efervescente de cadastros eletrônicos.
Algumas empresas mantêm funcionários navegando o dia
inteiro à cata de e-mails. Eles estão disponíveis,
por exemplo, em sites nos quais pessoas deixam seus currículos
à procura de emprego. Coleções de endereços
podem ser capturadas também nos grupos de discussão
de que participam diversos internautas. Existem, ainda, listas públicas
de endereços, como as do serviço de e-mail gratuito
hotmail e as de programas de bate-papo em tempo real, do tipo ICQ.
Não
satisfeitos com essa grande oferta, alguns caçadores de endereços
eletrônicos recorrem ao que se convencionou chamar "ataque
de dicionário". O remetente associa a palavra Pedro, por
exemplo, a nomes de dezenas de provedores. A chance de que boa parte
das mensagens chegue a endereços "pedro@nome do provedor"
é grande. Os catadores de e-mails contam ainda com a ajuda
dos sites que reúnem endereços de pessoas jurando
nunca divulgá-los, mas que, na primeira oportunidade, acabam
vendendo seus cadastros.
"Temos
um arquivo com 1 milhão de endereços brasileiros para
a sua mala direta via internet", promete uma empresa que
não por acaso usa um spam para vender seu produto. No site
indicado na mensagem é possível comprar o tal arquivo
por 250 reais. O repertório de e-mails da MD Brazil, de Santa
Maria, Rio Grande do Sul, é mais rechonchudo ainda. São
2,2 milhões de endereços, uma relação
que, para ser mostrada, requer um campo de futebol. O sócio
da empresa, Eduardo Hartz, admite que não pede autorização
do internauta para incluí-lo na lista. Mas não acha
isso errado. "Concordo que devam existir normas. Quando existirem,
eu seguirei. Por enquanto, quem não quiser receber mensagens
que aprenda a defender seu e-mail", aconselha.
Por
causa dessa objetividade implacável, o site da MD, que também
usa o nome Infosat, é um dos setenta condenados pela organização
não-governamental Movimento Anti-Spam Brasileiro. "O usuário
precisa autorizar o uso de seu e-mail para figurar em uma lista",
diz o analista de segurança de redes Hermann Wecke, integrante
do movimento, que tem entre seus inimigos endereços sugestivos,
como www.anonimo.com.br,
especialista em enviar spam às toneladas. A guerra contra
o spam tem adeptos em todo o mundo. Eles se reúnem em sites
como www.cauce.org
e Death to Spam (Morte ao Spam).
A
falta de normas, usada como escudo por empresas que vendem cadastros,
é uma das grandes polêmicas da internet brasileira.
Três projetos de lei sobre o tema esperam votação
no Congresso. Eles fixam multa de até 1.000
reais para cada e-mail enviado sem autorização prévia
do internauta. Mas nem todo mundo acredita que uma lei resolva.
A auto-regulamentação, adotada nos Estados Unidos,
tem muitos simpatizantes. Os sites americanos que exibem o selo
da Trust.e tiveram sua política de privacidade testada e
aprovada. O selo funciona como uma garantia para o internauta fornecer
seus dados.
No
Brasil, a Fundação Vanzolini, ligada à Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo, criou um
conjunto de normas para preservação de privacidade
na internet. Os sites que seguirem esse receituário ético
usarão um selo semelhante ao da Trust.e. Mas será
preciso jogar limpo. Nenhum sistema de captação de
dados será mantido sem o conhecimento do usuário,
que terá meios de saber que informações a seu
respeito foram arquivadas, além de poder mudá-las
e até retirá-las do cadastro. O internauta deverá
ser informado de que seus dados podem ser compartilhados e poderá
barrar o compartilhamento. "As pessoas lidam com a web como se fosse
a TV. Desconhecem as brechas que ela ocasiona em sua privacidade",
diz Carlos Cabral, da Fundação Vanzolini.
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O
que se pode fazer para barrar
e-mails indesejáveis
LEI
Três projetos que tratam da captação e
uso de informações de internautas aguardam votação
no Congresso brasileiro. Eles vão dar ao usuário
maior poder de barrar a publicidade eletrônica.
MERCADO
A auto-regulamentação parece ser a melhor saída.
Nos Estados Unidos, um selo identifica os sites que têm
uma política de privacidade que respeita o usuário
on-line, preservando seus dados, não vendendo cadastros
e só enviando mensagens a quem quiser recebê-las.
PROVEDORES DE ACESSO
Vários provedores oferecem recursos que barram, a pedido
do cliente, mensagens de signatários designados como
suspeitos. Um dos serviços mais avançados é
o da AOL, que, entre outras coisas, permite que os pais bloqueiem
mensagens com arquivos anexados enviadas aos e-mails dos filhos.
VOCÊ
Não responda mensagens indesejadas de desconhecidos,
mesmo que elas sugiram que, se responder, você será
retirado da lista. A resposta é a confirmação
de que seu endereço existe. E isso é tudo o
que eles querem saber.
Evite passar adiante mensagens dirigidas a múltiplos
endereços. Quebre as correntes. Elas são um
prato cheio para quem vende listas de e-mails.
Use recursos de programas como Outlook, Netscape e Eudora,
que censuram mensagens cujo remetente você indicar.
O ICQ pode fazer o mesmo.
Instale filtros que podem ser obtidos de graça em www.tucows.com,
www.zdnet.com/downloads/
e www.abreuretto.com/anti-spam/.
Eles bloqueiam pelo nome do remetente ou por uma palavra-chave
contida na mensagem. Cuidado para não exagerar nas
restrições. Barrando a palavra "oferta", por
exemplo, você fica livre de muitos e-mails indesejáveis
mas pode acabar não recebendo uma mensagem importante
que contenha a mesma palavra.
Evite informar seu endereço a sites que não
sejam de empresas conhecidas e com reputação.
Vale a pena ler a política de privacidade dos sites
que você mais visita.
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Propaganda
na veia do cliente
A empresa que usar spam para divulgar seus produtos pode ficar
certa de que está dando um tiro no próprio pé.
"O internauta se sente agredido, e o que era para ser uma
propaganda acaba virando motivo de irritação",
diz Luiz Fernando Vieira, diretor da Talent, uma das maiores
agências de propaganda do Brasil. Ao mesmo tempo em
que conhecem os riscos, os publicitários já
perceberam que, bem usado, o e-mail é uma poderosa
ferramenta de marketing. Por isso estão queimando neurônios
atrás de um modelo eficiente de propaganda via correio
eletrônico.
Uma das versões que pode funcionar foi batizada de
e-mail marketing. Diferentemente do spam, aqui a relação
de endereços eletrônicos inclui apenas pessoas
que aceitam previamente receber propaganda pela rede. O caminho
para construir a lista é diferente. Em lugar de uma
equipe de caçadores de e-mails, empresas seduzem internautas
com prêmios e até dinheiro, como fazem o site
americano SendMoreInfo.com e o espanhol Consupermiso.com.
As listas são gerenciadas por programas de computador
que fazem um raio X dos hábitos do internauta e só
enviam propaganda que se encaixa no perfil dele.
As maiores empresas do setor nos Estados Unidos, como a Netcentives,
têm cadastros alimentados diariamente com hábitos
de navegação e informações do
histórico de consumo do usuário no mundo real,
com base em programas de milhagem aérea, cartões
de crédito e outras fontes. "A chance de atingir pessoas
que realmente vão consumir o produto anunciado no e-mail
é enorme, pois a mensagem vai direto ao alvo", diz
Alexandre Chade, da Dotz.com, que adquiriu direitos de uso
da tecnologia da Netcentives no Brasil e promete, em dois
anos, estar apta a disparar e-mails mais certeiros. A empresa
opera há poucos dias, como um despretensioso programa
de fidelidade que dá prêmios a internautas que
navegarem por uma lista de cinqüenta endereços
famosos, como UOL, iG e Submarino. Em troca dos prêmios,
o internauta autoriza a Dotz a monitorar tudo o que ele faz
nos sites ligados ao programa.
Nos Estados Unidos, que costumam lançar todas as novidades
da internet geralmente com excesso de otimismo ,
o e-mail marketing começa a deslanchar. Segundo a Jupiter
Communications, cada internauta americano receberá
em média 130 mensagens desse tipo neste ano. Em 2002
serão quase 500 e em 2005, mais de 1 600. Graças
à tecnologia, a probabilidade de que os conteúdos
do e-mail se tornem mais úteis tende a crescer. Mas
o usuário terá de pagar duas vezes por isso.
Na primeira, gastando intermináveis horas para checar
suas mensagens, que serão em número muito maior.
Na segunda, e mais delicada, deixando que uma empresa siga
seus passos dentro e fora da rede, sabendo o que ele compra,
como paga, para onde viaja, o que come, onde se diverte, que
notícias lê ou o tipo de carro que aprecia.
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