Não
restou um
Pela primeira vez em três séculos,
um
macaco
é declarado oficialmente extinto
Anna
Paula Buchalla
A
morte era anunciada, mas ainda assim causou perplexidade e indignação.
Na semana passada, o antropólogo americano Scott McGraw declarou
extinto o macaco da subespécie Procolobus badius waldroni.
Pela primeira vez, depois de quase três séculos, um
primata deixa de existir oficialmente. Pequenos, buliçosos
e com pêlos espetados na cabeça, que lhes davam um
aspecto divertido de punks do universo símio, os waldroni
viviam nas florestas tropicais de Gana e da Costa do Marfim, no
oeste da África. Eles costumavam deslocar-se em grandes e
barulhentos bandos, até que o homem começasse a exterminá-los.
Hoje, um silêncio sepulcral recobre as copas das árvores,
o seu antigo hábitat.
Em 1996, a World Conservation Union, uma entidade voltada para a
preservação de espécies ameaçadas, publicou
a "lista vermelha" dos primatas em extinção. Ela mostrava
que, das 620 espécies e subespécies que existem ao
redor do mundo, 25 corriam sério risco de desaparecer por
completo. Os waldroni figuravam na lista com destaque. Para os especialistas,
a tragédia poderia ter sido evitada, caso a devastação
florestal e a caça indiscriminada tivessem sido contidas.
O panorama, no entanto, só faz piorar para o lado da macacada.
Em certas regiões da África, 90% do hábitat
original de algumas espécies já foi destruído.
Restritos a pequenas ilhas verdes, os animais transformam-se em
presas fáceis dos caçadores, que os abatem por simples
perversidade ou para vender sua carne. Em outras partes do planeta,
a situação não é melhor. A previsão
é que, se nada for feito nos próximos vinte anos,
cerca de 15% de todas as espécies de símios desaparecerão.
No rol dos primatas mais ameaçados estão 26 das 77
espécies brasileiras (veja quadro).
"Quando
um primata é extinto, as perdas são incontáveis",
afirma o professor César Ades, especialista em comportamento
animal da Universidade de São Paulo. Perde-se uma fonte de
conhecimento sobre o próprio homem, já que um macaco
e um ser humano têm histórias evolutivas muito semelhantes.
Os chimpanzés, por exemplo, são parecidíssimos
com os homens. Apenas 1,6% de seus genes são diferentes.
O último waldroni foi visto em 1980 e havia sete anos que
os pesquisadores da Wildlife Conservation Society procuravam um
exemplar dos macaquinhos punk. A história, infelizmente,
teve um final triste.
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