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Já fui um deles

Primeiro skinhead a deixar a gangue e
denunciar os colegas, rapaz de 20 anos
mostra como jovens podem aderir à
selvageria como se fosse coisa normal

Monica Weinberg

 
André Brant/André Penner/Egberto Nogueira/Omar Paixão/André Brant

O maior medo de Jorge é ser assassinado. O segundo é encontrar um skinhead na rua – "porque se isso ocorrer eu serei um homem morto". Jorge da Conceição Soler tem 20 anos, é negro, usa óculos, carrega um terço no pescoço e nunca se preocupou em ganhar músculos para se exibir nos embates de rua. Tem o perfil adequado para ser uma presa dos skinheads (cabeça raspada, em inglês), nome pelo qual são conhecidos esses militantes da intolerância e da selvageria que costumam espancar nas ruas negros, gays, nordestinos ou punks pelo fato de serem negros, gays, nordestinos ou punks. Mas Jorge Soler foi, ele próprio, um skinhead. Durante três meses pertenceu ao grupo Carecas do ABC, que não discrimina os negros, mas nutre ódio especial contra homossexuais, estrangeiros e punks. Chegou a testemunhar – segundo ele, sem tocar um dedo – o espancamento que levou à morte o adestrador de cães Edson Neris da Silva, que passeava de mãos dadas com o namorado no centro de São Paulo, em fevereiro passado. "Eu via um homossexual no meio da rua e evitava olhar. Morria de nojo dos punks", diz.

Ricardo Benichio
Jorge Soler, que está sob os cuidados do programa de proteção à testemunha

Jorge Soler é o primeiro caso de que se tem notícia no Brasil de um skinhead que abandonou o movimento e denunciou seus colegas de pancadaria. Depois de três meses na prisão, junto com outros dezessete skinheads dos Carecas do ABC, acusados de formação de quadrilha e homicídio, Jorge resolveu trocar de vida. Denunciou cinco colegas pela morte do adestrador e passou a colaborar com a Justiça. Hoje, respondendo em liberdade a processo por homicídio cujo julgamento deve ocorrer até o final do ano, ele aderiu ao programa de proteção à testemunha, cuja missão é garantir sua vida.

Filho único de uma dona-de-casa e um comerciante, Jorge mudou-se com os pais para o interior de São Paulo e sua casa é permanentemente vigiada por policiais. Formado no ensino básico, queria cursar administração de empresas, mas tem medo de entrar na universidade. Receia que, com uma rotina definida, vire alvo fácil dos skinheads. Em vez de estudar, ganha menos de quatro salários mínimos trabalhando como corretor de imóveis, uma atividade cuja rotina é menos previsível.

"Venha curtir" – Na história de Jorge Soler, chama a atenção a naturalidade com que se envolveu com os Carecas do ABC. Seu depoimento mostra que resolveu cerrar fileiras ao lado da boçalidade discriminatória com a simplicidade de alguém que aceita um convite para ir a uma festa. Um dia, no final do ano passado, ele saiu de casa em Diadema, cidade paulista conhecida pelas altíssimas taxas de homicídio, para comprar um CD de rock, tipo de música abominado pelos skinheads. No caminho, foi abordado por um membro dos Carecas do ABC. Era a primeira vez na vida que tinha contato com um skinhead. O rapaz convidou-o para um encontro do grupo num bar no centro da capital paulista. Ele foi. Gostou da conversa dos militantes mais velhos, que funcionam como líderes. Todos tinham em comum um emprego remunerado e o lema "Deus, pátria e família". "Me identifiquei logo. Eles disseram: 'Venha curtir com a gente'. E eu aceitei o convite", conta.

Em poucos dias, raspou o cabelo, passou a freqüentar as reuniões mensais sempre feitas em bares de São Paulo, qualquer bar, sem nenhum cuidado especial para evitar que fossem ouvidos. No dia em que matariam o adestrador de cães, os Carecas do ABC se reuniram num bar a 2 quilômetros da Praça da República, onde o rapaz seria morto. Em geral, nessas reuniões, fala-se do ódio aos punks, aos gays, da raiva de algum deles contra alguém que tenha queimado a bandeira nacional no Dia da Independência, do sopapo que um deles deu em um punk com que cruzou na rua. No meio da pauta de brutalidades, também se fala, nessas ocasiões, sobre assuntos amenos, como namoradas ou futebol. Em véspera de datas cultuadas pelos Carecas do ABC, como o Descobrimento do Brasil ou a Independência, o tema são as comemorações. Alguns produzem panfletos caseiros para distribuir, pregando sempre o lema "Deus, pátria e família".

Como a maioria dos militantes dos Carecas do ABC, Jorge Soler também nada contava aos pais. "Eu tinha vergonha de falar do que fazíamos", diz. Com sua adesão ao grupo, as agressões gratuitas passaram a fazer parte da vida do jovem de Diadema. "Quando alguém aparecia numa reunião contando que tinha esmurrado um punk, eu ficava com uma sensação de que a justiça havia sido feita", diz ele. Foi só no dia do assassinato de Edson Neris da Silva que Jorge se deu conta da barbaridade em que estava metido. "Até aquele momento achava a violência normal", conta. Mesmo porque não era a primeira vez que seu grupo batia num homossexual. Na mesma Praça da República onde morreu Edson, os Carecas do ABC tinham espancado Marcos Daniel Braga – que, por sorte, escapou da fúria com vida.

Prática esportiva – Os Carecas do ABC surgiram no início dos anos 80, inspirados no integralismo de Plínio Salgado, que, por sua vez, se nutria do ideário do fascismo italiano e do nazismo alemão. O movimento, porém, não prega a idéia da supremacia branca de Hitler, mas combate punks, gays e a presença de estrangeiros – especialmente gente procedente de países latino-americanos mais pobres, como Paraguai e Bolívia. Para eles, nenhum problema em relação a alemães, ingleses ou franceses. Na época em que entrou no grupo, e ainda hoje, Jorge não tinha mais que uma noção dos "fundamentos teóricos" dos skinheads, aquela sopa confusa e rudimentar em que se misturam pitadas de integralismo, nazismo e outras idéias exóticas da mesma família. Os integrantes dos Carecas do ABC pertencem, em geral, à classe média baixa. Boa parte trabalha como segurança, office-boy, secretário. O número de membros gira em torno de 100 na Grande São Paulo. E, como no caso de Jorge, talvez boa parte deles julgue praticar um esporte – espancando e matando. Só isso. Quando se constata a banalização da violência no país, nada parece mais eloqüente do que casos assim.

 
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