Mercado
na selva
Ruínas de palácio mostram que havia
comércio, e
não apenas guerra, entre
as cidades maias
Bia Barbosa
Fotos AFP
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Fotos AFP
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| Escavações
do Palácio de Cancuén, na Guatemala: hieróglifos
dão indícios de negócios entre cidades
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Quando
os espanhóis iniciaram a conquista dos maias no século
XVI, centenas de livros escritos pelos índios foram queimados
pelo bispo Diego de Landa. A fogueira literária foi a maneira
de os conquistadores destruírem a identidade do povo e facilitarem
sua subjugação. Ao mesmo tempo, acabou com a principal
fonte de informação sobre uma das mais importantes
civilizações pré-colombianas. Na semana passada,
um surpreendente aspecto da cultura maia foi revelado por arqueólogos
americanos. Eles encontraram um dos maiores e mais belos palácios
maias em meio à floresta de Petén, na Guatemala. Com
170 cômodos e três andares, a gigantesca construção,
que ocupa uma área de seis campos de futebol, foi durante
o século VIII a moradia dos reis da cidade de Cancuén.
O que impressionou os pesquisadores foi que, ao contrário
das cidades maias, Cancuén não tem templos nem indícios
de guerras. Os hieróglifos no local mostram que a cidade
viveu por mais de 800 anos do comércio de jóias e
alimentos com as regiões vizinhas.
Diferentemente dos impérios asteca, com sede onde hoje é
a Cidade do México, e inca, no Peru, a civilização
maia era organizada em cidades-Estado autônomas que viviam
isoladas em permanente estado de guerra umas contra as outras. No
seu apogeu, entre 250 e 900 d.C., havia mais de quarenta cidades,
cada qual com uma população que podia ultrapassar
50.000 pessoas, espalhadas por uma região que hoje abrange
partes da Guatemala, México, Honduras e Belize. Foram construídos
templos, pirâmides, quadras para jogar bola e sofisticados
sistemas de irrigação. Sacrifícios humanos
e autoflagelações eram a essência da religião.
Até mesmo o rei fazia pequenas incisões no pênis
para oferecer seu sangue aos deuses. O destino dos prisioneiros
de guerra era invariavelmente o altar de sacrifícios.
A civilização dos maias era pouco conhecida até
o começo do século XX, quando muitas ruínas
foram localizadas e se decifraram os primeiros hieróglifos.
As descobertas lançaram algumas luzes sobre sua religião,
baseada num panteão de deuses da natureza, como Sol e Lua.
Relacionados à religião, eles realizaram impressionantes
estudos astronômicos e o calendário preciso. Também
foram ótimos matemáticos, a ponto de utilizar o zero
em seus cálculos. Só em 1986, a americana Linda Schele
e o canadense Peter Mathews decifraram totalmente os hieróglifos
nas paredes dos palácios, permitindo finalmente saber como
viveram os maias. "Já se pensou que eram descendentes de
Atlanta", diz Leandro Karnal, professor de história da América
na Universidade Estadual de Campinas. "Não passava de preconceito
e revela uma incapacidade de conceber uma civilização
tão desenvolvida na América."
Todos os estudos mostravam os maias como um povo regido pela guerra
e pela religião. O intenso comércio entre as cidades-Estado
revelado com o achado na Guatemala mostra um novo aspecto de sua
cultura, mas ainda não esclarece o maior dos mistérios:
por que a civilização entrou em decadência no
ano 900 e as cidades começaram a ser abandonadas. Os espanhóis
encontraram apenas agricultores vivendo em aldeias e cidades fantasmas
no meio das selvas.
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