A Bíblia
no divã
Cursos
de formação rápida de
psicanálise para pastores tentam
conciliar Freud com a religião
Gabriela
Carelli
Rogério Voltan
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| Pastor
Jean: rejeição
à adúltera
que não
pára de trair
o marido |
O que Sigmund Freud, pai da psicanálise, pensava da religião
foi escrito no livro O Futuro de uma Ilusão, publicado
em 1927: ele considerava as doutrinas religiosas como delírios
da massa desamparada. Setenta e três anos depois, está
ocorrendo no Brasil o mais improvável dos casamentos, o do
Evangelho com Freud. Pastores batistas e presbiterianos estão
oferecendo cursos de formação de psicanalistas e já
entregaram o certificado de conclusão a pelo menos 1.400
alunos. A maioria deles são também pastores, que acabam
por alternar os sermões no púlpito com sessões
de análise no divã. As duas profissões têm
realmente algo em comum: ambas lidam com a angústia e os
problemas das pessoas. As semelhanças param por aí.
O maior problema reside na dificuldade em conciliar as teorias de
Freud, que via na repressão sexual e dos instintos em geral
a origem das neuroses humanas, com o moralismo evangélico.
"Sei que a psicanálise tradicional agiria diferente", diz
o pastor Antonio Jean, da Sociedade Psicanalítica Ortodoxa
do Brasil (SPOB). "Mas, se tenho uma paciente adúltera que
se recusa a parar de trair o marido, eu abandono o tratamento."
Em casos extremos, Jean simplesmente deixa de lado a psicanálise
e manda o paciente procurar ajuda espiritual num culto. Se considerar
que não se trata de neurose, mas de possessão demoníaca,
ele próprio tenta o exorcismo.
Fotos Cláudio Rossi
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| Eli
Ferreira e seu
divã: sem confundir o diabo com neurose |
Colega de Jean na SPOB, o pastor Gildásio Jesus Barbosa sentiu
na pele as diferenças entre religião e psicanálise.
Terminou o curso, mas na hora de aplicar seus conhecimentos concluiu
que não seria honesto atender pacientes utilizando uma técnica
que divergia completamente de sua fé. Abandonou os planos
de ser psicanalista e recomenda a outros pastores que evitem o que
considera uma grande salada mista. Ele acredita que a lei do Senhor
é o suficiente para restaurar a alma. Mas não arquivou
totalmente o que aprendeu. Às vezes, com cuidado, recorre
a algum conceito de Freud para entender o problema do fiel. Numa
psicanálise clássica, o profissional procura levar
o paciente a encontrar em seu inconsciente a causa do transtorno.
Em caso mais grave, encaminha o paciente a um psiquiatra.
O
pastor Jean, que neste ano deixou a Igreja Presbiteriana e fundou
seu próprio movimento, a Comunidade da Relva, tem um método
próprio para conferir a gravidade da situação.
"Para diferenciar uma neurose de uma possessão, que tem sintomas
bem parecidos, eu evoco o nome de Jesus. Um psicótico nunca
reagiria agressivamente ao nome de Jesus." Nem todos concordam com
o método. O pastor presbiteriano Eli Ferreira clinica há
mais de dois anos e afirma não ver contradição
alguma entre a fé e a psicanálise. "Nunca confundi
diabo com neurose", diz. Muitos evangélicos torcem o nariz
à entrada de Freud nos assuntos da religião. "Não
queremos semear a confusão na cabeça das pessoas",
afirma o pastor Ariovaldo Ramos, presidente da Associação
Evangélica Brasileira. Ele teme que o pensamento freudiano
possa confundir a cabeça de muitos pastores. Para ele, a
oposição entre Freud e a Bíblia está
mais do que evidente. "Só Deus sabe o que vai acontecer com
a Igreja se isso proliferar", preocupa-se. As dificuldades realmente
podem surgir a cada momento na vida dos pastores que se aventuram
na psicanálise. O caso do homossexualismo, por exemplo. Freud
não o via como pecado ou doença. Os evangélicos
não apenas o consideram inaceitável como se propõem
a curá-lo.
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| Gildásio
Jesus: dificuldade
para conciliar
Freud com
Cristo |
A difícil
questão de como lidar com as idéias de Freud no exercício
do sacerdócio recebe pouca ênfase nos cursos. É
deixada para ser resolvida pelo aluno na prática. Os primeiros
cursos de psicanálise ministrados por pastores foram criados
pela SPOB em 1996. Têm vinte meses de duração,
com aulas apenas nos fins de semana, em encontros realizados em
hotéis. Atualmente são quatro entidades. Entre elas
está a Escola Superior de Psicanálise Clínica,
que oferece cursos por correspondência, com formação
em 24 meses. "Criar psicanalistas dessa maneira é o mesmo
que formar um cirurgião por e-mail", critica o americano
Otto Kernberg, presidente da Associação Psicanalítica
Internacional (IPA). O facilitário com que se ensina nos
cursos evangélicos é outra enorme diferença
com a psicanálise tradicional. Fundada por Freud em 1910,
a IPA exige que o candidato a psicanalista se submeta a 400 horas
de análise com um profissional qualificado antes de pisar
na sala de aula. Seguem-se dez horas semanais de seminários
teóricos durante cinco anos. Os professores depois irão
supervisionar as primeiras 160 sessões de análise
feitas pelo aluno. Seguindo as regras internacionais, a Associação
Brasileira de Psicanálise formou apenas 980 psicanalistas
em 33 anos.
As
diferenças nos métodos de formação estão
no núcleo de uma verdadeira batalha a respeito de quem tem
o direito de formar psicanalistas no Brasil. A SPOB prometia bacharelado
em psicanálise, mas parou de falar em diploma universitário
depois que o Conselho Federal de Psicologia (CFP) entrou com duas
representações no Ministério Público
por propaganda enganosa. A SPOB contra-atacou movendo uma ação
judicial contra o CFP por preconceito religioso. Por via das dúvidas,
parou de falar em diploma e agora diz que sua entidade só
forma psicanalistas. A diferença é jurídica.
Psicologia é uma profissão regulamentada por lei,
que só pode ser exercida por quem se formou numa universidade
reconhecida. Psicanálise é uma técnica que
pode ser praticada por qualquer um que tenha curso superior. Apesar
da respeitabilidade da categoria e do esforço necessário
para formar um psicanalista, a verdade é que, do ponto de
vista legal, a profissão está inteiramente aberta
a qualquer um que faça um cursinho rápido com os evangélicos.
Na Alemanha e nos Estados Unidos está em discussão
a necessidade de maior controle dos cursos de psicanálise,
provavelmente com a criação de uma espécie
de provão para avaliar a qualidade de cada um. No Brasil,
por enquanto, não se fala nisso.
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